Deuses gregos

Robbie certa vez me contou de uma amiga cujo marido é um sujeito “out of her league”. Isto é, um sujeito que é exageradamente bonito, muito charmoso e muito além da beleza da sua mulher. Eles fazem um casal díspar: um homem demasiadamente bonito para a beleza “comum” (eu diria, medíocre) da sua companheira de muitos anos. Essas são as palavras com as quais minha amiga descreveu o casal, porque nunca os vi, mas acredito no seu apurado olhar estético.

Em uma oportunidade, durante uma visita que fez com várias amigas a ela, Robbie lhe fez o seguinte comentário:

– Querida, queria lhe falar alguma coisa e não quero que me leve a mal. Por favor, entenda como uma dúvida sincera e sem segundas intenções. Eu acredito que você deve saber o que falam do seu marido, não?

Ela balançou a cabeça sorrindo e disse:

– Sim, eu bem sei. Isso já foi dito para mim de diversas formas, com atitudes, sorrisos, gestos e até palavras – como você está para me dizer. Sei o quanto ele é bonito e também como ele parece estar bem além dos meus tímidos atributos. Não tenho dúvidas disso e até eu me surpreendo. É evidente que uma relação amorosa não se constrói somente por estas capas estéticas, mas bem o sabemos o peso que elas desempenham na escolha de uma parceria. Não fosse isso verdade, que sentido haveria na extrema exaltação da beleza – em especial das mulheres – e porque tanto estranhamento se produz ao nos ver juntos?

Robbie tentou explicar que não havia nenhum julgamento, que ela era também linda, e que se tratava dê um elogio sincero de uma amiga para o “pedaço de homem” que ela tinha em casa e blá, blá, blá. Ela sorriu benevolente e continuou:

– Amiga, acredite, já ouvi isso de muitas formas. Sei o quanto ele é bonito e honestamente não consigo explicar porque ele, podendo ficar com a chefe das “cheerleaders“, escolheu ficar com a menina mediana da escola. A verdade é que devo ter atributos que ainda o encantam depois de mais de 30 anos de casamento, mas estaria mentindo se dissesse que sei quais são. Talvez exista algo na sua fantasia mais recôndita que ele encontra nessa mãe redondinha, com furinhos nas coxas e com rugas charmosas distribuídas pelo rosto.

Deu uma pausa para um novo sorriso e explicou:

– Mas no fundo eu acredito que a razão para ele ser tão simples e continuar comigo apesar de ter uma beleza física tão comentada é algo muito mais simples, que é…

Robbie arregalou o olhos, enquanto ela respondia, sem antes dar uma boa gargalhada…

– … o fato de que ele não sabe o impacto que produz nas mulheres e suas fantasias. Ele desconhece o quanto é bonito. Nunca se julgou assim e nunca apostou em sua vaidade como ferramenta de conquista ou sucesso. Talvez isso seja até uma limitação, um bloqueio de sua autoestima, mas é esse “defeito” que me permitiu ser feliz ao seu lado, e – por que não? – permitiu que ele fosse feliz comigo.

Bebeu mais um gole do chá e concluiu sorrindo:

– Só espero que vocês não tenham vindo me visitar apenas para fazê-lo, por fim, descobrir essa verdade há tanto tempo escondida de si mesmo.

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