Jung, Freud e as polainas

Jung-Freud

Tive um sonho estranho na noite passada.

Sonhei que, após uma briga terrível com Freud por causa da cor das polainas do mestre, Jung teria voltado para casa, feito suas malas e apagado todos os selfies que tirara com seu ídolo. Feito isso, resolveu sair da cidade. “Espairecer, é o que preciso”, pensou ele.

Dirigiu-se à estação de ônibus e pediu um bilhete para a cidade em que morava sua mãe, Nova Hartz. Precisava de um carinho materno, colo, doce de figo e alguém que lavasse três malas de roupa suja que ele trazia consigo.

Mal entrou no ônibus (Ouro e Prata, semi-leito) olhou para a janela e viu sua cidade apequenar-se no horizonte, à medida em que se lembrava das circunstâncias de sua briga com Freud, ainda recordando, palavra por palavra, sua última desavença com ele:
“O uso de polainas salmão com calças pretas não era algo simplesmente derivado de uma predileção ou um fato aleatório. Não, Siggy, não! Não há coincidências!! É preciso haver uma conexão com algo maior, algo que extrapole a própria subjetividade, que seja resgatado de um poço de desejos e imagens, significantes e mitos, algo como… como um arquivo onde todos colocassem valores que circulam de forma não-sabida, em um campo simbólico, onde eles volitam até que alguém deles se aposse momentaneamente, e volte a colocá-los em circuito. Eles existem e nos governam, sem que possamos ter sobre eles consciência. Poderia chamar este lugar de… agora me foge o termo.”

Jung irritou-se com a impossibilidade de encontrar o termo adequado para a sua teoria, que parecia fazer todo o sentido. Freud, por sua vez, apenas acendeu seu charuto e respondeu: “Não creio que o inconsciente esteja preocupado com minhas polainas, Karl. Muitas vezes uma polaina é apenas uma polaina para esquentar as canelas. Faz frio nesse bairro, por Deus! Pare de buscar explicações que não existem para satisfazer suas teorias tolas!”

O mestre ainda teve tempo de dar uma baforada em seu charuto, visivelmente bravo e com seu nariz avermelhado pelo frio. Freud somente o chamava de Karl quando estava profundamente irritado, do contrário Gustav era o nome mais carinhoso. Jung não esperou que seu mentor completasse sua lista de ofensas prediletas. “Suiço comedor de queijo”, era uma das mais infames. Pegou seu chapéu de feltro com fita vermelha e saiu porta afora, não sem antes gritar: “Não me chame pelo whatsapp, Siggy. Você está definitivamente BLOQUEADO!

Dentro do ônibus, mareado um pouco pelas curvas, Karl mordeu o lábio ainda remoendo angustiosamente a raiva pelo acontecido. “Por que desprezar minha ideia? Por que ele sempre faz isso comigo? Por que insiste em me humilhar quando Sándor Ferenczi está por perto? E por que insiste em chamá-lo de “Sandy” na minha frente?”

O ônibus sacoleja quando sai da BR 116 e entra em direção a Taquara. Seus pensamentos estão cheios de mágoa, mas não consegue esquecer que a razão fundamental para esta briga estava alicerçada em uma disputa fálica: o mestre que jamais admitiria ver seu pupilo oferecer uma ideia inovadora. O filho que ousa desafiar o pai; o lobo velho que resiste e luta até sangrar e, por fim, morre. Porque precisa ser assim? Qual a razão de desprezarmos tanto o amor. Sim, o amor…

Subitamente um estrondo. O guincho estridente dos pneus é seguido de uma batida seca, o que faz tudo escurecer. O ônibus, ao desviar de uma vaca perdida, freia de forma brusca. A ação rápida do motorista salva o animal, mas faz o “Ouro e Prata” girar sobre si mesmo e cair na ribanceira que se estende ao lado da pista. Depois apenas o silêncio e breu…

Karl Gustav acorda com um policial rodoviário a lhe bater levemente no rosto. Sua face encovada e seus lábios finos estão ainda mais descorados. O quepe cor de cáqui do oficial quase lhe bate na testa. “Senhor Karl, senhor Karl, por favor, diga algo. O senhor está bem?”

Jung estava confuso. Lembrava da conversa na noite anterior no bairro do Bom Fim com Freud, e sabia que haviam brigado. “O que aconteceu depois? Onde estou? O que houve?”

“O ônibus caiu no barranco, senhor Karl. Foi muita sorte terem escapado com vida. O senhor esteve inconsciente no coletivo este tempo todo. Estamos aqui para lhe resgatar”.

“Ah, estive inconsciente… no coletivo? Inconsciente … coletivo?”

Jung ficou subitamente alerta. Foi tomado de uma espécie de euforia, que poderia ser traduzida pelos policiais que o cercavam como um surto de loucura. Arregalou seus olhos azuis helvécios e exclamou:

“É isso, é isso!! Preciso escrever, escrever!! Onde posso arranjar uma caneta BIC?”

O som dos passarinhos agride meus tímpanos em repouso e acordo com o alarme do celular. Olho para a mesa de cabeceira e vejo “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de K. G. Jung.

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