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O perdão impossível

Infelizmente parece mesmo que só os pastores evangélicos conseguem acolher pessoas que cometem erros, mesmo os mais terríveis. Enquanto isso, a sociedade só joga pedra. Acusa, destrói, promove vingança e é sempre inexorável nos seus julgamentos. Nao adianta mofar anos na prisão, é preciso incinerar, picotar e cuspir em cima. Aqui, esquerda e direita se encontram, no submundo dos sentimentos mais rasteiros.

Já os evangélicos, muito mais por marketing do que por virtude, recebem os “pecadores” e lhes oferecem o benefício (ou a possibilidade) da “redenção”. O resto da sociedade joga pedra na Geni. “Enquanto existirem Suzanes todas as minhas maldades e perversões serão aliviadas”. As Genis são tão odiadas e desprezadas quanto…. necessárias.

Não reclamem, pois, pelo crescimento acentuado do fundamentalismo mais tacanho e emburrecedor no nosso meio; participamos desta bestialidade ao oferecer aos párias sociais apenas esta possibilidade de ler os ensinamento cristãos – e a esperança do perdão, que é universal.

O que nos incomoda em Suzane é ver que não somos tão diferentes dela quanto gostaríamos…

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Ciência x Religião

Tenho vários amigos que me falam, sem esconder o entusiasmo, de uma ou outra descoberta científica que confirma a palavra de Deus, seja na Bíblia ou em alguma outra tradição qualquer. A frase que termina este ímpeto de esperança é fé pode ser resumida em “não há real conflito entre ciência e religião“.

Minha percepção é que há mais do que conflito; estas são duas visões de mundo incompatíveis. Por outro lado ainda considero que elas podem existir dentro do mesmo indivíduo em relativa paz, com a exceção da tênue zona de fronteira que delimita seus espaços.

Ciência e religião são duas formas de compreensão do mundo e as duas são perenes e eternas. A tese de que o crescimento do conhecimento científico traria o desaparecimento das religiões me parece ingênua e normalmente é dita por religiosos, como os “neoateístas”. Basta olhar o risco do fundamentalismo religioso na política mundial (em especial no Brasil) para ver que a vinculação do povo com as religiões e suas cartilhas está longe de desaparecer. Mas engana-se quem acredita que isso pode ser combatido com ateísmo e mesmo evolucionismo.

A ciência trabalha na fronteira do conhecimento e usa a razão e a experiência como ferramentas. Ela é progressista e dinâmica; não respeita limites e avança célere para novas descobertas. É uma medida da ética e da política de seu tempo, e se move pelos ventos do poder econômico e dos interesses. Não é isenta e nem neutra, e fala a língua dos homens do seu tempo.

A religião (melhor seria a religiosidade), por seu turno, ultrapassa a fronteira do que é conhecível e tenta explicar o universo através de visões teleológicas e inteligentes, enxergando no universo uma força de coesão para além do que é possível comprovar com nossas ferramentas rudimentares. A religiosidade trabalha com a gigantesca porção de desconhecido que nos circunda. Sua plasticidade a faz se adaptar a cada nova investida da conhecimento científico e da razão, produzindo uma nova face a cada avanço do conhecimento sobre seu território.

Assim, ciência e religião trabalham com objetos distintos mesmo quando parecem se confundir, como no criacionismo. A força da ciência nesse ponto e o desaparecimento paulatino de resistência às teorias darwinianas deixará a visão do Gênese como mais uma alegoria passível de belas histórias, mas apartada de realidade dos fatos. Quando a razão chega as crenças procuram outro lugar para ocupar e tentar organizar o desconhecido.

Por fim a religião, ao se afastar dos elementos nos quais a ciência já jogou sua luz ficará livre para questionar a imensidão de perguntas sem respostas possíveis até então, como a nossa origem e os sentidos do universo.

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Aborto

aborto-sim-nao

Li a extensa resposta de um rapaz dizendo-se contrário à descriminalização do aborto usando os argumentos que escuto desde a minha juventude, tempo em que até eu militava contra a descriminalização. Entretanto, essa parte do discurso do rapaz me pareceu interessante:

“Eu defendo que o Estado não deve interferir nas liberdades individuais, mas…”

A gente sabe o que vem depois de um “mas” (sou contra o racismo, mas… sou contra o machismo, mas… sou contra homofobia, mas…). No entanto, é tempo de, finalmente, deixar as escolhas da esfera sexual para serem tomadas exclusivamente pelas mulheres. Cada uma que decida sobre seu corpo. Não vamos nos meter mais. Chega. Estamos de acordo no foco central – a não ingerência do estado no corpo da mulher – vamos, então, celebrar essa inédita concordância sobre direitos humanos reprodutivos e sexuais.

Chega de fazer do corpo da mulher um campo de disputas falocráticas. Se o aborto for condenado por algum Deus no juízo final que ELAS se responsabilizem pela condenação ou pelo perdão que receberão d’Ele.

É hora de tirarmos a mão dos ventres alheios.

Por outro lado, não é curioso que dos mesmos grupos que defendem embriões com unhas e dentes surja a expressão “bandido bom é bandido morto”? Pois o fundamentalismo é o traço que une estes posicionamentos. É uma postura que conecta Bolsonaro, Feliciano, Malafaia e outros. E não é coincidência; o fundamentalismo produz este tipo de associação pois é de sua natureza essencializar o mal tirando-lhe o contexto e dominar o corpo das mulheres, tornando-o objeto.

Sair de cima do muro significa pular para um dos lados, e nenhum deles é limpinho. É uma decisão horrível. Minha posição é de que, por questões morais e por crenças pessoais – distantes demais da racionalidade para serem julgadas pela razão – EU jamais faria um aborto ou estimularia um. Mas isso é uma decisão subjetiva, sobre minha prática médica de 34 anos ou sobre as pessoas a quem se poderia porventura influenciar (mulher, namorada, amante, filha, nora, etc). De resto, já que preciso me “sujar” de alguma forma, prefiro sacrificar embriões do que mulheres já feitas, e prefiro apostar que o gozo da autonomia plena terá como consequência uma postura, por parte das mulheres (mas também dos homens), crescentemente responsável sobre seus corpos e sua sexualidade.

Se isso serve de ajuda para quem pensa sobre o tema do aborto ainda lembro como se fosse ontem do discurso inflamado que fiz durante a faculdade de Medicina para companheiros do Projeto Rondon (lembram dele?) contra qualquer lei que liberasse a prática do aborto. Recordo vividamente de todos os argumentos que usei, utilizados com paixão e fervor, para proteger fetos de “mãos assassinas”. Ainda estão claros em meus tímpanos os vazios, a surdez e a incapacidade de reconhecer ou… aceitar os argumentos contrários, em especial os que falavam do sacrifício de vidas maternas. Afinal, para mim elas “apenas pagavam pelo seu egoísmo”.

Foi necessário envelhecer, tornar-me pai, estudar os índices de morte materna e conhecer a vida de verdade que cada uma dessas mulheres tinha antes de enfrentar essa decisão. Só assim pude abrir o coração e mudar para o outro lado. Essa mudança não foi abrupta; foi lenta, gradual, ponderada e serena.

Todavia, enganam-se todos aqueles que pensam que ficar deste lado do muro significa desreconhecer as implicações emocionais e psicológicos desta escolha. Ela continua sendo terrível e dolorosa, mas ainda não vi nenhuma saída mais justa e decente do que oferecer o pleno protagonismo dessas decisões para as próprias mulheres.

Se eu estiver errado em tomar partido dessa forma que seja julgado adequadamente, mas ainda exijo que – por coerência – meus erros sejam apenas meus.

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