Arquivo da tag: super doulas

Sobre a natureza das doulas

Não vejo nenhum problema que essa função social, ou este papel, seja desempenhado de forma a garantir retorno financeiro às doulas. Pode-se cobrar de zero (de quem não tem condições de pagar) a muito (de quem valoriza este trabalho). Minha questão não se refere à cobrança – seja ela como for – e também não gosto de debate sobre “mercantilização”. Acho isso muito “cristão culposo”, pois dá a entender que cobrar pelo seu trabalho, tempo e disposição é errado.

O que me angustia é muito mais profundo do que o debate de “quantos dinheiros vale este trabalho”. Também não me incomoda a natural disputa sobre “nichos de mercado” pois o tempo ajusta isso. Em verdade, se a formação de doulas se tornar este curso de quase 200 horas e a este valor cobrado pela formação teremos não apenas a “gentrificação da doulagem”, mas sua nefasta medicalização e a perda de sua essência, que se fundou no carinho, proximidade, afeto e apoio incondicional.

Doulas cobram por seu tempo e arte, não pelo conhecimento acadêmico e elaborado de fisiologia, anatomia ou técnicas sofisticadas de posicionamento fetal.

Se as coisas continuarem assim em pouco tempo o futuro COFOULA – Conselho Federal das Doulas – lançará uma nota exigindo que também elas sejam chamadas de “doutoras”.

As leis que forem criadas exigindo formações longas e custosas para doulas são quimeras, engodos, truques para implodir o movimento, e devem ser combatidas e eliminadas. Adaptar-se a elas é fazer o jogo de quem odeia doulas.

Entre as propostas que escutei no Conadoula estavam aulas de gênero, raça, associativismo. Eu pergunto: e a doula da favela, também ela moradora da comunidade e praticamente sem instrução? E se uma doula não quiser tratar de racismo? E se uma doula for evangélica, a favor da cura gay e totalmente carola? Temos que obrigar doulas a seguir agendas feministas e “progressistas”? Por quê?

Lembro bem de uma paciente xiita que veio ao meu consultório de burca. Não admitia ser atendida por homens e veio com o seu marido para garantir isso. Por sorte Zeza fez o exame, mas eu teria o direito de doutriná-la pelos meus valores ocidentais igualitários? Não seria melhor se ela tivesse uma doula muçulmana que pudesse entender sua realidade e respeitá-la em sua singularidade? A quem serve esse currículo sofisticado que foi apresentado?

Fui convidado a não se meter na questão das doulas, mesmo tendo apoiado esse movimento desde o dia 1 do seu surgimento no Brasil. Entretanto não posso me furtar de opinar (mais uma vez) que o surgimento dos “Mega Cursos” de Doulas, caros e com 180 horas de aula (!!!!) significam o fim do movimento de doulas como o conhecemos e como surgiu há 15 anos no Brasil. Sim, eu sei que as doulas farão o que quiserem e são donas do seu destino, e que eu sou velho e não tenho que me meter no assunto alheio. Ok, então que assim seja. Todavia, eu concordo com a ideia de que a criação das “super-doulas” vai acabar com a percepção que tínhamos do seu trabalho e que foi o sustentáculo de sua importância na última década e meia.

Eu creio que, mesmo que crie esta profissão com cursos sofisticados e caros, no fim das contas as mulheres vão acabar contratando uma amiga – até sem curso algum – mas que fará o que se espera de uma acompanhante cálida e amorosa. Teremos que recriar a essência da doulas originais, aquilo que um dia atraiu a atenção de Klaus e Kennell e que revolucionou o universo do nascimento.

Talvez seja necessária uma aventura tecnológica para depois voltarmos à simplicidade.

Como na medicina….

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

A questão das (super) doulas

A capacitação de doulas deveria produzir, acima de tudo, um processo de “castração”. Tanto quanto ensinar as ações de uma doula no auxílio direto à gestante as doulas precisam ser orientadas a encarar com dignidade e respeito os seus LIMITES. Doula peitando médico e enfermeira, questionando condutas profissionais e até sequestrado pacientes de hospital já chegaram ao meu conhecimento. A tudo isso entendi como “entusiasmo”, característica da infância de uma ocupação. Passei por isso na infância da minha atuação como médico, em especial pelos dois “furores” principais: o “furor curandis” e o “furor interpretans”, a insânia por curar ou interpretar. Pois muitas doulas passam pelo “furor protetans”, que é o desejo de alguém que se esmera em proteger a paciente das violências institucionais, mas atacando, por vezes, os profissionais no hospital.

Isso não ajuda as doulas e menos ainda as gestantes e precisa ser coibido desde a formação.

Abandonar a obsessão pela “profissionalização” é o caminho que eu ofereci num duro debate em 2014. Naquela época eu já denunciava que não havia sentido em profissionalizar as doulas e a consequente inserção no mundo das corporações. Em pouco tempo as doulas seriam amarradas em torniquetes legais com a criação de sindicatos, conselhos, política corporativa, greves(???), fundo de garantia, regulamentações trabalhistas, etc… até serem sufocadas pela burocracia e pelas lutas internas. Na época eu disse que doula não era profissão (strictu sensu) mas uma ocupação, pelo que que fui prontamente atacado (qual a novidade?).

Pois bem, a atitude esperta dos legisladores de Curitiba (a exemplo do que fizeram em Porto Alegre com sucesso relativo) impôs às doulas uma formação na área da saúde. É óbvio que o objetivo era inviabilizar a atuação das doulas e o grande erro (nosso, do ativismo) foi aceitar essa condição, que nada mais era que um engodo para dividir o movimento de humanização do nascimento. Em Porto Alegre o projeto foi retirado. Acabamos ficando sem uma lei, mas não parimos uma aberração.

A solução, por mais difícil que seja, é mudar esta lei aberrante e não aceitar uma imposição esdrúxula, que não obedece nenhuma experiência ou estudo realizado pelo mundo. Minha ideia é que as doulas devem ser LIVRES de qualquer amarra legal ou corporativa e obedecer apenas ao contrato estabelecido com suas clientes. Pode ser uma postura contra-hegemônica e estranha para um mundo em que muitas ocupações lutam pela profissionalização, mas creio ser a atitude mais inteligente para a solidificação desta atividade na cultura.

As “super-doulas” partem de um equívoco conceitual, ao meu ver: a ideia de que a atividade da doula se sustenta por seu aprendizado cognitivo e racional objetivo, ao invés de ser uma ação de caráter sensitivo, afetivo, emocional e subjetivo. Essas últimas características são amiúde desconsideradas como sendo “não profissionais” e, portanto, não “comercializáveis”. Ledo engano, e a psicanálise que se ocupa em escutar e orientar compassivamente seus clientes é um exemplo disso. Assim, se é de ajuda o arcabouço teórico e prático que uma doula carrega ao oferecer seu auxílio, por certo que não é ele que dará a sustentação para esta árdua tarefa, mas a conexão íntima e pessoal que ela vai estabelecer com a alma da mulher que está em seu momento mais feminino.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto