A direita brasileira não aceita as derrotas para os candidatos do campo progressista. Sempre reclama quando perde, e a virulência do discurso de Aécio Neves após sua derrota em 2014 foi o estopim das convulsões sociais que se seguiram. Bolsonaro sabia de antemão que o tal “voto impresso auditável” era inviável para a eleição de 2022. Seria impossível trocar o sistema eleitoral por um modelo que jamais se comprovou superior àquele em uso. Exatamente por isdo, ele plantou nesse pedido pela troca – e na criminosa reunião com embaixadores – a semente da desconfiança nas urnas e a posterior justificativa para o golpe. Sempre foi uma preparação golpista.
Mas é importante ressaltar que a ideia de uma “direita democrática”, “civilizada” ou que “sabe usar os talheres” só existe enquanto ficção. O golpismo inato dessa turma não deveria suscitar nenhuma surpresa; está no DNA. A direita só é democrática na aparência. Fala de liberdade, de pátria e de Deus, mas é fascista em essência, entreguista e vassalagem do imperialismo – vide Bolsonaro – e capaz de todas as imoralidades condenáveis pelo Evangelho.
A distância entre um discurso de respeito à democracia e uma ação evidentemente golpista se desfaz com rapidez, bastando para isso algum fato que ameace – mesmo que de leve – a dominação da burguesia. Vide 54, 64, 16 no Brasil, ou o golpe de 73 no Chile. Bastou algo necessário, como a discussão sobre os monopólios, o imperialismo, a reforma agrária ou uma consultoria da dívida externa para o mais sensato entre os admiradores do Milton Friedmann se transformar em um Pinochet, um Netanyahu ou no próprio Adolf.
Quem acredita num direitista democrata acredita até em tratamento a base de óleo de cobra pra rejuvenescer.
A confusão entre a necessária defesa das mulheres, dos negros, dos gays, etc. com os princípios do identitarismo está na raiz do apequenamento das esquerdas no mundo todo. Esse engano levou à destruição parcial das lutas das esquerdas e o fortalecimento de grupos como incels e redpils. Veja o que viraram alguns partidos de esquerda, que foram originalmente revolucionários, mas que se tornaram agrupamentos identitários, cuja função é dividir e fragmentar o campo das esquerdas, produzindo partidos frágeis e sem norte.
Muitos confundem a luta pelos negros, mulheres, gays, etc. com luta identitária. Isso é um erro. Para um comunista a defesa destas identidades só vai ocorrer com a mudança do sistema econômico, com o fim da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Porém, os identitários se contentam com a “representatividade” e com vantagens e melhorias para suas tribos, seus grupos, suas identidades, e não para o conjunto da classe trabalhadora.
Essa manobra divisionista foi criada nos laboratórios da direita mundial por pessoas como George Soros e Bill Gates e por marqueteiros maquiavélicos como Steve Bannon. Não por outra razão estas grandes instituições internacionais financiam ONGs identitárias, pois sabem que elas funcionam como muros de contenção para as reivindicações do proletariado organizado. Desejam enfraquecer o movimento operário, fragmentando-o em grupos minúsculos que, ao invés de odiar as classes opressoras – os capitalistas – odeiam-se mutuamente. Assim o problema das mulheres são os homens, o dos negros são os brancos, dos gays são os héteros e dos trans são os cis. Assim, todos estes grupos perdem o foco, afastam-se da luta pela união das forças produtivas e deixam de perceber que todos estes personagens da cena social são igualmente explorados pela burguesia. Como diria Júlio Cesar, “Divida e conquiste”, pois enfraquecidos são facilmente controláveis.
O identitarismo é o cavalo de Troia da direita enviado para as esquerdas.
Vejo as publicações nas redes sociais versando sobre a disputa eleitoral marcadamente centradas naquilo que pouco interessa. Defensores de ambos os lados gastam tempo insistindo na luta entre esquerda e direita, Lula x Bolsonaro. Quando vão acordar para a inutilidade disso? É claro que Bolsonaro representa a entrega do país aos Estados Unidos, e também é certo que Lula patina porque teme romper os laços com a direita mais trevosa e oportunista, da,qual é nitidamente um refém. Sim, a tal da governabilidade.
O problema é que as questões morais – via de regra falsas ou adulteradas – ocupam o lugar central do debate, o qual deveria ser estrutural. Isso me lembra as disputas no campo político do imperialismo. Democratas e republicanos se digladiam ferozmente sobre pronomes, direitos gays, ajuda aos pobres e a conduta moral dos representantes. Nesse contexto produzido por pura propaganda e pouca realidade, Obama é considerado moral e correto por ser casado há anos com a mesma mulher, e nao ter escândalos sexuais no seu governo (ao contrario de Clinton, Biden e Trump) inobstante a carnificina que protagonizou em 7 países, sendo responsável pela morte direta ou indireta de milhões de pessoas. Já Trump é considerado canalha pelas tolices e pela falta de respeito com as mulheres, mesmo que – em essência – seja tão imperialista, racista, machista e maligno quanto qualquer um dos outros presidentes que o antecederam.
Quando observamos de fora, daqui do sul global, que diferença pode haver entre presidentes que, apesar de condutas pessoais e trajetórias distintas, abraçam o imperialismo, a cultura da força, o belicismo e a opressão econômica como uma religião comum? Nenhuma. Por isso cabe a pergunta: que diferença estrutural pode haver com a vitória de qualquer um dos candidatos à presidência, se ambos se ajoelham diante do Deus mercado e das questões de classe?
Nao é por outra razão que no Brasil devemos abandonar com coragem e determinação as discussões estéreis sobre a moralidade dos atores políticos. Se houver crime, que a polícia avalie. Para o campo popular é preciso radicalizar à esquerda se quisermos fazer a diferença. Nada de acertos espúrios, de conchavos, de agrados à grande imprensa ou ao sistema financeiro. Precisamos de um choque popular de caráter socialista e humanista, sem concessões ao mesmismo das disputas entre esquerda liberal e direita neoliberal. Nossa resposta deve ser de oposição à burguesia e à sociedade de classes. De verdade, sem atalhos.
Já pensou?
* na imagem minha Camélia carregada de flores vermelhas anunciando um futuro mais humano, mais fraterno e socialista.
Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.
Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.
Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?
Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.
Vejo alguns influencers da direita brasileira reclamando das dificuldades de manter um partido à direita do espectro político, de ideias conservadoras, com a enfase na família, propriedade e religião. Dizem ser muito caro, que encontram resistências legais, que sofrem processos, etc…
Sim, é engraçado ler isso. Imagine como é para nós, do PCO, que não temos nenhum empresário interessado em nos ajudar economicamente para comprar nossa consciência – e votos – no parlamento. Sério que perceberam que democracia liberal não funciona? Mas isso as vezes me deixa com um ouco de esperança. Essa turma da direita ainda conseguem se indignar, e o conformismo da esquerda liberal é muito mais paralisante. Infelizmente esses jovens ainda não sabem – ou ainda não perceberam – que o sistema que apoiam é o real problema do planeta. O capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção e a sociedade de classes produzem a destruição do planeta, e são projetos que precisam ser suplantados.
Infelizmente a direita ainda acredita nos mitos da guerra fria e, em nome de uma liberdade ilusória, atacam os projetos de emancipação da classe trabalhadora. Mas, assim como Israel sobreviveu por quase 100 anos por meio de propaganda e lavagem cerebral, o capitalismo também resiste e se mantém por aparelhos – o controle da mídia. Apesar disdo, sua desaparicao, assim como o modelo supremacista sionista, é uma questão de tempo. A propaganda um dia se esgota e a verdade vem à tona. O fim da sociedade de classes, a equidade e a fraternidade dos povos, por fim, será nossa vitória.
Já repararam como a direita do mundo todo usa sempre a mesma narrativa? Os ataques à esquerda sempre são moralistas, ad hominem, violentos quanto às virtudes inexistentes, jamais estruturais. Além disso, nesses ataques a culpa é sempre do “sistema”, como se eles não representassem o próprio coração do sistema capitalista. Nos últimos dias manifestações ocorreram na Europa patrocinadas pela extrema direita e prometendo acabar com os políticos e o “sistrema” a quem eles obedecem. Mas, afinal, o que querem dizer quando afirmam que o povo está “reagindo ao sistema”? Por que esse ataque à “classe politica” surge como um mantra, repetitivo e até enfadonho, a fórmula clássica de ataque da direita? Por que a direita, para atacar a própria expressão da politica, usa o refrão de que “todo político é ladrão”?
A razão é simples: a política é a única e frágil salvação que as pessoas têm para resistir ao controle absoluto do capitalismo. Por mais defeituosa que seja, a política ao menos oferece a ilusão da participação do sujeito nas decisões do Estado, mesmo que pelas vias tortuosas da representatividade. Lembrem: políticos precisam de votos e podem ser excluídos pelo voto. Cadeiras no parlamento ainda precisam da escolha popular através do voto. Um presidente é escolhido dessa forma e com ele sua política e perspectiva de governança. Agora, digam qual foi a última vez que alguém votou para eleger o presidente da Meta, da Amazon, ou mesmo das Americanas!! Nunca, não é?
Pois é exatamente isso que a extrema direita deseja: um mundo controlado por corporações transacionais, onde o povo perdeu todas as razões objetivas para escolher representantes. Nesse mundo distópico de direita, controlado pelo capital, o Estado é tão diminuto e insignificante que de nada serve o seu voto, pois tudo seria dominado pela casta dos proprietários, dos burgueses, dos donos de tudo. O povo só poderia trabalhar, olhar, chorar e morrer; afinal não há como mudar o mundo privado. A utopia capitalista seria materializada num tecno-feudalismo com classes sociais estanques e pétreas.
É por esta razão que tantos representantes da direita atacam o “sistema”. Na verdade, para eles o “sistema” é a própria democracia burguesa, o voto, as instâncias populares e a possibilidade de escolher representantes. Mesmo com todas as falhas das eleições e da escolha pelo voto, ainda assim essa possibilidade surge como uma ameaça ao totalitarismo ultra direitista. Estes se referem à “classe politica” com desdém porque odeiam qualquer anteparo democrático que exista entre a burguesia, suas posses e a riqueza produzida por todos nós. Quando você escuta um bolsonarista dizendo “tem que mudar tudissquitaí” ele, no fundo, está se referindo ao projeto direitista de eliminar seu direito participar do jogo.
Primeiramente, devo ressaltar que minha posição quanto ao ensino doméstico é muito semelhante àquela que tenho sobre parto domiciliar. Ao mesmo tempo que acredito serem as variantes domésticas um direito sagrado, baseado nas opções de vida dos envolvidos, acredito que não há como imaginar uma sociedade sem escolas e sem maternidades. Escolas são fundamentais para apresentar o mundo às crianças, com todas as suas contradições, descobertas, frustrações e dramas. Maternidades são fundamentais para dar conta dos casos de risco e para acomodar o grande número de mulheres parindo nas cidades. Portanto, não acredito que em médio prazo seja possível suprimir estas instituições.
É curioso notar, entretanto, o quanto os religiosos fundamentalistas adoram a proposta do homeschooling. Mesmo sendo um direito do sujeito e das famílias, sabemos muito bem as razões não faladas para que os fanáticos da direita religiosa não desejem os filhos na escola. O objetivo inconfesso é que suas crianças não tenham acesso facilitado ao contraditório, à ciência, à diversidade e ao pensamento crítico. Pelas mesmas razões, a extrema direita odeia as universidades, porque lá o ensino propõe conhecimento múltiplo e universal, com pleno acesso ao debate, ao enfrentamento de ideias, sempre iluminado pela luz da razão e das evidências. O conhecimento fomentado nas universidades assusta o obscurantismo religioso e a direita mais reacionária que, com suas visões em túnel, desprezam as posturas científicas e a ampla defesa de posições digladiantes. Da mesma forma, o homeschooling evita que crianças adquiram uma perspectiva de mundo diferente daquela dos pais, e isso incomoda aqueles genitores que não aceitam uma visão alternativa à sua.
Eu concordo com todas as críticas ao ensino formal, em especial no Brasil. Acredito mesmo que o ensino no nosso país – e muitos outros – é uma forma de adestramento de crianças para servirem de mão de obra para o capitalismo e a sociedade de classes, usando um modelo de aprendizado do século XIX. Entretanto, a coincidência de ver a extrema direita e a franja mais reacionária dos evangélicos apoiando esta proposta acendeu uma luz de alerta. Eles não desejam promover o homeschooling por causa dos conteúdos, por uma divergência da linha pedagógica ou pelos custos ao Estado. Muito menos pelos perigos à saúde que existem no contato com os outro alunos. Na verdade, é mesmo pelo que parece ser: para afastar as crianças do contato com a Escola, as outras crianças, o mundo externo e as visões de mundo que os pais não aceitam. Sempre fui favorável ao direito ao homeschooling, e conheço experiências de sucesso nesse campo. Entretanto, fica claro para mim que estae debate está sendo usada para desvirtuar a questão do ensino e tentar isolar crianças do mundo externo. Muitas vezes até pelo medo de que elas contem o que ocorre em casa
Por isso mesmo, não é curioso que pastores evangélicos estejam à frente das propostas de desescolarização, exatamente um grupo onde ocorrem queixas de abusos domésticos de toda ordem? Por que será que esta fração da sociedade deseja tanto manter seus filhos escondidos em casa, sem o contato salutar com outras crianças?
Enéas é o político sempre lembrado pela direita conservadora raivosa, mas era um “antissistema” sem muita noção da política. Era médico (portanto, reaça), militar da reserva (nem precisa explicar) e católico fervoroso (outro grupo conservador). Era o “hat trick” dos reacionários pós ditadura. Na atualidade, o personagem mais parecido com ele, pelo perfil, é o Ronaldo Caiado que é médico, católico e latifundiário; entretanto, pelas falas enérgicas e pela postura pública, quem mais se aproxima é o Rubão. A gente sente saudades de personalidades como o Enéas pela sua postura nacionalista, pela defesa do capitalismo nacional e a favor da soberania da Pátria, pois estas eram características da velha guarda das forças armadas, inclusive da turma de 64. Hoje em dia os militares são plenamente dependentes – econômica e ideologicamente – dos Estados Unidos, e não existe mais o fervor nacionalista de outrora.
Já a direita brasileira atual é absolutamente entreguista, ligada à subserviência ao Império americano. Para os garotos do MBL qualquer defesa da soberania nacional e em favor da independência em relação ao imperialismo é vista com desdém pelos seus seguidores. Os líderes dos paretidos de direita no Brasil – mas também na Argentina, como Milei – são ligados umbilicalmente à ordem imperialista, e não existe limite para a submissão humilhante ao ditames americanos. Observem o comportamento de capacho da família Bolsonaro, onde o ex-presidente chegou a dizer “I love you” para o canalha do Trump. Ali foi o ponto mais baixo do acadelamento da nação, a maior humilhação pública de um chefe da nação em relação ao seu “patrão”.
Entretanto, por mais que suas ideias econômicas fossem ideologicamente neoliberais e falassem mais do mesmo, e não acrescentasse em seu programa o necessário combate à sociedade de classes, Enéas JAMAIS se ajoelharia a um poder estrangeiro como fazem os atuais militares e os líderes da direita entreguista brasileira. Enéas agora é lembrado pelo seu real patriotismo, mas não passava de um político comum, que inclusive mentiu – como é comum entre os candidatos ligados ao grande poder econômico – sobre a promessa de jamais se candidatar a cargos menores, desejando apenas a presidencia. Foi o deputado federal mais votado de São Paulo. Morreu de leucemia mas deixou a saudade de muitos pela sua postura nacionalista.
É sempre curiosa a reação da direita sobre este tipo de notícia. Parece que, para as pessoas ligadas ao conservadorismo nacional, estes fatos escandalosos não fazem qualquer diferença para o conceito que guardam desses políticos. Na cabeça do direitista padrão, o feminicídio, a corrupção, o parlamentar abusador, o deputado que deu tiros na namorada, a incompetência, a tragédia por descuido com a coisa pública ou a simples falta de resultados positivos no governo são irrelevantes; parecem não causar qualquer efeito negativo. Aposto como o Governador Caiado, mesmo que seu braço direito esteja envolvido em um caso de tamanha gravidade, não vai sofrer queda na sua popularidade. Não importa o tamanho do escândalo; para os seguidores da direita o que conta é combater o comunismo, atacar falta de Jesus na esquerda, defender a família e questionar os banheiros neutros.
Ou seja, para esta franja à direita da própria direita, os resultados positivos do governo Lula são desimportantes – ou falsos. O que conta é sempre uma versão fantasiosa e moralista da realidade, onde os comunistas (ou seja, qualquer coisa que possa se encaixar nesse conceito) são sempre seres malignos que desejam destruir a estrutura da sociedade ocidental. A crítica, como sempre é moral, tenta atingir a honra e o caráter de qualquer sujeito à esquerda. Para estes moralistas uma realidade paralela é construída; neste mundo criado, qualquer ação social dos governos da esquerda (como o programa Pé de Meia, que objetiva manter as crianças na escola), existe sempre um interesse malévolo e maligno, cujo único interesse é criar currais eleitorais, comprar votos, ideologizar a escola, etc.
Com esse nível de irracionalidade, é impossível estabelecer qualquer debate decente. A pressão precisa vir da população, extirpando estes oportunistas do cenário político brasileiro.
Precisou os desastes em sequência e a nova eleição de Trump para que acadêmicos decidissem surfar no desastre dos movimentos “woke”. Há mais de uma década que a esquerda revolucionária denuncia que essa “esquerda de costumes” dentro da “esquerda liberal” nada mais é do que uma estratégia da direita para a fragmentação da classe operária, impedindo sua organização. Mais do que distintos, a esquerda anticapitalista e os movimentos identitários são opostos, pois partem de perspectivas que se contrapõe; de um lado as identidades e os sujeitos, enquanto do outro a união da sociedade em torno da luta de classes. É razoável pedir que os identitários encontrem a expressão mais fidedigna de sua visão de mundo na direita liberal, pois seu discurso é mais adaptado a esta vertente do pensamento. Para a esquerda raiz, as lutas antirracista, feminista, anti-xenofobia, etc., não podem ocorrer apartadas da luta de classes e o fim da propriedade privada; não existe possibilidade de vitória por qualquer desses grupos oprimidos que possa vicejar dentro do capitalismo e do imperialismo.