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Respostas padrão

Há mais de 30 anos o padrão é o mesmo. Quando alguém crítica o abuso de cesarianas e destaca a importância do parto normal a resposta nas redes sociais é fatal: alguém se ergue para dizer que “a cesariana salvou minha vida e do meu bebê, que estava se enforcando no cordão” ou ainda que “eu demorei 5 dias em trabalho de parto, pois os médicos não viram que eu não tinha passagem”, e etc. Finalizam dizendo que “no passado morriam milhares de crianças e mães porque não havia cesarianas e que parto normal – segundo seu médico – é algo antiquado e arriscado”.

Moça, acredite, não é sobre você. É a respeito de todas as mulheres. O seu caso isolado não é importante o suficiente para produzir uma regra que se ocupa de todas as mulheres grávidas. Ele é apenas o seu caso. É importante na sua história, mas não pode ser o padrão para todos os nascimentos.

Bom saber que havia cesarianas à disposição para o seu atendimento, mas isso não significa que o fato de você estar satisfeita com sua cesariana não significa que uma cirurgia como essa não seja frustrante para muitas outras mulheres. Também não há provas de que, mesmo que sua cesariana tenha sido realmente necessária, milhares de outras não tenham sido indicadas por razões sem embasamento científico algum.

Nós respeitamos sua ideia e sua escolha sobre a via de parto. Pedimos apenas que tenha a mesma consideração e empatia com a dor e a frustração de quem sofreu uma cesariana desnecessária.

Acredite, dói bastante.

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Adeus Renan

Depois de uma longa espera o jornalista Renan Antunes (do DCM) finalmente recebeu um rim novo através de um transplante. Trabalhei muitos anos com doentes renais antes de me formar em Medicina e sei o quanto um transplante significa para um doente renal crônico amarrado a uma máquina. Depois da cirurgia – que teve o sucesso esperado – Renan estava feliz e radiante com a oportunidade de recomeçar sua vida ao lado da família.

Poucas semanas depois do transplante eclode a pandemia do Covid. Renan era do grupo de risco pelas medicações imunossupressoras utilizadas como estratégia para evitar a rejeição do rim transplantado. Era natural que ficasse angustiado e com medo da contaminação.

Surgem sintomas respiratórios e ele vai ao hospital. Avisa de sua falta de ar assim como de sua condição especial de imunodeprimido. Faz o teste para Covid e logo depois é liberado para casa, mas com uma receita nas mãos que se mostraria desastrosa. Premidos pelo medo e pela pressão da opinião pública – onde se encontram figuras públicas como o presidente da República – os médicos receitam Hidroxicloroqina; muito provavelmente “por via das dúvidas”.

Complicações cardíacas tiraram sua vida poucas horas depois. Arritmia, disseram. Logo depois vem o resultado do exame para o corona vírus: negativo.

O que matou Renan Antunes?

Não vou jogar os médicos aos leões, por certo. Tenho certeza que fizeram o que lhes parecia melhor. Vão sofrer ataques e agressões, mas prefiro me colocar no lugar de quem toma decisões dramáticas em situações críticas. Atire a primeira pedra aquele que…

Entretanto, creio que está é uma morte que poderia ser evitada não fosse a ideologia que EMPURRA os profissionais a usarem tecnologia, mesmo quando sua utilidade não é garantida ou quando seus malefícios aumentam – ao invés de diminuir – os riscos em uma determinada enfermidade. A isso chamamos de “imperativo tecnológico”, que não é um mito da medicina, mas cultural; não apenas os médicos são afetados, os pacientes também.

Renan morreu por uma série de mitos. O mito da transcendência tecnológica, o mito da inocuidade das drogas, o mito da autoridade suprema dos médicos. Acabou sendo vítima do medo que os profissionais da saúde tem de esperar e não medicar. Medo de “nada fazer”.

Como no parto, a suprema sabedoria da clínica está na “lentidão dos atos que se aproxima da imobilidade”, reservando a ação heroica apenas para os casos dramáticos onde a ação se faz imperiosa. Talvez – e aqui apenas uma suposição – o nada fazer seria a mais justa e correta atitude. Renan estaria hoje fazendo um escalda-pés em casa e tomando chá de limão com mel (além das drogas para prevenir a rejeição). Mas para que isso acontecesse teríamos que abrir os olhos para tantos mitos (do grego mythós, de mýein = fechado) que não nos permitem enxergar que em Medicina, na maioria das vezes, menos é mais.

Siga em paz, Renan…

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