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Beleza

Pois é… eu sempre penso que a beleza é um fardo muito pesado de carregar, tanto quanto o dinheiro e o poder. Pense nas mulheres lindas do cinema; raras foram as que foram felizes na sua vida pessoal. Muitas, como Marilyn Monroe, morreram muito cedo. Grace Kelly foi vítima de sua fantasia de princesa, tendo uma vida inteira de infelicidade ao lado de Rainier. Ava nunca se curou de Frank Sinatra, e Rita jamais superou Orson Welles. Guy Williams morreu aos 65 anos solitário em um hotel em Buenos Aires. Tanta gente cuja beleza jamais lhes garantiu o amor infinito que pareciam ter como certo.

Ao contrario da vida de sedução, charme e glamour que imaginamos, a regra para uma grande parte das beldades é o martírio, o abandono, a solidão, o desamor e a frustração.

Se me fosse dado escolher como transitar por esse mundo meu pedido seria simples: nem tão feio a ponto de ser repugnante, mas também não desejaria ser tão bonito a ponto de ofuscar qualquer outra virtude que pudesse ter ou desenvolver. Sim, minha opção seria um “não fede nem cheira” na estética, a mesma escolha que faria para a riqueza: nem tão pobre a ponto de passar necessidades, e nem rico a ponto de monetizar a vida e os afetos.

Creio ser mesmo verdade: para os lindos a atração é natural, mas para os feiosos é preciso esforço e dedicação, o que acaba produzindo um sujeito mais completo e integral. Acho charmoso alguém cujos defeitos e imperfeições lhe conferem autenticidade.

Ser lindo(a) e não se tornar arrogante e superficial é uma tarefa pesada demais, que poucos conseguem suportar. Deus, ao me brindar com está espetacular mediocridade, sabia bem o que estava fazendo.

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Imprensa Livre

Ah, a “imprensa livre”…

Hoje (mais) duas empresas romperam o patrocínio com a rádio Gaúcha aqui de Porto Alegre em razão dos comentários no programa Timeline de um formador de opinião que se chama Davi Coimbra.

Eu acho o Davi Coimbra um desastre comentando futebol, e seus comentários sobre política são conhecidos como “a voz do patrão”, sempre à direita, contra Lula, contra o PT e com ataques frequentes à esquerda. Eu jamais o assisto desde um famigerado posicionamento seu – sem provas e sem evidências – contra Lula para impedi-lo de concorrer à presidência. Também não assisto o Timeline, mas sei que a entrevista com Lula foi desrespeitosa e grosseira, assim como uma realizada com o senador Requião na qual ele bateu com o telefone de tão furioso ficou com o tratamento jocoso e debochado dos jornalistas do programa.

Posso não gostar nada do que estes comunicadores falam ou escrevem, mas esse é um problema de quem os assiste, não meu. Faço o meu boicote pessoal e acho justo que assim se faça. Se não houver abuso da lei digam o que quiserem em seus veículos. Entretanto, o que vemos agora é que os patrocinadores retiram os contratos diante das discordâncias de opinião. Tudo para não manchar sua imagem diante de opiniões controversas.

Atentem para a situação: hoje em dia, o que você escuta e assiste em uma rádio e também em outros meios fica por conta da régua moral de um fabricante de bolachas que, por discordar do chato do Davi, resolve retirar o seu patrocínio. Foi exatamente o que aconteceu…

Entretanto, “imprensa é dizer aquilo que alguém não quer ouvir”. Essa é a frase do imperador do jornalismo americano, William Hearst, que inspirou Orson Welles em Cidadão Kane. Dizer grosserias pode ser jornalismo, assim como destratar pessoas. O jornalista anda no fio da navalha, pois para trazer a verdade sempre corre o risco de ser ofensivo. Minhas grosserias contra Bolsonaro precisam ser toleradas assim como aquelas ditas contra Lula. Se estiver dentro da LEI está valendo. Retire-se dessa pauta difamação e calúnia e o resto precisa ser protegido. Todos fazemos críticas e elas também precisam de proteção. Se nós admitirmos esse tipo de patrulha sobre a opinião alheia então seremos reféns desse tipo de controle corporativo sobre o que pode ou não ser dito.

E quem disse que empresas de bolacha tem o direito de decidir que tipo de notícia será dada? Ou a perspectiva a ser utilizada? O que eu digo é que esse tipo de controle da notícia pelo capitalismo pode ser qualquer coisa, menos imprensa livre. Prefiro a opinião ridícula de um bolsonarista que fala para quem quer lhe escutar do que o controle feito por algum capitalista (ou pelo Estado) do que seja justo noticiar.

Jornalismo é falar algo que alguém não quer ouvir, mas racismo, machismo, difamações ou mentiras não são cobertas por esta análise, exatamente porque há LEI para coibir este tipo de manifestação.

Para mim fica evidente e translúcido o ocaso da imprensa corporativa. Uma imprensa que precisa agradar seus patrocinadores produz um jornalismo vendido, amarrado, preso. Pode ser tudo, menos imprensa livre.

Jornalista fazendo publicidade de produtos – como garotos propaganda – é o fim da várzea. Sou do tempo em que se dizia “jornalista não tem amigo”, para mostrar que o profissional da imprensa íntegro deveria estar na linha de frente para ACUSAR as empresas que ferem a ética, políticos que agem de forma corrupta e até empresas que atentam contra a saúde pública. Mas, para serem silenciados, são comprados com patrocínios em seus programas. “Não disse o que queremos ouvir? Então tiramos o seu salário”.

É preciso criar um novo modelo, sem as amarras da publicidade corporativa, sem as chantagens e pressões do capital. Sem isso não temos imprensa, no máximo “relações públicas” empresariais.

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