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Homeschooling

Primeiramente, devo ressaltar que minha posição quanto ao ensino doméstico é muito semelhante àquela que tenho sobre parto domiciliar. Ao mesmo tempo que acredito serem as variantes domésticas um direito sagrado, baseado nas opções de vida dos envolvidos, acredito que não há como imaginar uma sociedade sem escolas e sem maternidades. Escolas são fundamentais para apresentar o mundo às crianças, com todas as suas contradições, descobertas, frustrações e dramas. Maternidades são fundamentais para dar conta dos casos de risco e para acomodar o grande número de mulheres parindo nas cidades. Portanto, não acredito que em médio prazo seja possível suprimir estas instituições.

É curioso notar, entretanto, o quanto os religiosos fundamentalistas adoram a proposta do homeschooling. Mesmo sendo um direito do sujeito e das famílias, sabemos muito bem as razões não faladas para que os fanáticos da direita religiosa não desejem os filhos na escola. O objetivo inconfesso é que suas crianças não tenham acesso facilitado ao contraditório, à ciência, à diversidade e ao pensamento crítico. Pelas mesmas razões, a extrema direita odeia as universidades, porque lá o ensino propõe conhecimento múltiplo e universal, com pleno acesso ao debate, ao enfrentamento de ideias, sempre iluminado pela luz da razão e das evidências. O conhecimento fomentado nas universidades assusta o obscurantismo religioso e a direita mais reacionária que, com suas visões em túnel, desprezam as posturas científicas e a ampla defesa de posições digladiantes. Da mesma forma, o homeschooling evita que crianças adquiram uma perspectiva de mundo diferente daquela dos pais, e isso incomoda aqueles genitores que não aceitam uma visão alternativa à sua.

Eu concordo com todas as críticas ao ensino formal, em especial no Brasil. Acredito mesmo que o ensino no nosso país – e muitos outros – é uma forma de adestramento de crianças para servirem de mão de obra para o capitalismo e a sociedade de classes, usando um modelo de aprendizado do século XIX. Entretanto, a coincidência de ver a extrema direita e a franja mais reacionária dos evangélicos apoiando esta proposta acendeu uma luz de alerta. Eles não desejam promover o homeschooling por causa dos conteúdos, por uma divergência da linha pedagógica ou pelos custos ao Estado. Muito menos pelos perigos à saúde que existem no contato com os outro alunos. Na verdade, é mesmo pelo que parece ser: para afastar as crianças do contato com a Escola, as outras crianças, o mundo externo e as visões de mundo que os pais não aceitam. Sempre fui favorável ao direito ao homeschooling, e conheço experiências de sucesso nesse campo. Entretanto, fica claro para mim que estae debate está sendo usada para desvirtuar a questão do ensino e tentar isolar crianças do mundo externo. Muitas vezes até pelo medo de que elas contem o que ocorre em casa

Por isso mesmo, não é curioso que pastores evangélicos estejam à frente das propostas de desescolarização, exatamente um grupo onde ocorrem queixas de abusos domésticos de toda ordem? Por que será que esta fração da sociedade deseja tanto manter seus filhos escondidos em casa, sem o contato salutar com outras crianças?

Por que será?

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Divergências

Tem uma tese que corre solta por aí que diz: “Quando eu era pequeno tomava todas as vacinas de boa e não perguntava o que tinha dentro e nem de onde vinham. Agora estamos todos metidos a cientistas de vacina”.

Bem, é certo que comportamentos paranoicos não ajudam a formular uma conduta sensata. Negar-se a usar um produto por puro preconceito com sua origem é quase sempre uma estupidez; deixar de usar algo baseando-se em memes ou fake news do WhatsApp também.

Porém, quando eu era pequeno, meu pai passava “Flit” pela casa para matar mosquitos e ninguém perguntava nada; todo mundo confiava nas empresas americanas que produziam esse veneno mortal. A gente tomava litros de anilina e glicose nos K-Sucos e achava apenas gostoso. A comida era cheia de aditivos e todo mundo comia de boa. A agricultura usava todos os tipos de defensivos tóxicos e todo mundo comprava sem perguntar nada. Quando uma nova indústria abria a gente comemorava, e nem ligava para a poluição. Quando o governo inaugurava uma estrada ninguém se importava com a destruição do meio ambiente; o mesmo com barragens e hidrelétricas. No tempo do meu pai matar passarinho era diversão.

Só os impertinentes reclamavam; só os inconvenientes escreviam textões em revistas que ninguém lia. Vozes diminutas…

As notícias da TV passavam pelo crivo de SEIS famílias, que controlavam TUDO que você poderia saber, e ninguém achava estranho. A gente comia embutidos, conservantes, saborizantes e muito açúcar e não havia muitas vozes para nos alertar dos perigos. A maioria iniciava o cigarro aos 14-15 anos como ritual de passagem, e poucas eram as vozes para alertar para o perigo do tabagismo. Na minha infância a gente dava leite de vaca para crianças pequenas e as tirava do peito, produzindo uma geração de sequelados que foram privados de leite (e afeto) materno, e ainda assim fazíamos concurso de beleza para bebês (obesos) tratados com fórmula artificial.

Só nos livramos dessas toxinas através de gente MUITO CHATA que apontava o dedo para os erros e para os equívocos e que chamavam a atenção para os desvios genocidas do nosso comportamento. Foi preciso escutar as vozes dissonantes para corrigir os erros e traçar novas rotas. Também foi necessário que milhões morressem para que a nossa indignação se transformasse em ação.

Não posso acreditar que abolir a consciência sobre os riscos do que ingerimos e injetamos possa ser errado. Criticar TUDO – inclusive as vacinas – é uma VIRTUDE do mundo contemporâneo. Por certo que muitos exageros vão ocorrer; é previsível que uma postura crítica possa descambar para a pensamentos persecutórios, “Nova Ordem”, “Illuminati”, paranoia “comunista”, “Globalistas”, “Ordem do Sião” e tanto mais; é o risco que temos que correr para disseminar o contraditório e encontrar soluções. Todavia, não é possível admitir que “pensar menos” sobre um tema e aceitar acriticamente determinações vindas de grandes corporações (também elas com seus interesses específicos) possa ser a saída para os dilemas que estamos agora enfrentando.

A única fórmula que reconhecidamente funciona para bloquear desinformação é produzir MAIS informação, isenta e de qualidade, e não criticando as divergências – naturais e benéficas – ou desacreditando sistematicamente tudo o que se contrapõe à narrativa hegemônica.

Não será obstaculizando a crítica que construiremos uma sociedade mais equilibrada e saudável.

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