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Declarações desastrosas

Qualquer interação com a polícia ou a imprensa tem o risco potencial de produzir devastação. Uma pessoa sensata, vivendo em tempos de ódio, se afasta disso. Hoje a atitude que parece ser mais racional é o silêncio. Para quem tiver estômago e pendor suicida, um “raid kamikaze” contra os fogos antiaéreos pode ser a última entrevista.

Lembro quando as rádios e os jornais ligavam no início do inverno para a Liga Homeopática em busca de um homeopata para dar entrevista sobre vacinas. Partiam do princípio de que, por questionarem a medicalização abusiva da sociedade e cultivarem uma postura crítica diante da indústria farmacêutica, os homeopatas automaticamente repudiavam vacinas.

Nem sempre.

Quando o telefone tocava e a secretária avisava que o jornalista estava na linha a gente dava risadas, avisando que estávamos em atendimento. Essas entrevistas eram ciladas, criadas especificamente na busca de conflito e polêmica. Entretanto, a gente sabia que não teria a mínima chance de um debate justo. Bastaria uma resposta titubeante para que o massacre fosse iniciado.

Uma das rádios que ligava tinha todo o seu setor jornalístico controlado pela corporação médica – até hoje. O Conselho, o sindicato e a Unimed local patrocinavam pesadamente os programas noticiosos. E por quê o faziam? Que produtos ou bens um CRM ou um Sindicato têm para que os ouvintes possam comprar?

Ora, vendem sua credibilidade e influência na cultura da cidade. Propaganda institucional da categoria. Todavia, pelo montante de verba aplicada, por certo que controlam as pautas. Precisa ser ingenuo para acreditar que tal aporte de publicidade não demandaria contrapartida.

Uma mensagem qualquer durante uma entrevista, por mais ingênua ou suave que fosse, poderia desencadear uma resposta violenta das instituições. Lembram do ativista do parto humanizado que ousou falar de partos domiciliares no Fantástico – respaldado por evidências científicas – e foi atacado duramente pelos membros da corporação de outro estado?

O linchamento midiático que recaiu sobre o casal do Rio (o engenheiro e sua parceira) é um exemplo de como a punição nos tempos de internet é veloz, destruidora e até mesmo desproporcional quando opiniões impensadas são jogadas diante de uma câmera e um microfone. Não é preciso debater o quão errados, em muitos níveis, eles estavam, mas fica claro que hoje em dia se deve adotar o silêncio como proteção. Debater temas sérios como o racismo, feminismo, Venezuela, Israel, Cuba pode causar um massacre terrível produzido pelas patrulhas à esquerda e à direita.

É uma lástima que estas patrulhas engessem as discussões, imobilizem o debate e promovam a “lei do silêncio”. E digo isso apenas porque ontem passei o dia recebendo mensagens inbox me dizendo “eu não concordo, mas não ouso dizer para não ser linchado”.

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Imprensa Livre

Por que pagar para ler notícias?

Hoje em dia vemos o surgimento das “Mídias independentes” que se contrapõe à mídia corporativa. O advento da Internet oportunizou a multiplicação ad infinitum de fontes de informação – algumas de alta qualidade e outras pura enganação. A diferença é que nas mídias tradicionais os anunciantes atuam – direta ou indiretamente – na escolha de pautas, nas ênfases e no próprio trato da notícia. Afinal, ninguém (nenhuma corporação) vai pagar os altos custos dos noticiários para correr o risco de ter o nome de sua empresa enxovalhado.

Há alguns anos abrimos uma clínica em uma cidade média do Interior do RS. Depois disso fomos convidados pelo diretor do jornal – um típico “coronel” da informação – para anunciarmos em seu veículo, o único diário impresso da cidade. Ele de cara me informou: “Minha política aqui é a seguinte: se alguém vem ao jornal para reclamar dos médicos eu ligo direto para vocês antes de publicar”. Nenhum constrangimento em confessar que seu jornal era para proteger os poderosos.

E não são apenas empresas. Aqui no RS o conselho de Medicina compra muitas horas na rádio da maior empresa de comunicação local para, com isso, interferir nas pautas médicas. Ora… que produto o CRM tem para vender? Apenas a imagem da medicina, que é passada nos noticiários, inclusive escondendo notícias desagradáveis sempre que possível (como a Globo faz com a Vaza Jato). Essa é uma das práticas mais antigas, que mostra o poder da informação no mundo contemporâneo. Podemos confiar em uma imprensa que pode ser facilmente comprada pelo poder do dinheiro?

Por outro lado a mídia independente, para não sofrer pressões do capital, precisa que o ouvinte/leitor/telespectador seja o único financiador, para que suas pautas não sejam controladas pelo poder econômico, fazendo da audiência o único cliente a ser contemplado. Sem rabo preso e sem constrangimentos de nenhuma natureza por parte do poder econômico.

Esta é uma forma de estimular um jornalismo livre, cuja única fidelidade seja a utopia da imparcialidade. A alternativa a isso existe em outros países: uma empresa pública de comunicação, que não seja atrelada aos governos (uma empresa do Estado) e que possa inclusive lhe fazer oposição.

Por exemplo: para criar um congresso médico e impedir que as palestras do evento sejam comandadas por espaços comprados pela indústria farmacêutica (como nos congressos nacionais e internacionais de medicina) o cliente final (parteira, dotô, doula, psi, etc) precisa pagar para que o congresso seja LIVRE das influências do poder econômico – dos equipamentos, dos hospitais e da Big Pharma – as gigantes vendedoras de drogas.

Por isso é que é urgente criarmos IMPRENSA LIVRE, sem amarras com o sistema econômico.

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