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Observações a partir de um texto de Zizek

Observações pessoais, sujeitas à críticas:

Sim, a ideia (ou o clichê) de que “Freud está ultrapassado” é muito comum em alguns grupos. Algumas feministas ficam enfurecidas quando o mestre austríaco é citado em qualquer contexto. Muitas vezes li e ouvi de forma bem clara que a queixa contra Freud ultrapassava suas concepções sobre a mulher e o feminino, e invadia a própria essência da mensagem freudiana, ou seja, a existência de uma dimensão do inconsciente. Nestes momentos eu vejo claramente a imagem do discurso pré freudiano, onde a negação do inconsciente leva a uma arrogância racionalista.

Eu também acho pura arrogância a ideia de ser “fiel a si mesmo”, no sentido de obedecer as suas vontades e desejos. Via de regra ignoramos por completo o que verdadeiramente desejamos. Quando eu vejo relatos de pessoas sobre o que são, como pensam, seus valores, suas virtudes eu chamo de “síndrome de pocanálise”, pois os relatos nunca falam da verdade do sujeito, que lhe é interditada. Por isso precisamos de Freud mais do que nunca. O mundo não vai ultrapassar Freud até que surja algo tão revolucionário quanto sua obra para compreender a alma humana, o inconsciente e a sexualidade.

A ideia do jogo, da ficção, sempre foi uma estratégia que usei em consultas, baseada no fato de que pedir que alguém fale (a verdade) sobre si mesmo é ingênuo e inútil, e produz apenas alegorias, fantasias e auto enganos. Assim, eu pedia para que os pacientes descrevessem os outros, seus amores e seus desafetos, ou pedia que vestissem uma máscara qualquer, ao estilo “no lugar dele, o que você faria”, e escutava atentamente o paciente descrevendo seu personagem como em um jogo de RPG. Somente nesses momentos era possível que alguma verdade surgisse, desviando do retrato enganoso que sempre fazemos de nós mesmos.

Concordo que a repressão do desejo leva ao desejo da repressão. Essa característica fica muito fácil de ser percebida no proibicionismo. Pode ter certeza que aqueles que mais querem punir, castigar e proibir são os que mais sofrem pela repressão de seus desejos. Vemos isso com facilidade na legião de fascistas que querem a repressão a todo custo, que desejam prender o Lula, fechar o STF, diminuir a idade penal, a volta da ditadura, prisão, encarceramento, pena de morte ou que apoiam linchamentos de toda sorte. Estes, que tanto querem proibir e punir, são os que mais se martirizam como o bloqueio da expressão de seus desejos.

Por certo que todo o jogo da sexualidade está em jogar com os obstáculos. O segredo do desejo é a proibição, e por isso tanto desconforto ou desinteresse na sexualidade ocorre na medida em que os seus obstáculos desaparecem ou são suprimidos pela cultura. No filme “O Piano” de Jane Campion, aparece a bela metáfora do “furo na meia” que, ao meu ver, simboliza o gozo de brincar de driblar os obstáculos. Por isso eu gosto tanto do pudor: ele é exatamente essa proibição, esse bloqueio, o muro, que produz a vontade constante de brincar com os véus que se interpõem entre nós e o objeto de desejo.

Uma vez reclamei da facilitação que pais faziam para o exercício da atividade sexual de seus filhos adolescente. Fui atacado exatamente por entender que nenhuma sexualidade madura vai se estabelecer sem que ela esteja associada à suplantação de barreiras e muros – quanto mais alto mais será a significativa a conquista. Há ajudas que são profundamente destrutivas.

Por fim, concordo com Zizek que a sexualidade se baseia na possibilidade de manter um espaço de impossibilidade.

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Pouca mesmo

Meu caríssimo amigo Maximilian, depois de meses sem dar as caras, ligou esta manhã para um longo choramingo a respeito de figuras pouco iluminadas que atravessam seu caminho. Lá pelas tantas, depois de gastar sua artilharia de adjetivos, soltou essa pérola:

– … e depois, sem mais delongas, voltou a vomitar platitudes, escorregando em sua verborragia viscosa, demonstrando não passar de mais uma vítima da pocanálise, que a tantos incautos ataca…

Perguntei porque ela seria uma vítima da “psicanálise”, pois jamais me ocorrera que ela um dia tivesse se embrenhado na escuridão solitária e fria desta aventura pelo discurso. Ele me respondeu:

– Você ouviu errado, ela é vítima da “pocanálise”, mesmo, um escasso ou insuficiente transcurso pela escuta de si mesma, o que a faz repetir autoelogios e a torna cega para as reais motivações que guiam sua vida.

Ahh, entendi. E acho que sim; uma análise faria maravilhas naquele corpitcho

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Mentira

Creio ser necessário lembrar…

“…não haveria vida civilizada sem as verdades escondidas. Digo mais, creio que não haveria sequer a multiplicação das células no caldo primitivo não fosse a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e a falsidade. A vida humana se construiu a partir do falseamento do verbo, a troca maldosa dos sentidos, a mudança sorrateira da direção das palavras à sorrelfa da própria realidade, a qual desaparece diante do gigantismo implacável da linguagem. Como diria Lacan, “a palavra matou o Real”, mas quem lamenta? Ou alguém um dia experimentou alegria e genuíno prazer ao abraçar um feixe de nervos e tendões, suores e lágrimas, só para sentir junto ao peito as contrações rítmicas de uma bomba de sangue?”

Jean B. Laviolette “L’art de mentir”, ed. Parole, pág. 135

Jean Benoit Laviolette é um psicanalista francês, nascido em Marseille em 1952. Fez formação na Sorbonne e formou-se em psicologia em 1978. Escreveu inúmeros artigos para a “Gazette Psychanalytique” quando morava em Paris e estudava com seu mestre, Jacques Lacan. Depois disso, já nos anos 80, passou a atender em sua clínica em Strassbourg, quando conheceu Madeleine Truffaut, escritora e poetisa, com quem se casou e teve 3 filhos. Escreveu três livros da área da psicologia, que poderiam ser entendidos como uma trilogia, apesar do autor negar que tivesse a intenção de continuidade para qualquer um dos seus livros. O primeiro foi “A Palavra Escondida”, seguida de “Ouvidos de Pedra”. Em 1995 escreveu “L’art de Mentir”, que, segundo ele, lhe ofereceu uma inesperada popularidade. Mora em Strassbourg com esposa e filhos.

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Homossexualidade

Muito se tem debatido nas últimas décadas a respeito dos condicionantes para orientações ou mesmo para a identidade sexual nas sociedades humanas. As explicações variam daquelas vinculadas à biologia e a exposição a substâncias intrauterinas, passando pelas teorias comportamentais da psicanálise ou mesmo a ausência total de qualquer explicação, diante da ausência de condicionantes claros e evidenciáveis. Ainda resta muito a ser descoberto especial no que se refere à sexualidade humana e tantas outras questões imateriais que nos cercam.

Em relação às definições de homossexualidade (ou heterossexualidade) minha posição continua inalterada: só consigo entender a “origem” dessas orientações inseridas na constituição do sujeito, na sua subjetividade, na sua unicidade e na sua delicada estrutura psíquica, indissociável de sua história. O que a impressão simplista nos informa é frequentemente errôneo, e essas simplificações nos fazem perder a dimensão complexa do fenômeno. Para a questão complexa do desejo sexual, só posso admitir uma resposta igualmente complexa e que tem a ver com a intrincada construção de nossa personalidade.

Lembro bem de uma paciente que atendi há muitos anos e que me procurou por questões ginecológicas simples. Separada, tinha uma filha adolescente. Perguntei sobre anticoncepção e ela me contou não usar nenhum método porque tinha uma parceira; estava namorando outra mulher. Ok, nada de mais simples do que atender uma pessoa homossexual, mas o que ela me disse depois foi interessante.

Relatou que jamais se interessou por mulheres durante toda sua vida, mas tão somente por aquela mulher específica. E se viesse a se separar dela (o que achava que ia ocorrer em breve) não se imaginava procurando outra mulher para namorar. Portanto, a construção da sua “homossexualidade” – ou bissexualidade – era absolutamente única, pessoal e específica, e qualquer rótulo que se colocasse sobre ela seria limitante e não contemplaria a verdadeira dimensão do seu desejo.

Uma resposta, que me foi oferecida por uma amiga psicanalista, seria que “sua resposta poderia ser tão somente uma justificativa pra se permitir viver um amor lésbico que ela, de outra forma, não se permitiria viver. Isso porque ela acha que sabe de si mesma, acredita se conhecer, tem uma imagem e uma história de si mas, de repente, se encontra amando alguém que não se encaixa nessa narrativa. Aí cria-se um problema. Dizer “só ela” abre uma possibilidade sem, necessariamente, arranhar essa imagem de si, essa narrativa construída de si mesmo, o que ela pensa e aceita ser. Quase um passe, uma carta que a gente mostra, uma autorização: olha, é isso, é só isso, não precisa se preocupar.”

Claro que pode ser esta a resposta, mas um olhar exterior teria dificuldade para interpretá-la ou classificá-la sem embarcar numa viagem ao seu inconsciente e seus significantes para descobrir este espaço único e subjetivo que ela construiu para o seu desejo. Qualquer interpretação que não percorra esse caminho único será pura selvageria.

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Maturidade

Baruch (Benedictus, depois da excomunhão judaica) Espinosa foi um pensador holandês do século XVII de extrema relevância, fazendo parte do grupo dos grandes racionalistas, onde constam Leibniz e René Descartes. Ocupou-se da teologia e da política, tendo abordado ambos os temas em seu grande livro “Ética”.

Espinosa, entretanto, morreu aos 44 anos de idade, vítima de tuberculose. Homem simples, sobrevivia como relojoeiro e polidor de vidros. Renunciou aos prazeres da vida em nome das virtudes do conhecimento, em especial depois de sua trágica e injusta excomunhão da vida judaica.

Eu ainda me lembro muito bem dos meus 44 anos, e nem faz tanto tempo. Entretanto, não recordo dessa idade com saudade, pois percebo o quanto minha mente amadureceu nos últimos 15 anos. Quando penso em sua partida prematura, às vezes me pergunto o que Espinosa teria escrito aos 60 ou 70 anos. Se aos 44 conseguiu deixar sua marca de excelência no mundo do pensamento, o que mais poderia ter feito se mais tempo estivesse entre nós?

Normalmente a obra “Interpretação de Sonhos”, de Sigmund Freud, escrita em 1900, é reconhecida e apontada como o divisor de águas de um período pré-psicanalítico anterior à sua obra centrada na psicanálise. Quando a escreveu Freud tinha…. 44 anos.

Assim, toda a construção da teoria psicanalítica, feita por um dos maiores gênios da humanidade, surgiu após sua maturidade, alcançada depois dos 44 anos, idade com a qual outro gênio, algumas centenas de anos antes, nos abandonava.

O que teria escrito um velho Espinosa? Nunca saberemos, mas certamente seria ainda mais profundo e maduro.

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