Na perspectiva do médico o corpo dos pacientes – não só o corpo da mulher – reveste-se de um caráter objetual, observado e tratado como um “corpo real”, diferente de um corpo animado – com alma. Diante do profissional não está uma pessoa, com suas idiossincrasias, histórias e características, mas o objeto que ele deseja tratar, consertar ou apenas examinar.
Esse é o paradigma médico, o modelo de intervenção sobre a economia do corpo que é ensinado na escola médica. Para romper esse modelo de pensar e encarar o outro é necessário fazer uma reflexão bem mais complexa. Para re-humanizar o paciente – tornado objeto pela medicina – é preciso focar na sua condição de sujeito e reinventar um indivíduo que possui soberania sobre seu território mais elementar: seu próprio corpo. Acreditem, isso não é fácil, muito menos simples. Abstrair a humanidade dos clientes ajuda a suportar a carga emocional que estes depositam nos médicos. O peso se torna mais leve para carregar quando retiramos dos pacientes aquilo que os aproxima de nós: sua condição humana.
Perceberam quantos médicos existem que procuram especialidades nas quais o paciente só existe como referência, não em presença real? Ora, isso ocorre porque a tarefa mais complexa da medicina não é a do cientista no laboratório analisando tecidos, imagens ou pesquisando doenças de letras miúdas, mas o contato cotidiano com o universo que habita cada narrativa de dor, angústia e sofrimento. Do choque dessas narrativas com o seu sofrimento pessoal surge a angústia por identificação.
Entretanto, acho mesmo que a melhor maneira para um estudante de medicina entender o drama do “paciente enquanto sujeito” é mergulhando nesta condição, sentindo a dor da impotência e da submissão inerentes a esta posição subjetiva. Assim como, via de regra, a dor só se aprende quando a sentimos na carne, o respeito ao paciente só é plenamente entendido quando nos colocamos no seu lugar e vestimos seus sapatos.
