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Maturidade

Baruch (Benedictus, depois da excomunhão judaica) Espinosa foi um pensador holandês do século XVII de extrema relevância, fazendo parte do grupo dos grandes racionalistas, onde constam Leibniz e René Descartes. Ocupou-se da teologia e da política, tendo abordado ambos os temas em seu grande livro “Ética”.

Espinosa, entretanto, morreu aos 44 anos de idade, vítima de tuberculose. Homem simples, sobrevivia como relojoeiro e polidor de vidros. Renunciou aos prazeres da vida em nome das virtudes do conhecimento, em especial depois de sua trágica e injusta excomunhão da vida judaica.

Eu ainda me lembro muito bem dos meus 44 anos, e nem faz tanto tempo. Entretanto, não recordo dessa idade com saudade, pois percebo o quanto minha mente amadureceu nos últimos 15 anos. Quando penso em sua partida prematura, às vezes me pergunto o que Espinosa teria escrito aos 60 ou 70 anos. Se aos 44 conseguiu deixar sua marca de excelência no mundo do pensamento, o que mais poderia ter feito se mais tempo estivesse entre nós?

Normalmente a obra “Interpretação de Sonhos”, de Sigmund Freud, escrita em 1900, é reconhecida e apontada como o divisor de águas de um período pré-psicanalítico anterior à sua obra centrada na psicanálise. Quando a escreveu Freud tinha…. 44 anos.

Assim, toda a construção da teoria psicanalítica, feita por um dos maiores gênios da humanidade, surgiu após sua maturidade, alcançada depois dos 44 anos, idade com a qual outro gênio, algumas centenas de anos antes, nos abandonava.

O que teria escrito um velho Espinosa? Nunca saberemos, mas certamente seria ainda mais profundo e maduro.

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Tesouro

“As comprovações científicas esbarram na questão da subjetividade. Quando se pensa em terapia do sujeito as comprovações de larga escala perdem o sentido. Este, aliás, é o elo que conecta a homeopatia e a psicanálise, duas formas de entender o sofrimento humano de forma endógena, partindo de desacertos da energia vital para aquela e do inconsciente para esta.

A evidência das conexões entre nós psíquicos e sintomas orgânicos – sejam eles grosseiros ou sutis – são fatos cristalinos para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir. As ligações de causas aparecem nas palavras, nos silêncios entre elas e nas derivações orgânicas superpostas. Como diria Freud, “o que o paciente traz como sintoma é seu verdadeiro tesouro”, e isso deveria nos levar a uma escuta tão respeitosa quanto a que temos diante do sagrado.

A descoberta do significado dos sintomas inscrito na subjetividade do paciente é uma revelação grandiosa, como um portal de entendimento cósmico do destino da natureza.”

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Leçons de Mardi

“Uma jovem chegou em coma. A mãe dela avisou de cara que tinha brigado com o namorado e resolveu tomar um copo de manga com leite. De plantão, o cirurgião residente Delmonte Bittencourt, que viria a ser braço direito de Zerbini, pioneiro da cirurgia cardíaca no Brasil, tranquilizou-a:

– Não se preocupe. Recentemente, dois médicos alemães, Billie e Park, estudaram o veneno da manga com leite, e desenvolveram uma injeção que temos aqui.

Aplicou-lhe, então, uma pequena dose de soro glicosado, e a moça recuperou-se em um segundo, serelepe. A mãe cobriu o médico de beijos, agradecida. Assim, os médicos do Pronto Socorro adotaram a expressão Billie e Park (piripaque) em vez do HY (histeria) para os casos de exagerada reação psicossomática, relata o professor Meirelles no Suplemento Cultural da APM.”

Apesar da genealogia duvidosa da palavra “piripaque” (creio mesmo que a palavra já existia e os médicos do Pronto-socorro a usaram para fazer uma brincadeira com o som de dois nomes americanoides) ela demonstra de forma muito clara a crueldade e o desrespeito ancestral que os médicos sempre tiveram com os sintomas emocionais dos pacientes, em especial os fenômenos histéricos. Essa sempre foi a regra em salas de emergência, e pelo visto os relatos são muito semelhantes com os que escutamos ainda hoje: escárnio, deboche, ironia e uma postura de tola superioridade do discurso médico, caracteristicamente pedante, empolado e cientificista. Ao invés de acolher – o que se esperaria de quem respeita a dor alheia – o tratamento se baseia ainda hoje na infantilização do paciente, com procedimentos agressivos, discursos falsos e falas enganosas, mas que servem para ludibriar os pacientes e suas famílias, cujas doenças e sintomas de caráter psíquico desconhecemos o sentido, a historia e seu mecanismo de ação.

“O médico se aproxima lentamente da paciente que jaz imóvel sobre a maca. Seu corpo esquálido comprime o colchonete de curvim surrado que o sustenta abaixo, onde as mãos, como garras, o prendem na maca. Os músculos do rosto retesados e as pálpebras fechadas tremem e enchem de vincos a cobertura dos olhos, enquanto sua respiração vem como um gemido a se misturar com os barulhos estridentes da pequena sala de atendimentos. O médico, parado como um totem ao seu lado, lhe aplica um beliscão no externo, sem que ela pareça reagir. Incomodado com a inação da paciente, olha para a enfermeira e pede que lhe traga “flor de maçã”. Volta o rosto para mim e com um sorriso sarcástico dispara “Quero ver até aonde vai esse espetáculo”. Havia um certo ódio em seu rosto, ainda absolutamente incompreensível.”

A histeria, no conceito freudiano, sempre foi assim tratada nos hospitais de pronto atendimento. Quando eu era estudante de medicina e passava por tais ambientes, os beliscões em pacientes “falsamente desmaiadas” e a “flor de maçã” (um composto extremamente cáustico a base de amoníaco) eram os instrumentos mais utilizados para retirá-las da “simulação” que nos apresentavam. Para nós, seus sintomas não eram “verdadeiros”, como um corte na cabeça ou um braço quebrado; eram mentiras que escondiam suas histórias, simulações grosseiras e encenações grotescas. Era assim que pensávamos, não muito distantes dos conceitos machistas e desrespeitosos do prof. Charcot em sua clínica em Salpêtrière, onde Freud elaborou os primeiros passos de sua teoria da histeria e, por fim, as bases da própria psicanálise.

Tanto quanto a exuberância enigmática dos sintomas histéricos, chama a atenção a resistência em reconhecê-los como sintomas verdadeiros, sofrimento legítimo e manifestação de desequilíbrio do sujeito. Apesar da distância que nos separa das “Leçons de Mardi” onde Freud escutava atentamente as aulas de neurologia de Charcot, nosso medo e ignorância sobre a corporificação de conteúdos afetivos ainda nos causa medo e repulsa.

Mais ainda, nossa reação a um corpo de mulher “descontrolado”, sem prumo, retorcido ou inerte nos angustia exatamente por sabermos, mesmo que de forma intuitiva, que este corpo cruamente erotizado está além de nossa compreensão e controle. Um corpo de mulher livre das amarras sociais e morais é uma ameaça ao patriarcado.

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Falsos brilhantes

Eu não sou brilhante, por certo, e jamais chegarei perto disso. Entretanto, nunca encontrei um professor ou um colega de faculdade que merecesse esse nome. Em minha vida fui cercado de medíocres, alguns bem-intencionados e dedicados.

Mas vejam; não falei em excelentes ou bons; falei em brilhantes. Meu conceito de brilhante é muito diferente do que trabalhar no exterior ou entrar nas melhores universidades. Nem mesmo ser culto ou inventivo. Meu conceito de “brilhante” está bem fora desse espectro. Muitos que nós descrevemos como “gênios”, “especiais” ou “fora de série” são basicamente sujeitos que fizeram o que se espera de um profissional normal usando os inúmeros privilégios que recebeu da vida.

Aliás, o brilhante, via de regra, passa despercebido. Ninguém o reconhece como tal; quando se faz notar é para ser perseguido, porque via de regra está fazendo ou dizendo algo que seus iguais não querem fazer ou ouvir. Ignaz Phillip Semmelweiss, Nietzsche, Freud, Darwin e Marx jamais foram agraciados com prêmios e condecorações pelo trabalho inovador que realizaram, o qual produziu profundo impulso na ciência; pelo contrário, foram todos – sem exceção – vítimas do preconceito.

Ignaz Phillip foi expulso de Viena pelo crime de estar certo sobre as mortes puerperais; Marx passou fome enquanto mudava o mundo ao seu redor, Darwin foi excomungado e passou anos trancado em seu quarto (como Galileu e Espinoza); Freud foi renegado e humilhado pelos idiotas da corporação de Viena enquanto Nietzsche era expulso de Heidelberg pelas suas ideias inovadoras.

Todos foram verdadeiramente brilhantes, e a prova disso é o fato de ainda os citarmos, mesmo depois de mais de um século ter se passado desde que aqui chegaram. Todavia, nenhum dos seus contemporâneos a quem muitos chamaram de “geniais” – mesmo sendo medíocres – deixaram seus nomes na história. Ninguém conhece o bispo “genial” que perseguia Darwin, o reitor que expulsou Nietzsche, o médico que cuspiu em Freud, o capitalista que escarnecia de Marx ou o diretor (Dr Klein) que mandou Semmelweiss de volta para Budapest para lá sucumbir à loucura.

E a razão para isso é simples: o verdadeiro gênio passa incólume pelo nosso olhar. Só as falsas luzes brilham para aqueles que, como nós, só enxergam o que lhes seduz. O ser verdadeiramente brilhante só tem seu brilho reconhecido muito depois de nos deixar.

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Gênios

“Todos os grandes gênios da humanidade mostraram a pequenez do ser humano, e por isso não podiam ser perdoados. Atacar nossa autoestima é um crime grave. Copérnico o fez ao mostrar que não somos o centro do universo, Darwin por provar que não somos o centro da natureza e Freud por mostrar que não somos guiados pela razão, mas por uma constituição psíquica tripartite, onde os motores principais de nossas ações se encontram nos calabouços do inconsciente. Já Marx mostrou que somos governados pela história e pelas forças de choque entre as classes, as quais produzem mais efeitos na sociedade e na cultura do que os avanços científicos.

Os grandes gênios são necessariamente incompreendidos, atacados, segregados e difamados. Portanto, como regra geral, se as suas ideias fazem muito sucesso é apenas porque suprem necessidades momentâneas. Como diria Nietzsche, “um gênio verdadeiro só é compreendido após a passagem de um século”, e não há como fugir muito dessa regra”.

Rudolph Schlitzer, “The Quantum of Transformation”, Ed. Borromeo, pag. 135

Rudolph Schlitzer é um físico, professor universitário e escritor austríaco, nascido em Viena em 1932.

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