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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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A Verdade

Bem, talvez dizer que “cada um tem sua verdade” seja tão alienante quanto a ideia de buscar a Verdade, como se esta fosse um ente possível de encontrar pelo sujeito, pela filosofia ou pela ciência. Nietzsche já nos dizia que “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade por medo de destruir suas ilusões”, mas, ao mesmo tempo, dizia não haver “fatos eternos e verdades”. Contra a ideia positivista de que no mundo há apenas fatos, Nietzsche respondia: “Não, fatos são em essência o que não existe, tudo o que temos são apenas interpretações”. Ou seja, mesmo para ele, a busca pela Verdade era muito mais um caminho de depuração dos preconceitos acumulados do que uma real luta para encontrar a clareza total e luminosa da realidade do mundo. Além disso, longe de ser estranho, o conforto que sentimos nas doces ilusões da vida e o apego às mentiras que teimamos em não abandonar são as principais características que nos tornam humanos. Não?

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Selvageria

Qualquer generalização no campo da interpretação dos sintomas pode cair na vala profunda da selvageria – mesmo quando correta. O diagnóstico não pode servir como julgamento ou condenação sumária, por mais que alguma teoria metafísica nos seduza nesse sentido. Uma consulta não pode se transformar em uma brincadeira de adivinhação.

É preciso entender que o cuidado com os pacientes – em especial as grávidas em suas fragilidades – requer uma atenção amorosa, isenta de preconceitos e sem julgamentos de ordem moral. As ferramentas diagnósticas e mesmo a visão ampla e psicossomática da doença não podem ser instrumentos de tortura medieval, imputado culpas e criando ressentimentos.

Mesmo que os sintomas, quaisquer que sejam eles, nos permitam inferir suas origens emocionais ou psíquicas, não cabe aos profissionais usar este conhecimento como arma. A prática do cuidado não pode ser o exercício da crueldade.

Se as terapias de qualquer tipo são “fraternidade instrumentalizada” então qualquer palavra, ato ou silêncio de um terapeuta só podem ser guiadas pelo sentido do cuidado amoroso. Sem esse guia perdemos toda a dimensão humana e fraterna da arte de curar.

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Selvageria

Creio que um bom terapeuta jamais procura “segundas intenções” ou o “sentido oculto das coisas” em seus pacientes. Não por virtude, mas porque percebe a inutilidade dessa busca.

Primeiro, porque TODAS as ações tem intenções outras, para além de sua operacionalidade superficial. Porém, a simples procura por sua raiz é uma busca estéril. A descoberta das razões para o comportamento aberrante ou aparentemente paradoxal de um analisando não possui nenhuma utilidade, a não ser que ele próprio descubra – e por si mesmo – os truques dessa engenharia mental inconsciente. Interpretar e jogar por sobre o paciente essas elucubrações com base em teorias psíquicas não passa de “análise selvagem” – ou pura crueldade arrogante. O sentido “oculto” das coisas não deve jamais ser uma busca para o terapeuta, mas um guia para o paciente. Pouco importa ao psicólogo “descobrir” que o ódio pela ex mulher encobre uma atração residual ou uma relação que teima em sobreviver através do rancor. Só haverá sentido se o paciente encontra as vias para enxergar POR SI PRÓPRIO esta realidade.

A pergunta é: interpretar para quê? De que nos valeria chegar no consultório de um psicólogo e antes mesmo de sentarmos ele dizer: “Seus problemas estão relacionados às sobras de um triângulo amoroso que se estabeleceu na aurora de sua vida, o qual forma a estrutura de sua sujeição à linguagem: você, sua mãe e alguém além dela. Pronto, pode se levantar. Interpretei seu drama existencial e cheguei ao âmago de suas angústias mais primitivas.”

Muito bem interpretado e, no meu modesto ver, até correto. Mas é daí? Que valor há numa descoberta cujo caminho doloroso não foi trilhado pelo sujeito? De que servem essas palavras corretas, justas e estéreis?

Para mim a interpretação de um nó psíquico é como Santiago de Compostela. Como cidade… bem, já vi melhores. Mas se você chegou lá caminhando 850 km com seus próprios pés então essa cidade tem um sentido único, e que pode ser transformador.

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