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Polícia

Meu amigo Max ligou hoje como faz regularmente de vez em quando, ou mais provavelmente quando lhe dá na telha. Parecia agitado, como quem acordou e teve um sonho muito louco. No meio da conversa ele me disse que teve uma visão, e que precisava me contar.

– Diga…
Max pigarreou e começou a me contar sobre seu devaneio.
– Cara, é o seguinte. Imagine que as polícias de uma hora para outra acabassem. Escolha o método: epidemia, terremoto, desistência, demissão, ataque externo, ETs etc. Não importa a forma do desaparecimento para minha ideia; elas apenas desapareceram. O que ocorreria?
– Caos…
– Ok, eu concordo. Seria caótico. Saques em supermercados, ataques a concessionárias de carros. Roubo de postos e estoque de gasolina. Mais ou menos como na distopia de “Ensaio sobre a cegueira”. Mas e depois? Conte como seria o “day after” dessa catástrofe.
– Bem, as pessoas teriam que se proteger de alguma forma contra aqueles que tentam roubar o que é seu. Sua casa, seu carro, sua loja, sua comida.
– Sim, mas as pessoas não fariam isso sozinhas, certo? Logo depois eles pediram ajuda do companheiro, da esposa, dos filhos, dos amigos, dos parentes; depois dos vizinhos da rua do bairro, etc. Todos juntos com tacos de beisebol, armas, facas, defendendo as suas coisas. Barbárie explícita, ao estilo “Walking Dead”.
– Exato…
– Mas lá pelas tantas grupos maiores iriam se organizar, não apenas para guardar suas coisas, mas pela via da força pegar e garantir a propriedade de tudo que fosse possível pegar. Pura sobrevivência.
– Sim, pode ser…
– As cidades então seriam divididas em grandes grupos de milícias, que garantiriam a posse para seus líderes. Estes controlariam as propriedades saqueadas da cidade, tornada sem lei, pois que a força e a organização das milícias seria a única regra neste mundo distópico.
– Sim, parece plausível.
– Mas imagine que, eventualmente, alguém tem a ideia de unificar as milícias para que o saque seja repartido entre os líderes, com menos disputas e mortes, mas mantendo a garantia da posse do saque para o grupo de líderes. As propriedades saqueadas estariam na mão dos líderes que mais bem se organizaram no caos e as milícias unificadas seriam a proteção do que foi recolhido de todos durante o período de rapina.
– Sim, como um cartel de milicianos controlando tudo sob o mando dos líderes.
– Exato…
– E daí?
– Sabe como seria o nome dado a estas milícias?
– Hummm, não sei… qualquer um…
– Ora, como se chamaria a instituição criada para evitar que as grandes massas reclamem o que é seu e para proteger as posses saqueadas pelos líderes que as tiraram o povo?
– Bem, você quer dizer que…
– ……
– Max, você está aí? Alô?

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Telas Mágicas

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Eu vejo a poesia, a literatura e a ficção em geral como as únicas máquinas do tempo que a mente humana foi capaz de criar até agora. Tais expressões da criatividade são pontes que criamos para o futuro, muitas vezes antecipando-o ou estimulando sua própria construção. Outras vezes a literatura, o cinema e a TV acessam o campo simbólico e traduzem o presente através de suas metáforas e simbologias, abrindo debates que muitas vezes sequer são explícitos, mas que a partir daí poderão se tornar.

Minha curiosidade com esta especial capacidade da literatura e do cinema surgiu quando eu analisava o seriado “Batman” da televisão dos anos 70 e fazia uma correlação entre os personagens da trama e a emergência do movimento gay americano.

Bruce Wayne é um homem maduro, rico e solitário que vive em uma mansão na cidade de Gotham, com seu criado Alfred e sua tia Harriet. Subitamente o coroa milionário convida para morar com ele um “pupilo” (que me faz pensar nos mecenatos gregos) muito mais jovem chamado Dick (um nome de duplo sentido em inglês). Os dois em verdade são Batman & Robin, que, quando a noite recobre Gotham City com seu manto de sombras, colocam “fantasias” e saem para insólitas aventuras.

Ninguém sabe da vida dupla de ambos. Por segurança eles a escondem de todos, menos do fiel ajudante Alfred, o mordomo. Alfred bem sabe o que se esconde por detrás do meramente manifesto. A “dupla dinâmica” tem muitos segredos inconfessos. Inúmeras cenas do seriado corajosamente insinuam a tensão erótica entre Batman e Robin, mas jamais de forma explícita.

Nesta análise da história a tia Harriet e sua ingenuidade representam a todos nós. Ela e incapaz de perceber o que verdadeiramente são os dois rapazes que moram em sua casa, da mesma forma como éramos cegos quanto à manifestação homossexual que muitas vezes estava ao nosso lado sem que a percebêssemos.

Batman & Robin (o da TV, o melhor e mais criativo de todos) é o mais fiel retrato de uma época especial da civilização: a abertura dos armários e o reconhecimento da infinita diversidade sexual humana. Os criadores da série perceberam, de forma consciente ou não, o movimento da cultura no sentido da aceitação de novas formas de relacionamento afetivo, e o aplicaram de forma magistral no vão que se estabelecia entre a “luta contra o crime” e a luta contra o “crime” – de não reconhecer a (nossa) sexualidade de maneira integral.

Pulando algumas décadas adiante me deparo com a fixação contemporânea na temática dos “zumbis”. Existem incontáveis filmes, variando do terror, drama e até comédia, em que os personagens principais são zumbis. Lembro até uma mega-série blockbuster de TV chamada “Walking Dead” que aborda exatamente o “apocalipse zumbi” e a invasão do planeta por estes seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam entre si com grunhidos. Eles são ameaças asquerosas à nossa vida, e o simples contato com eles pode nos contaminar e transformar no que eles são.

Ora, se acredito na ficção como antena de captação do campo simbólico da linguagem, o que teria para nos dizer esta metáfora da “invasão dos Zumbis”?

Não é preciso usar de muita imaginação, e aposto como não sou o primeiro a tratar do tema por este viés. Uma breve avaliação dos discursos de Donald Trump e uma olhada rápida nos noticiários europeus mata a charada em poucos minutos.

Quem são os “seres disformes, famintos, frios, sujos e que se comunicam com grunhidos” no mundo atual? Quem “infesta” as nossas cidades com a sujeira cultural e nos contamina com seus hábitos bizarros? Quem são os seres que nos ameaçam com sua presença e cuja mordida pode nos transmitir a mesma aberração que eles trazem em seus corpos maltrapilhos?

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A ameaça são os imigrantes e refugiados.

Seus grunhidos arábicos ou castelhanos invadem nossa cultura europeia e branca ameaçando a supremacia de nossos hábitos e valores. Sua pele é invariavelmente “suja”, escura, e contrasta com a alvura de nossa cútis “superior”. Seus costumes bárbaros nos causam estranheza ou nojo.  Quando na TV, em algum documentário, não parecem tão ameaçadores, mas quando andam em bandos, falando palavras desconexas perto de nossas casas, são invasores perigosos. Pior… podem transformar alguém da nossa própria família em um “deles”. Por isso é preciso proteger os seus, cuidar para que os zumbis não se aproximem e os convertam no que eles já são.

Os zumbis contemporâneos aparecem como ficção para que possamos olhar para estas emoções sem o constrangedor (para alguns) sentimento de xenofobia e preconceito. Se é desumano e cruel desprezar imigrantes famintos que fogem de guerras estúpidas que nós mesmos criamos em seus lares, podemos ao menos odiar a desprezar sua vertente ficcional que invade nossas cidades e ameaça nossos valores e conceitos.

Batman e Robin apaixonaram uma geração porque havia uma mensagem instigante criptografada em seu núcleo,  para quem tivesse olhos de ver. Os zumbis só fazem sucesso porque eles existem de verdade.

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