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Filantropos

Não há mais justificativa para negar que a filantropia em sua forma moderna, enquanto modelo empresarial, é a forma como os ricos e poderosos jogam migalhas aos pobres para que sua imagem seja melhorada e/ou aprimorada. Desde o início do capitalismo americano funciona assim, como nos ensinou John Rockefeller – o homem mais rico da história, que chegou a ser dono de 2% do PIB americano – jogando moedinhas (Dimes) para que as crianças na rua pudessem juntar. Era publicidade deslavada, tentando criar a imagem tão falsa quanto absurda de um “velhinho bondoso”. Na verdade se tratava de um dos lobos mais astutos e inescrupulosos do nascente império americano.

Todos esses sistemas de “ajuda aos pobres” só existem porque insistimos em um modelo capitalista injusto e que produz a brutalidade da iniquidade social. Nenhum país precisaria de ONGs para combater a fome, o analfabetismo ou as doenças endêmicas. Para oferecer este atendimento à população bastaria que os recursos PÚBLICOS fossem distribuídos de forma adequada e que não houvesse a concentração obscena de riqueza na mão de poucos capitalistas, que posteriormente devolvem uma fração minúscula de seus lucros como forma de publicidade, através de seus “institutos” e “fundações”.

É exatamente a perversidade desse sistema social e econômico que precisa ser combatida no século XXI. Quando a gente olha para estas instituições de ajuda à África, no combate à AIDs, à pobreza da América Latina, de proteção dos animais e de preservação da Amazônia e conhecemos os ativistas honestos e dedicados que dela participam, perdemos a noção do contexto amplo onde estas instituições são criadas, e ficamos incapacitados de perceber que a existência delas só pode ocorrer diante da falência do Estado. Sem a opressão sobre os povos e as desigualdades fomentadas entre os seres humanos nenhuma caridade seria necessária pois nenhuma filantropia faz sentido em um estado operante e que ocupe o posto de motor da distribuição equitativa de renda.

Enquanto isso não ocorre ficamos a mercê de seres desimportantes e sem brilho algum, como as primeiras damas de alguns Estados, as esposas de industriais que comandam fundações ou algum artista que tira milhões de seus seguidores e depois devolve uma parcela pequena – sempre para quem ele próprio escolhe, e não para quem mais necessita.

Os grandes filantropos americanos financiam Universidades pagas – como as da Ivy League – para que brancos de classe média possam estudar através de um sistema falsamente meritocrático, que sempre coloca em vantagem a classe que repousa sobre privilégios. Financiam também orquestras filarmônicas e museus (para a mesma classe), mas alguns fazem pior: estimulam pesquisas de medicamentos em negros e pobres africanos e da Ásia para serem posteriormente usados em brancos na América e Europa. Nada disso é bom, nada disso é adequado para a sociedade. Nada disso é justo e correto em uma sociedade que se pretende fraterna e justa.

“Caridade é ofensa; o povo quer – e merece – justiça social”.

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Piratas

Pirata

Depois da minha fala na Câmara de Vereadores de Porto Alegre ontem, no debate público sobre o projeto de lei das doulas, acompanhei meu neto Oliver até o corredor para pegarmos água no bebedouro que se localiza ao lado da entrada principal do salão. Logo ao chegar encontramos a simpática, jovem e enérgica vereadora Fernanda Melchionna, que veio me abraçar e agradecer as palavras de apoio ao projeto. Fernanda estava usando um curativo no olho direito, por uma lesão recente na …córnea, o que deixou meu neto de quase 3 anos absolutamente intrigado. Ainda no meu colo, olhava fixamente para seu rosto tentando entender o que estaria faltando, o que exatamente não se enquadrava na formatação dos rostos humanos que ele se acostumara a decifrar.

– A titia fez um dodói, um machucado no olho. Mas já vai ficar bom, explicou ela.

Oliver continuava a olhar fascinado, tentando compor e dar sentido ao que seus olhos de criança enxergavam. Depois de alguns instantes de séria observação abriu um sorriso majestoso e disparou:

– Você é uma pirata!

Fernanda caiu no riso e eu também não me contive. Entretanto, ficou impossível não entender sua observação como plena de um sentido transcendental. Ele tinha razão. TODOS nós ali éramos piratas, aventureiros, apaixonados, guerreiros por uma causa grandiosa e nobre: a dignidade do nascimento. Oliver, com sua ingenuidade, acabou mostrando que a luta por vezes inglória e solitária para dar voz às mulheres e espaço ao feminino é uma batalha motivada pela indignação crescente com a violência obstétrica e a objetualização de mulheres no momento de dar seus filhos à luz.

Corsários tenazes, sofridos e marcados pelas feridas de batalhas, continuamos firmes na busca pela dignidade, garantindo em cada luta um pedaço a mais de terreno. Hoje podemos ver que conquistamos lentamente o coração e as mentes de adversários de outrora, o que nos mostra a justeza de nossos ideais e a importância de nossas lutas.

Parabéns às doulas pelo seu dia, e muito obrigado pelo maravilhoso trabalho realizado pelo resgate do nascimento como evento grandiosamente humano.

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