Arquivo da tag: corpo real

Consentimento

Na perspectiva do médico o corpo dos pacientes – não só o corpo da mulher – reveste-se de um caráter objetual, observado e tratado como um “corpo real”, diferente de um corpo animado – com alma. Diante do profissional não está uma pessoa, com suas idiossincrasias, histórias e características, mas o objeto que ele deseja tratar, consertar ou apenas examinar.

Esse é o paradigma médico, o modelo de intervenção sobre a economia do corpo que é ensinado na escola médica. Para romper esse modelo de pensar e encarar o outro é necessário fazer uma reflexão bem mais complexa. Para re-humanizar o paciente – tornado objeto pela medicina – é preciso focar na sua condição de sujeito e reinventar um indivíduo que possui soberania sobre seu território mais elementar: seu próprio corpo. Acreditem, isso não é fácil, muito menos simples. Abstrair a humanidade dos clientes ajuda a suportar a carga emocional que estes depositam nos médicos. O peso se torna mais leve para carregar quando retiramos dos pacientes aquilo que os aproxima de nós: sua condição humana.

Perceberam quantos médicos existem que procuram especialidades nas quais o paciente só existe como referência, não em presença real? Ora, isso ocorre porque a tarefa mais complexa da medicina não é a do cientista no laboratório analisando tecidos, imagens ou pesquisando doenças de letras miúdas, mas o contato cotidiano com o universo que habita cada narrativa de dor, angústia e sofrimento. Do choque dessas narrativas com o seu sofrimento pessoal surge a angústia por identificação.

Entretanto, acho mesmo que a melhor maneira para um estudante de medicina entender o drama do “paciente enquanto sujeito” é mergulhando nesta condição, sentindo a dor da impotência e da submissão inerentes a esta posição subjetiva. Assim como, via de regra, a dor só se aprende quando a sentimos na carne, o respeito ao paciente só é plenamente entendido quando nos colocamos no seu lugar e vestimos seus sapatos.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Medicina, Parto

Nutellas

Não são alunos “Nutellas”; o crime deles é serem pessoas normais…. ainda. A reação dos alunos iniciantes ao sangue, aos cortes, à brutalidade e à crueza das cirurgias é porque eles olham para os corpos dotados de alma. Os cirurgiões, por seu turno, conseguem – através de um longo treinamento – produzir um isolamento que lhes possibilita analisar o corpo “real” constituído tão somente de artérias, veias, ligamentos, ossos e tecido conjuntivo.

Fica evidente, pelas imagens, que se trata de alunos do primeiro ano. Minha experiência diz que praticamente ninguém fica impassível ao ver uma cirurgia pela primeira vez; não há como separar a carne cortada da alma que sofre. A dissociação que produz a percepção do “corpo real” do paciente, em contraposição ao “corpo erotizado” com o qual lidamos no cotidiano, é fruto de um lento processo de adaptação, o que leva a um estado de relativa insensibilidade à dor e ao sofrimento alheio. Este mecanismo é fundamental para proteger o psiquismo dos profissionais e permitir uma tomada de decisão mais racional, mas tem como parefeito a conhecida “frieza” dos cirurgiões. Entretanto, sem este tipo de isolamento afetivo toda a ação dos profissionais de saúde seria praticamente impossível, pois que seria danosa para eles.

Robbie Davis-Floyd se ocupou deste tema ao escrever sobre a escola médica como um “rito de passagem”, onde sujeitos comuns (como os garotos e garotas da imagem) se transformam em médicos. Este processo percorre toda a faculdade de medicina, e possui etapas bem conhecidas. A reação deles nada tem a ver com coragem ou com a qualidade dos profissionais que vão se tornar. Existem médicos clínicos, formados há anos, que desmaiam diante de cirurgias, pois nunca se acostumaram (adaptaram) a este contexto invasivo.

Para ser sincero, gostaria que estes alunos tivessem essa reação ao saber dos abusos de cesarianas no seu país, que sacrificam mulheres e crianças para proteger e beneficiar a máfia que controla estas cirurgias.

Veja o vídeo aqui

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Pensamentos