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Homeschooling

Primeiramente, devo ressaltar que minha posição quanto ao ensino doméstico é muito semelhante àquela que tenho sobre parto domiciliar. Ao mesmo tempo que acredito serem as variantes domésticas um direito sagrado, baseado nas opções de vida dos envolvidos, acredito que não há como imaginar uma sociedade sem escolas e sem maternidades. Escolas são fundamentais para apresentar o mundo às crianças, com todas as suas contradições, descobertas, frustrações e dramas. Maternidades são fundamentais para dar conta dos casos de risco e para acomodar o grande número de mulheres parindo nas cidades. Portanto, não acredito que em médio prazo seja possível suprimir estas instituições.

É curioso notar, entretanto, o quanto os religiosos fundamentalistas adoram a proposta do homeschooling. Mesmo sendo um direito do sujeito e das famílias, sabemos muito bem as razões não faladas para que os fanáticos da direita religiosa não desejem os filhos na escola. O objetivo inconfesso é que suas crianças não tenham acesso facilitado ao contraditório, à ciência, à diversidade e ao pensamento crítico. Pelas mesmas razões, a extrema direita odeia as universidades, porque lá o ensino propõe conhecimento múltiplo e universal, com pleno acesso ao debate, ao enfrentamento de ideias, sempre iluminado pela luz da razão e das evidências.

O conhecimento fomentado nas universidades assusta o obscurantismo religioso e a direita mais reacionária que, com suas visões em túnel, desprezam as posturas científicas e a ampla defesa de posições digladiantes. Da mesma forma, o homeschooling evita que crianças adquiram uma perspectiva de mundo diferente daquela dos pais, e isso incomoda aqueles genitores que não aceitam uma visão alternativa à sua.

Por outro lado, não é curioso que pastores evangélicos estejam à frente das propostas de desescolarização, exatamente um grupo onde ocorrem queixas de abusos domésticos de toda ordem? Por que será que esta fração da sociedade deseja tanto manter seus filhos escondidos em casa, sem o contato salutar com outras crianças?

Por que será?

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Massacres

UVALDE, TEXAS – 27 DE MAIO: Um memorial para as vítimas do tiroteio em massa na Robb Elementary School, onde 19 crianças e dois adultos foram mortos. 

Apesar de concordar que a proliferação de armas desempenha um papel importante na tragédia dos massacres em escolas nos Estados Unidos – como a que aconteceu recentemente na Escola Pública de Uvalde, Texas – creio que a simples eliminação delas seria o equivalente a “tirar o sofá da sala”. “Americanos possuem 46% das 857 milhões de armas de fogo nas mãos de civis no mundo todo, embora representem apenas 4% da população mundial. Estudo revela que há 120,5 armas de fogos ‘civis’ registradas por cada 100 habitantes nos EUA”. Por esta estatística recente, percebemos que existem mais armas do que habitantes nos Estados Unidos. Toda essa liberalidade, todavia, está prevista na constituição americana, exatamente na “segunda emenda”. Esta emenda à Constituição dos Estados Unidos protege o direito do povo e dos policiais de garantir a legitima defesa através manter ou portar armas. Foi aprovada em 15 de dezembro de 1791, juntamente com as outras nove emendas constitucionais constantes da Carta dos Direitos dos Estados Unidos ou Declaração dos Direitos dos Cidadãos dos Estados Unidos.

A epidemia de violência com armas através dos ataques à escolas mantém aceso o debate sobre a Segunda Emenda, mas também sobre quem teria o direito constitucionalmente protegido de portar armas. Todavia, frequentemente está ausente nesses debates o racismo intrínseco à aplicação desigual das leis sobre armas e a relação entre os apelos ao direito de uso das armas e a justificativa da violência das milícias. Ao longo da história americana a retórica da utilização de armas pela população civil foi manipulada para estimular a tensão racial e enquadrar a população negra como uma ameaça emergente.

Os mapas de massacres agora são feitos mensalmente

É óbvio que estes massacres cotidianos nos Estados Unidos são apenas o sintoma de uma sociedade doente; a retirada das armas através de leis severas de controle produziria tão somente a transmutação do sintoma, assim como acontece com os inúmeros vícios que criamos. Sem armas cresceria o tráfico e os ataques por outros meios, evidenciando as derivações da enfermidade sistêmica, como um tumor que, mesmo quando extirpado, não elimina o desequilíbrio que o produziu.

Não haverá saída para os massacres sem que tenhamos a coragem de cortar profundamente na carne, sem reconhecer que sua origem está em um sistema econômico que concentra a renda, que cria bilionários às custas da exploração dos recursos naturais e humanos do planeta inteiro, que condena enormes contingentes da população à miséria ou à sobrevivência através da caridade. Trata-se de um capitalismo doente, violento e desagregador – como é de sua natureza. Quando produzimos uma sociedade onde uma parcela minúscula controla a maior parte da riqueza da nação, criando um contingente crescente de “perdedores e fracassados”, é de se esperar que estas pessoas, excluídas da opulência capitalista, descubram uma forma de se vingar.

Portanto, quando as pessoas tratam a emergência dos sintomas como a própria doença estamos diante de um problema claro de diagnóstico. Os massacres que ocorrem nos Estados Unidos em escolas, assim como a ajuda astronômica deste país para sustentar guerras e golpes de Estado no mundo inteiro, não são problemas em si, mas manifestações de uma brutal crise no sistema capitalista, algo facilmente previsível se entendermos as próprias previsões que Karl Marx nos deixou no final do século XIX. Se continuarmos a tratar a “febre” como se fosse a própria doença deixaremos de tratar a infecção que a causou, atrasando a possibilidade de ajustar e equilibrar o organismo, seja este um sujeito ou uma sociedade.

O massacre mesmo não ocorre nas escolas, mas no mundo inteiro que se submete às regras impostas pelo Imperialismo.

A propósito, vejo especialistas falando da importância da educação escolar e os malefícios do “homeschooling” (teses com a quais eu concordo), mas ainda assim penso que, se eu tivesse filhos pequenos e morasse nos Estados Unidos, levaria muito a sério a possibilidade de educá-los longe de uma escola. Levar os filhos pequenos para um lugar onde a manifestação de frustração se manifesta com AR-15 e massacres de crianças deveria deixar qualquer pai em pânico.

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