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Sol e Lua

No que se refere ao parto as mulheres são o sol, enquanto seus cuidadores são a lua. Aquelas produzem a energia e a luz feérica do nascimento, enquanto estes refletem com humildade e respeito o brilho que capturam do momento. Qualquer inversão destes papéis significa uma perversão significativa na essência desse evento, um eclipse que desfaz o brilho de um às custas da intromissão do outro.

Por certo que precisamos de propostas para a melhoria da atenção ao parto e a todos os fenômenos relacionados aos ciclos femininos, mas é necessário fugir do idealismo que, tal qual uma sereia sedutora, nos leva a crer em soluções parciais para problemas estruturais. É importante reconhecer que as ideias por si só são estéreis, incapazes de produzir as mudanças que pretendemos. Um exemplo clássico é das episiotomias – cortes vaginais usados para alargar a saída e (pretensamente) para proteger o períneo. Há decadas sabemos o quanto são inúteis e prejudiciais, um fato comprovado por dezenas de estudos, e mesmo assim ela continua sendo usada indiscriminadamente em nosso meio. No Brasil, a episiotomia ainda é a única cirurgia realizada no corpo de uma mulher saudável sem o seu consentimento prévio. Atualmente ela ocorre em cerca de 53,5% nas parturientes brasileiras que fazem parto normal, exatamente porque a mudança nestas atitudes sedimentadas pela cultura médica não se dá pelas ideias – por mais fundamentadas que sejam – mas pela confrontação e pela luta na arena dos poderes instituídos. Precisamos, portanto, de uma perspectiva materialista para o nascimento.

O mesmo ocorre com a ideia – bem estabelecida por estudos multicêntricos ocorridos há várias décadas – de que é essencial para a saúde coletiva interromper o abuso de cesarianas, assim como as centenas de outras intervenções indevidas que ocorrem no ambiente hospitalar do parto, reconhecidamente inúteis e perigosas para o binômio mãe-bebê. Portanto, a agenda – além de positiva – precisa ser propositiva, centrada nas lutas que garantam o protagonismo e que estabeleçam uma relação centrada na liberdade ampla e irrestrita de escolhas, respeitando amplamente os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e suas famílias. Mais importante ainda é entender que essa luta será conduzida pelas mulheres, legítimas condutoras do processo, contando com a valiosa ajuda dos profissionais de vanguarda da obstetrícia e da parteria profissional.

Fora dessa perspectiva resta apenas o que se pode chamar de “reformismo obstétrico”, uma plataforma de propostas que se baseia na perspectiva da solução para os dilemas obstétricos através da simples proliferação de obstetras humanistas – profissionais mutantes e bizarros, centrados na perspectiva de respeito às evidências – que não passam de meia dúzia de ilhotas minúsculas em um oceano gigantesco de profissionais adaptados à obstetrícia contemporânea, que apenas replicam o modelo anacrônico, personalista, intervencionista, misógino e centrado nos valores do capitalismo que caracteriza a assistência ao parto nos grandes centros do ocidente. Imaginar que a reforma estrutural da obstetrícia se dará sobre as mesmas diretrizes intervencionistas de hoje – mantendo os mesmos atores no comando – é uma ilusão que não podemos nos permitir. Como bem dizia Giordano Bruno, “Quanta ingenuidade pedir a quem detém o poder que o mude”.

A ruptura com o reformismo obstétrico – que pretende mudar a fachada para não transformar a estrutura – será a grande tarefa da nova geração de ativistas e cuidadores do nascimento humano.

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Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Parto, violência obstétrica

Lua e Sol

“A lua é muito mais importante do que o sol. Enquanto ela ilumina as nossas noites o sol apenas ilumina o dia, quando tudo já está claro”

Creio que esta frase merece uma consideração mais profunda. Quando eu a li me pareceu uma simples idiotice. Uma segunda leitura me obrigou a uma consideração mais profunda, e pensei que ela poderia conter algum tipo de ensinamento.

Muitas vezes consideramos pequenas coisas (como a Lua, se comparada com o sol) como sendo grandiosas apenas porque são demasiadamente exaltadas pelo contexto – em um céu escuro o nosso satélite se destaca com facilidade. Já o Sol fica quase invisível pela sua imensidão e onipresença e, frequentemente, nos esquecemos de sua existência, imaginando que a claridade que percebemos ao nosso redor é natural e parte constituinte do que consideramos um “dia”.

Quando pude reler a frase pensei nas experiências de vida que quase todos nós um dia passamos. Uma delas a paternidade e a maternidade e a convivência com os filhos. Muitas vezes, quando pequenos (e as vezes depois também) nossos filhos fazem elogios extremados e emocionados, em que ressaltam a importância de pessoas que acabaram de conhecer, deixando de valorizar o que possuem desde que nasceram. É clássica a paixão das crianças pela professora, mais tarde pela namorada. Pois elas são Luas resplandecentes no céu escuro da nossa experiência cotidiana. Claras, brilhantes e destacadas, elas irradiam sua luz em todas as direções.

Entretanto, na casa dessas pessoas habitam muitas vezes Sóis de experiência, carinho, afeto, compreensão, paciência e virtude, que muitas vezes são desconsiderados diante da exuberância telúrica. Fixados na face redonda e sorridente da Lua por algum tempo nos olvidamos do calor que sempre nos aqueceu, até porque ele sempre esteve lá; era parte constitutiva de nossas vidas.

Hipnotizados pela Lua, muitas vezes não damos ao Sol a devida justiça.

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