Apoiado. Chega de termos apenas médicos brancos no Brasil. Seria muito bom termos mais especialistas não brancos para que seja criada uma nova perspectiva, com maior diversidade e representatividade na Medicina. Essa iniciativa produziu uma grande transformação no colorido das Universidades durante os governos progressistas. Creio que ela teria a possibilidade de produzir o mesmo efeito na residência médica, mas também no Ministério Público e no Judiciário e outras profissões. Promotores e juízes não brancos fazem falta. Esse tipo de iniciativa – chamada de discriminação positiva ou “affirmative action” – por certo é uma estratégia limitada no tempo. Deve perdurar até até se crie uma cultura e uma estética novas nestes setores. Depois podemos voltar ao modelo simplificado.
Lembrando que só os ingenuos acreditam que a estratégia de cotas é a solução para a exclusão. Negativo; a exclusão só vai acabar com a revolução socialista e o fim da sociedade de classes, mas dentro do capitalismo decadente pode trazer algum auxílio, como pode ser visto na mudança do perfil nas universidades.
Entretanto, é importante ler os estudos sobre “perfil de entrada e saída” que foram produzidos nos últimos 20 anos de experiência com cotas no Brasil. Eles mostram que, sim, o perfil de entrada dos cotistas é inferior ao dos não-cotistas, mas esse perfil equaliza e até sofre reversão em muitos cursos no perfil de saída. Quem afirma que essa medida diminuirá a qualidade dos médicos está errado ou, ao menos, não está usando dados científicos para produzir seu juízo.
Quando me submeti à entrevista para residência médica, há 35 anos passados, havia na sala de reuniões médicos contratados, professores e, representando os discentes, uma residente R3. Esta médica sempre foi para mim o paradigma das residentes do hospital: branca, loira, rica, de família de médicos, altiva, “chique” e uma típica representante da burguesia local. Estava terminando seu tempo no serviço e já tinha seu consultório montado na zona mais rica da cidade. Eu sempre achei bizarro graduar médicos pela Universidade pública que, logo após formados, nunca mais atendiam a população carente. Estes profissionais centram seu trabalho nas classes mais abastadas, deixando os proletários nas mãos do serviço público, cada vez mais escasso em recursos. Sempre acreditei que deveria haver um sistema de reciprocidade obrigatório, que determinasse aos formados em universidades públicas o trabalho compulsório para a comunidade. Como um “serviço médico obrigatório”, a exemplo do serviço militar. Nunca vi nenhum projeto nesse sentido.
Minha entrevista foi protocolar e sem qualquer sobressalto. Perguntas óbvias e manjadas (o que faria se uma paciente solicitasse um aborto?) ou “pega ratões” tolos (estetoscópio ou esfigmo?) além de perguntas sobre banalidades obstétricas. Lembro apenas que me perguntaram se eu seria “ginecologista ou obstetra” e qual meu hobbie (respondi que era “cinéfilo”). A entrevista estava terminando quando a colega residente perguntou algo sobre a assistência no serviço público. Não lembro exatamente o que era, e minha resposta hoje seria considerada banal. Ora, eu estava entrando no serviço público, em um hospital público e para atender pacientes do INAMPS – precursor do SUS. Como poderia falar mal de um hospital que me receberia de braços abertos e dos pacientes cujos corpos seriam a mim oferecidos para aprendizado?
Sim, eu sei, fui enfático em demasia nessa defesa. Expus com entusiasmo a honra de atender o povo, pois foi o povo que pagou meus professores, minha universidade, minha formação inteira e eu deveria, de alguma forma, devolver tamanho investimento na atenção aos que tanto se sacrificaram para a minha educação. Não só na Universidade, mas desde muito cedo, quando entrei na escola pública aos 6 anos de idade. Logo percebi que a minha colega se incomodou com a resposta. Talvez porque ela mostrava o contraponto à postura que ela estava prestes a tomar: esquecer o povo mais pobre e se voltar às elites e à classe média alta. Olhou para mim e respondeu no limite da rispidez:
– Quem sabe então você deveria ser assistente social.
Fiquei em silêncio, pois sabia que não havia espaço para a resposta que gostaria de dar. Todos nós candidatos estávamos nas mãos daqueles julgadores e suas avaliações subjetivas. Há poucos anos havia escutado – pela voz do próprio professor – que ele havia dado “zero” para um candidato à residência de clínica médica por ser “demasiadamente efeminado”. Eu não queria ser mais uma vítima da crueldade de um julgador preconceituoso. A entrevista se encerrou e alguns dias depois veio o resultado. Fui aprovado em 5o lugar, e três semanas depois fazia meu primeiro plantão como residente de GO naquele mesmo hospital. Mas nunca esqueci o desprezo daquela colega – a quem nunca mais vi – pelo simples fato de que reconheci uma dívida que nós, estudantes das escolas públicas, tínhamos para com o povo – povo este cujo esforço conjunto foi o suporte essencial para a nossa formação.
Quando vejo os velhos representantes da corporação se manifestando de forma tão cruel sobre a população mais necessitada – e contra o SUS – eu penso que eles são egressos dessa geração, onde o trabalho assalariado no serviço público era visto como fracasso. Mas ainda acho que para mudar a prática da Medicina é preciso revolucionar o ingresso nas Escolas Médicas. Para saber mais sobre o tema, veja esta outra crônica escrita há alguns anos aqui