Presentes

Eu sempre achei a correria de presentes de fim de ano uma angústia maléfica, mais do que desnecessária, que se oferece às crianças. Não é segredo que as pessoas felizes não consomem. Sua realização pessoal e a harmonia de seus sentimentos não gera a necessidade de artifícios externos. Desta maneira,  o trabalho árduo dos publicitários é criar a infelicidade nos consumidores, para imediatamente lhes vender o remédio: “cargo”, a coisa, o produto.

Somos assim guiados por um hipnotismo social consumista que se inicia inoculando a sensação de impotência, falha e falta. O pior é que este padrão se inicia na infância, onde suas raízes são fincadas no solo fértil da personalidade nascente. Não existe nenhum consumista que não tenha o princípio do seu vício muito precocemente estabelecido na primeira infância. Por essa razão eu acredito que afastar as crianças deste tipo de ciclo vicioso de falta – saciedade – frustração é uma tarefa que cabe aos pais iniciar o quanto antes.

Nossa decisão – minha e de Zeza – de abolir os presentes de Natal, dia das crianças e até aniversário, tem uma história. Meus filhos foram os primeiros netos por parte dos meus pais e quando tinham uns 7 e 4 anos começaram a perguntar o que ganhariam de Natal. A partir disso se iniciou um “zunzum” por parte dos avós e das tias sobre quem daria o quê para quem. A Zeza notou que isso passou a ser, além de um assunto entre eles, uma fonte de ansiedade e expectativa.

Havia uma espécie de “cobrança” antecipada, como se as pessoas tivessem que pagar um pedágio pela alegria que o convívio com meus filhos lhes oferecia. Para além disso, havia um comércio velado. “Se você me der um presente eu lhe pago com uma demonstração calorosa de amor“. Quem resiste?

Porém, a pergunta que eu me fazia era: o que, em verdade, era “o presente”? Seria o brinquedo (afeto materializado) ou o amor encenado que eles nos ofereciam em troca? 

Zeza percebeu esse distúrbio e decretou, com seu jeito sempre meigo (irony mode on) de fazer essas comunicações: ‘Não quero nenhum presente para os meus filhos, senão não viremos à ceia“.

Sargentona… mas hoje acho que a sua decisão foi de profunda sabedoria. Ela sabia que essas atitudes nos pequenos geram comportamentos que muito dificilmente eliminamos na vida adulta. Ela intuía que precisava cortar o mal do consumismo pela raiz e assim fizemos.

Claro que meus filhos ganharam presentes na vida, até hoje, mas nunca determinados por uma data ou por uma obrigatoriedade. Se houvesse necessidade ou vontade isso seria feito, mas procuramos retirá-los o quanto antes de uma vida que ligava felicidade ao consumo de coisas.

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