Arquivo do mês: fevereiro 2013

Barricadas

Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no último domingo, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das usuárias (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esse campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

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Paralaxe

Apesar dos avanços democráticos, e da disseminação exponencial de conceitos e visões de mundo, ainda não estamos plenamente preparados para escutar o que o outro tem a dizer. Liberdade de expressão e de pensamento é uma utopia. Acreditamos que temos a verdade e a liberdade como meta, mas basta que pisem nos nossos calos para que viremos feras. Algumas palavras dissonantes de nossas crenças profundas são suficientes para que, em poucos minutos, o mais aberto dos democratas esteja pegando em armas, ou impedindo seu oponente de falar. É duro escutar o que o outro tem a dizer, principalmente quando isso agride crenças arraigadas, que acalentamos de forma muito intensa.

Meu pai sempre me dizia para estar preparado para escutar as pessoas que tinham ideias bastante diferentes da minha. Fui além: construí uma vida inteira de marginalidade, exercitando-me a pensar de forma diversa dos outros. Pensar alternativamente é um exercício, como ir à academia; precisa persistência, e além de tudo força de vontade. E resiliência, sem a qual facilmente mergulhamos no oceano de ideias confortáveis e acalentadoras.

Outra coisa que meu pai dizia: “Pense em algo que acreditas com todo o fervor. Pode ser a visão humanista, a igualdade dos povos e gêneros, a ideia de fraternidade ou a importância das instâncias psíquicas na conformação do sujeito. Pensou? Então agora, relativize-as, critique-as, coloque-as como simples ideias dentro de uma panela gigantesca de pensamentos controversos, com visões ora próximas, ora distantes da sua. Olhe para seus conceitos como elementos relativos, passageiros, frágeis e diáfanos. Está realmente preparado para olhar para suas crenças como figuras tão frágeis? Ou ainda vai precisar tratá-las como dogmas por muito tempo?

Escutar a voz do outro, sua visão específica do mundo, suas posturas diversas é uma forma muito complexa de gerir a vida. É preciso uma vigilância constante, um exercício brutal de alteridade e um esforço hercúleo de paralaxe. Para olhar o mundo com uma visão abrangente faz-se necessário um cuidado constante com a segurança fugidia que encontramos na dogmatização. Se ela por um lado acalma nossas angústias, oferecendo um caminho unívoco, ao mesmo tempo paralisa nossa natural criatividade. Os pensamentos consensuais muitas vezes produzem o mesmo efeito; se por um lado produzem unidade, por outro refreiam nosso pendor transformador. Construir um mundo mais digno e justo para todos que aqui vivem é tarefa de todos nós. Permitir que as vozes distantes da nossa sejam ouvidas é um ato de coragem. Somente se pudermos enfrentar a razão alheia poderemos ter certeza da correção de nossa rota. Caso contrário, teremos apenas uma visão parcial, pessoal e única, que não poderá ser oferecida aos outros que nos acompanham.

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Sinceras Malvadezas

Na minha ótica particular um sujeito que “diz o que pensa” está normalmente camuflando com palavras sua crueldade, sua indelicadeza ou a sua brutal falta de respeito pelos outros. Para ser sincero (ops, até eu?), nunca consegui encontrar alguém que se autodenomina “franco”, “verdadeiro”, “sincero” ou “direto” que não seja um tremendo arrogante, e que faz uso das palavras para agredir seus interlocutores.

A verdadeira sinceridade é de outra liga: ela diz o que é para ser dito sem “segundas intenções” – isto é, sem ferir, machucar ou magoar. A sinceridade pura tenta ajudar o outro com a verdade, e não destrui-lo. A sinceridade será “do bem” quando puder auxiliar o outro a descobrir, por si mesmo, onde está seu erro, sua falha e onde se localiza o ponto cego de sua autocrítica. Eu sempre desconfio dos arautos da verdade ao estilo “direto”, pois eles normalmente são perversos que manipulam a (sua) verdade como ferramenta de tortura.

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