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Fracassos

“Somos o que resta de uma montanha de escombros”, já dizia meu amigo Max. Os fracassos, mais do que as conquistas, são o que nos moldam e aperfeiçoam. Esta semana tivemos a vitória esmagadora de alguém que representa o atraso, o machismo, a corrupção e a perversão na política para ser o chefe do legislativo federal, numa reprise macabra da eleição de Eduardo Cunha. Tivemos a queda das máscaras lacradoras no Big Brother e o fim do sonho autoritário e farsesco da Lava Jato.

Os ídolos com pés de barro, Moro e Dalanhol, caíram das alturas: um queria ser presidente, o outro desejava uma estátua. Ambos terão que se contentar com o esquecimento. Também vimos um partido à esquerda “cancelar” uma co-deputada de um mandato coletivo – sem direito a defesa – por discordar de um texto publicado nas mídias sociais, na mais escandalosa demonstração de amadorismo político e falta de preparo para as discordâncias naturais e o contraditório.

Se não soubermos aprender com estes fatos então teremos perdido uma oportunidade histórica de fazer a necessária depuração nos quadros da esquerda.

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Cusparada

Jean cuspindo

A cusparada de Jean Wyllys em Bolsonaro no plenário ontem demonstra os limites claros que ele, Jean Wyllys, tem em relação à vida pública. Se é verdade que Bolsonaro é um fascista abjeto, também é verdadeiro que no plenário sua voz amplifica o desejo de milhares de pessoas a quem representa. Cuspir em um parlamentar é desdenhar da representatividade e daqueles que lhe delegaram seu voto. A defesa que Jean divulgou hoje diz que ele cuspiu em Bolsonaro ao ser chamado por ele de “veado”, “boiola” e “queima rosca”. Ora… agora uma agressão torpe e infantil justifica outra? O congresso é uma casa política ou a hora do Recreio de uma escola primária? Jean, neste episódio, apenas demonstra que não tem preparo para suportar com nobreza estas provocações…

O episódio da visita a Israel e os destemperos contra Bolsonaro apontam para o fato de que as boas intenções, a retórica e a cultura de Jean não são suficientes para o tornar um grande parlamentar. O destaque às suas posturas seria fácil diante da imensa incompetência desse congresso, mas o próprio Jean destrói suas possibilidades.

Cuspir em Bolsonaro exalta a vítima e rebaixa o agressor. Se existem alguns que acham que isso o coloca como um nobre combatente pelas minorias e contra os fascistas eu vejo nisso fragilidade e incapacidade para encarar com serenidade e respeito o contraditório. Tais atitudes rebaixam o debate político e dão um péssimo exemplo de incivilidade, o que é lastimável quando parte de um defensor da democracia e dos direitos das mulheres e gestantes.

Bolsonaro sai engrandecido desse episódio, mais uma vez, ao espertamente provocar as reações histriônicas de Jean Wyllys. Este precisa aprender a não se colocar como escada para que fascistas, racistas e canalhas possam subir perante a opinião pública.

Mas acho curioso esse tipo de defesa que fazem. Aliás, já escrevi e falei muito sobre isso. É aquela antiga tese: um cara matou um sujeito numa discussão. A polícia o prende e tortura. Ou mata. Ou espanca. Ou nega atendimento jurídico. Aí um tolo e legalista como eu diz: “”.

A resposta que sempre recebo: “ahhh, então tem que ser civilizado com um criminoso que matou a sangue frio?“. Outra muito comum: “Mas deveria ter pensado antes de matar. Agora sofra.” Ou então “Esse torturador – do criminoso preso – me representa.” Também se lê “Se fosse eu, faria pior“. Todos que assim atuam igualam-se aos criminosos que condenam.

Isto é: muitos acreditam que a simples vingança (cometer contra o agressor o mesmo crime do qual ele é acusado) é uma forma de justiça. Para mim, quem assim pensa e age, mostra que está muito mais perto do criminoso do que pensa. A diferença, muitas vezes, é apenas circunstância e oportunidade.

Infelizmente muitas pessoas caem na tentação de interpretar a minha crítica à atitude tola e imatura do Jean como um apoio ao facínora do Bolsonaro. Na verdade é o contrário. Percebi que o elogio ao Ustra foi premeditado por ele de forma cuidadosa para provocar os despreparados… e fiquei morrendo de raiva ao perceber que o estratagema (de novo) funcionou.

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As Regras Sujas do Jogo

O mesmo discurso ingênuo que o PT usava nos anos 80 eu vejo agora sendo utilizado pelo “outro lado”, com as mesmas características de exclusão e essencialismo. Na época os integrantes do PT chamavam a todos os “não PT” de “eles”, os outros, os que “não são como nós”. Quando um deputado do PT enfureceu-se com uma manifestação violenta e antidemocrática e convocou os petistas para “sair na porrada com os coxinhas” eu li de um colega de direita a expressão: “Olha como se comporta essa gente”.

“Essa gente”, uns irresponsáveis, baixo nível. Petistas, petralhas e corruptos.

Mais uma vez a diferença “essencial”. Essas pessoas são diferentes de nós. Suas veias carregam outra coisa, seus sonhos são diferentes, seus objetivos diversos dos nossos. Essa gente bagaceira, sem nobreza e sem valor.

Esta semana escutei outra pessoa me dizendo: “Já fui fã do PT, mas ele sujou as mãos. Não voto neles nunca mais, mas também não voto nos miseráveis da direita. Minha simpatia agora é com o PSOL“.

Pronto, o PSOL passou a ser a “virgem da vez”. Luciana passa a ser a impoluta representante dos éticos, honestos e corretos. Continuamos com a mesma retórica ilusória do futebol: “Bom mesmo é o Zezinho: não errou nenhum passe e não perdeu nenhuma bola. Bem verdade que não jogou também; estava no banco assistindo a partida”.

Mas, pasmem, as pessoas que compõe o PSOL (ou o PSTU, PCO, PMN…) são feitas da mesma carne, os mesmos vícios, o mesmo sangue e linfa que constitui a todos nós. Estivessem agora no poder e o dilema seria o mesmo:

“Se eu me mantiver puro não governo e apenas permito que os corruptos, os que se sujam, os canalhas e aproveitadores, continuem no poder. Posso me manter fiel aos princípios e fracassar em alguns meses. Porém, posso me sujar como TODOS fizeram, e tentar impor um pouco do meu estilo, minhas ideias, meus desejos e meus valores. Mas para isso precisarei me sujar na mesma lama que emporcalha a vida pública do país há séculos. Precisarei do dinheiro dos poderosos, e será necessário selar alguns compromissos com o demônio. O que fazer?”

Qualquer um tem o direito de, arrogantemente, exclamar: “Eu nunca sujaria as minhas mãos. Só “eles” fazem isso. Nós somos éticos.” Pois eu também tenho o direito de duvidar de tamanha prepotência. Ora, o poder embriaga a todos e, mais do que isso, as regras desse jogo estão aí para serem jogadas. “Não quer cair do balanço não desce pro play“, já dizia a turma do bullying. O jogo da política – como o conhecemos na atualidade brasileira – é SUJO em essência e qualquer partido que tenha a possibilidade de ascender ao poder usará todos os recursos para conquistar a maioria no congresso e fará isso da maneira que for possível. Comprará votos, ameaçará, pressionará, boicotará e todos os outros recursos – éticos ou não. Não existem “nós” ou “eles” quando as regras dadas são estas.

Não, é um erro acreditar que eu defendo uma complacência com os erros do PT. Digo o mesmo que a presidente Dilma se esforça por repetir: “Se há erros que sejam punidos exemplarmente“. O equívoco é imaginar que tirando o PT do governo teríamos todos os problemas resolvidos, como se o PT fosse um cancro, uma agremiação que concentra a podridão e a corrupção no país. A história nos mostra que não, e a própria ascensão deste partido ao poder nos anos 80 se deu para combater a corrupção galopante da época. A história apenas se repete, ou “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, como diria meu caro amigo Karl.

Trocamos os jogadores, mas mantivemos as mesmas regras pútridas. O resultado é que boas intenções (como as que reconheço no PT) acabam sendo manchadas pelas falcatruas que ocorrem pelo próprio transcorrer de um jogo com cartas marcadas.

A reforma política é a saída, mas será que desejamos mesmo que algo mude? Ou seremos apenas pobres corruptos menores aguardando a nossa chance na fila das vantagens indevidas?

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