Piratas

Depois da minha fala na Câmara de Vereadores de Porto Alegre ontem, no debate público sobre o projeto de lei das doulas, acompanhei meu neto Oliver até o corredor para pegarmos água no bebedouro que se localiza ao lado da entrada principal do salão. Logo ao chegar encontramos a simpática, jovem e enérgica vereadora Fernanda Melchionna, que veio me abraçar e agradecer as palavras de apoio ao projeto. Fernanda estava usando um curativo no olho direito, por uma lesão recente na córnea, o que deixou meu neto de quase 3 anos absolutamente intrigado. Ainda no meu colo, olhava fixamente para seu rosto tentando entender o que estaria faltando,Pirata o que exatamente não se enquadrava na formatação dos rostos humanos que ele se acostumara a decifrar.

– A titia fez um dodói, um machucado no olho. Mas já vai ficar bom, explicou ela.

Oliver continuava a olhar fascinado, tentando compor e dar sentido ao que seus olhos de criança enxergavam. Depois de alguns instantes de séria observação abriu um sorriso majestoso e disparou:

– Você é uma pirata!

Fernanda caiu no riso e eu também não me contive. Entretanto, ficou impossível não entender sua observação como plena de um sentido transcendental. Ele tinha razão. TODOS nós ali éramos piratas, aventureiros, apaixonados, guerreiros por uma causa grandiosa e nobre: a dignidade do nascimento. Oliver, com sua ingenuidade, acabou mostrando que a luta por vezes inglória e solitária para dar voz às mulheres e espaço ao feminino é uma batalha motivada pela indignação crescente com a violência obstétrica e a objetualização de mulheres no momento de dar seus filhos à luz.

Corsários tenazes, sofridos e marcados pelas feridas de batalhas, continuamos firmes na busca pela dignidade, garantindo em cada luta um pedaço a mais de terreno. Hoje podemos ver que conquistamos lentamente o coração e as mentes de adversários de outrora, o que nos mostra a justeza de nossos ideais e a importância de nossas lutas.

Parabéns às doulas pelo seu dia, e muito obrigado pelo maravilhoso trabalho realizado pelo resgate do nascimento como evento grandiosamente humano.

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