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Coisa pior

Acredite, mano… tem coisa pior.

Ai você arruma alguém legal, brota uma química maravilhosa, o sexo é sensacional, as perspectivas de vida são semelhantes, os gostos estão próximos, as idades combinam e a paixão é madura e intensa. “Duas almas gêmeas que se encontram“, você pensa.

Pensou errado, otário.

Então você descobre que ela vive praticamente na miséria, tem dificuldades financeiras graves, tem um passado cheio de traumas, o pai é alcoolista e um irmão é viciado em crack. Além disso, ela está desempregada e atolada em dívidas impagáveis. Sustenta a família fazendo bicos.

Diante da impossibilidade de vislumbrar qualquer chance desse amor florescer ela resolve terminar tudo. Para isso deixa por baixo de porta da sua casa um bilhete de despedida, evitando assim olhar no seu rosto para dizer adeus.

Nesse bilhete está escrito, com letra miúda e cercada pelos borrões causados pelas lágrimas que teimaram em cair: “Por que Queiroz depositou 89 mil na conta da Michelle?”

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Momento único

“- Sim, esse é o meu desejo.

Jassie manteve o olhar fixo no juiz. Seu olhos sequer piscaram. Manteve a cabeça ereta e as mãos espalmadas, uma sobre a outra, na mesa gelada. Ao seu lado Conrad juntava os papéis com sofreguidão. Ajustados os detalhes do divórcio e não haveria mais nada para um advogado fazer. Ou dizer.

O juiz voltou seu rosto para o lado oposto da mesa de mogno, a qual estava impregnada com décadas de lágrimas e palmas suadas na antiga sala da vara de família e sucessões. Encontrou os olhos de Rick, que ainda fitavam o cabelo dourado de Jassie. O velho Juiz Desmond repetiu a pergunta e recebeu apenas um “sim“, seco e breve. Ato contínuo, entregou os papéis para ambos assinarem e deu por encerrada a sessão.

Rick e Jassie saíram da sala ladeado pelos seus advogados, quase juntos. Com passos apressados se aproximaram do elevador, que fica ao lado da velha cafeteria. Os quatros ficaram parados e mudos, olhando para os velhos ladrilhos do piso, até que Rick quebrou o silêncio e voltou-se para Jassie.

– Você poderia tomar um café comigo? Prometo ser breve.

Jassie, surpresa, olhou reflexamente para Conrad, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, respondeu:

– Por certo, Richard.

Rick despediu-se dos advogados e entrou na cafeteria com Jassie. Puxou a cadeira para ela, como sempre fazia, e pediu o cappuccino que tantos anos de convivência haviam lhe ensinado a pedir.

Começou a falar de alguns detalhes da guarda de Peter, a bicicleta, a nova escola, o chalé na montanha, a pensão, o carro, detalhes que já haviam sido tratados pelo advogados. Jassie apenas escutava, sem tirar os olhos do, agora, ex marido.

– Eu acho que também lhe devo desculpas. As coisas meio que fugiram do controle nos últimos tempos. Saiba que eu não…

Jassie interrompeu abruptamente suas palavras, com a mão espalmada a frente.

– Por favor, Rick, hoje não. Já discutimos isso por anos, que foram muito duros para mim. Já entrei e saí dessa casa de tristezas, de rancores e de mágoas. Hoje estou livre. Quero começar uma nova vida, e não vou aceitar que meu ressentimento seja uma prisão da qual não consiga escapar. Hoje não é dia de brigar, mas de agradecer, e só por isso aceitei seu convite para este café. Estou aqui, em verdade, para fechar este ciclo e para lhe dizer da minha gratidão.

Rick escutou um pouco assustado. Não havia sido uma separação fácil. Cada fotografia, cada parede pintada na casa, cada gaveta de badulaques mostrava um fragmento de vidas que cursaram juntas. Também ele juntava os cacos de um projeto que se espatifou, por isso as palavras de Jassie soaram tão estranhas e inesperadas.

– Acho que você não entende, disse ele. Eu apenas queria que…

– Quem não entendeu foi você, interrompeu Jassie. Não preciso mais de suas desculpas. Estas feridas estão se curando. Mas queria agradecer de verdade para você.

– O que está pensando?

– Nada de grandioso, sequer espetacular. Apenas algo que lembrei ontem, quando juntava os papéis do divórcio. São memórias de quando Peter nasceu. Eu lembro da dor, do cansaço, do dia quente de agosto, da banheira que você montou em nossa sala, das cortinas que a tia Betsy nos deu de casamento. Essas imagens são presentes até hoje em minhas lembranças, e gostaria que o aroma do alecrim que circulava por aquela sala ficasse impregnado em minhas narinas até o final dos meus dias.

Jassie respirou fundo, sorriu timidamente e permitiu que uma pequena gota de orvalho viesse a adornar os seus olhos azulados.

– Entretanto, Rick querido, nada foi mais importante e mais impactante em minha vida do quer ver você levantar meu filho – nosso filho – daquela água tinta de sangue e levá-lo aos seus braços, e depois quando disse…

– Seja bem vindo, você é meu filho, completou Rick, enquanto deixava uma lágrima rolar por sua face.

– Sim, Rick, naquele momento, naquele fragmento minúsculo de tempo eu fui a mulher mais feliz do mundo, possuída por uma alegria infinita, com a esperança renovada na vida. Olhar meus dois amores lado a lado foi o momento mais pleno de luz de toda a minha existência. Nada superou aquele instante e eu não vou permitir que nossos caminhos divergentes apaguem a lembrança mais bela e cálida que eu guardo de todos estes anos.

Rick se manteve em silêncio enquanto as lágrimas corriam. Jassie tomou seu cappuccino, agradeceu o convite e se levantou. Com passos firmes e a cabeça erguida saiu da cafeteria para começar o resto de sua vida.”

Jennifer Martin-Ottis, “A dip into nothing” (Um Mergulho no Nada), Ed. Pégasus, pág 135

Jennifer estudou na Pennsylvania University e fez seu debut na literatura com o livro de ensaios e crônicas “Close to the Edge” de 1973, uma referência explícita a um disco do Yes de rock progressivo lançado no ano anterior. Trabalhou durante vários anos como jornalista e crítica literária no Nebraska Herald, até lançar seu primeiro romance em 1980, que se chamou “A Common Day in the Prairie” (Um dia Comum no Campo). “A dip into nothing” foi seu quinto e derradeiro livro, uma coletânea de ensaios, lançado em 1998, um ano antes da sua morte. Ela foi casada por mais de 40 anos com o famoso publicitário Ferris Ottis, e deixou dois filhos, Bartholomeu e Marylin.

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Mentiras

“Tenho uma certa inveja das pessoas que reconhecem em si tantas virtudes. Falam com genuína honestidade sobre suas ações justas, sua força, sua persistência e a nobreza de suas ações. Percebem, em si mesmas, a coragem e a humildade que norteiam seus princípios.

Eu, sinceramente, me identifico muito mais com os fracos, os bêbados, os estúpidos e os ignorantes. Percebo em cada uma de minhas atitudes o mais vil dos interesses, mesmo quando travestidos de grandioso despojamento. Consigo enxergar nas minhas ações a fagulha egoística que me motiva, mesmo quando pareço estar oferecendo graciosamente ao mundo um pedaço de minha sabedoria. Vejo, em tudo o que faço a sordidez egoística e mesquinha, a volúpia do orgulho insano e a vaidade desmedida.

Tudo em mim é mentira. O que me anima é esse amor gigantesco que tenho por mim mesmo, pelos meus prazeres e gozos. O que me move é o desejo de obter todas as vantagens possíveis, guardando-as como troféus que mantenho como preciosidades que apodrecem cada vez que as vejo.Não seria possível enganar a ninguém com tal pureza de fachada, com tanta sujeira que me sai por cada poro, cada palavra, cada sílaba e cada silêncio cúmplice. Também não culpo a ninguém pela miséria de minhas ações; as porcarias que são minha carne e que escapam pela minha voz são todas minhas, o único valor que carrego, e a parte que me cabe para levar desta vida.

“Andrew D. Manning, “Angel of Mine”, ed Prado-Bell, pag 135

Andrew Dewey Manning foi poeta, ensaísta, escritor. Nascido em Chalkville, Alabama, em 1937, cursou seus estudos primários em Grayson Valley. Fez apenas os estudos iniciais, tendo sido autodidata. Escreveu 5 livros de poesia e sua grande obra, o romance “Angel of Mine”, onde aborda o racismo do sul dos Estados Unidos na época do Jim Crow. Foi reconhecido como um dos precursores dos movimentos antirracistas. Morreu em 1987 vítima de câncer no fígado. Deixou a mulher Ethel e os filhos Jeremy e Andrew Jr.

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Dia da Morte

Voltando aos clássicos, nesse tempo de aprisionamento, me deparo com a fantasia de Jacob no livro “Le Palais du Haine” de Jules Marie-Vermont. Sua ideia de morte sempre me seduziu e, desde que li essa passagem na adolescência, imaginei minha morte seguindo um roteiro muito parecido.

“- Eu sei como seria o meu jeito escolhido de morrer, disse Jacob enquanto comia um pedaço de pão dormido com a manteiga que Daliah havia deixado sobre a mesa.

– Mal posso esperar para saber, respondeu Hannibal sem desviar o olhar da lareira acesa à frente.

– Diga Jacob, continuou com seu habitual sarcasmo, quem sabe eu possa ajudar no seu intento.

Jacob largou o pedaço de pão sobre a mesa e olhou para o teto do quarto, como se as imagens que descrevia estivessem projetadas sobre o madeirame corroído e sujo de fuligem

– Eu escreveria um texto contundente e acusatório contra o Rei, cheio de ofensas hepáticas e indignações intestinas. Não pouparia nem sua familia imunda das minhas lanças de fogo; sua mulher nojenta, sua mãe estúpida e nem mesmo Estelle, sua concubina. Sairia no breu da madrugada colando meu ódio com cuspe em centenas de postes próximos ao Palácio. Depois, voltaria para cá, tomaria uma taça de Bourbon, colocaria minha melhor roupa, guardaria um canivete no bolso, deitaria nesta cama suja e aguardaria a chegada da guarda real para lutar minha derradeira batalha.

– Que lindo Jacob, que heróico.

– Caido no chão, crivado de balas, ainda teria tempo para um sorriso. Olharia no rosto do soldado que chegasse primeiro, aquele que daria o tiro de piedade, e diria: “Toma aqui meu escarro de sangue. Sente o cheiro da minha pele queimada. Escuta o chiado do meu pulmão que se esvazia. Olha o sangue que pinta de rubro minha palidez. Aqui está um homem cujo ódio nenhuma bala pode matar. Ele seguirá depois que está carne apodrecer, e vai levar ao inferno aqueles que hoje riem de minha morte.”

Hanibal cortou o último pedaço de fumo e olhou seu amigo por cima do ombro. Ele sabia que a visão de Jacob poderia ser uma fantasia mórbida de glória, mas não estava longe de se tornar um dia verdadeira. Talvez mais próximo do que desejava”

Jules Marie-Vermont, “Le Palais du Haine” (O Palácio do Ódio), ed Hachete, pág. 135

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O Penhasco dos Sonhos

Esbarrei no romance jurídico/policial “Penhasco dos Sonhos” de Leonard Doohan (seu melhor livro, ainda melhor que “Eu, Vincent“, que virou filme com Jennifer Coolidge no papel de Laura/Vincent) e fiquei duas horas pensando sobre estes parágrafos. Talvez eles contenham angústias que também compartilho.

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“A mensagem veio dobrada em um papel amassado que Jason colocou em meu bolso momentos antes de entrarmos na sala do magistrado de apelações do condado. Resolvi abrir, com discrição, pois poderia ser algo importante, algum ponto especial a dizer – ou calar – diante do Juiz durante a sessão. Meus dedos procuraram as pontas da pequena dobradura e a abriram. Coloquei os óculos e li o que estava escrito com a letra desengonçada de Jason.

– Martin e a mulher estão mortos. Acidente de carro.

Levantei os olhos a procura de Jason, mas ele não mais estava na sala. Como auxiliar de defesa ele não tinha obrigação de estar ali, apenas o meu defensor. Olhei de novo para o papel com a respiração ofegante, sem saber o que dizer. Percebi que estava corado. Sim, eu me sentia envergonhado.

Martin era a razão de toda a minha desgraça. Se eu estava em uma sala fria aguardando um juiz prepotente e estúpido para analisar minha causa eu devia isso a Martin. Fora ele que, por inveja do meu sucesso rápido na banca de advogados do seu pai, havia me denunciado à polícia por defender uma mulher negra e pobre por posse de drogas, hospedando-a em minha própria casa. Sua acusação – falsa e absurda – era de intermediar a venda de drogas e esconder uma fugitiva.

Sabia de suas ligações espúrias com a polícia, mas acima de tudo percebia seu ciúme doentio pelo fato de eu ser admirado por seu pai. Desde o início do processo soube que Martin estava por trás de tudo. As drogas plantadas, o falso testemunho de Bridget, a pressão sobre o pessoal na polícia. Seu cinismo ao me oferecer ajuda foi nauseante. Diante disso eu o odiei com todas as minhas forças. Imaginei toda a sorte de sofrimentos e tragédias para ele. Fantasiei todas as desgraças imagináveis para ele para os seus.

Inclusive essa.

Agora eu me envergonhava dos meus pensamentos. Olhava para os lados como se soubessem à minha volta o quanto desejei este terrível infortúnio. Mais ainda; senti culpa por ter desejado tanto, e com tanta veemência de espírito, como se minha vontade estivesse magicamente conectada através de cordéis etéreos ao acidente fatal.

Mais uma culpa com a qual eu teria que lidar”.

Leonard Doohan, “Cliff of Dreams” (Penhasco dos Sonhos), ed. Bethesda, pág. 135

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