Quantos votos você fez?

Talvez seja interessante entender a diferença entre um partido eleitoral e um partido revolucionário. A pergunta “quantos votos você fez” para um candidato de um partido revolucionário faz tanto sentido quanto perguntar para uma criança quanto de dinheiro ela tem. Sua mente não lida com esse valor e, para ela, isso não faz sentido. Votos dizem respeito a uma formulação política liberal que rejeitamos. Pensem um pouquinho: esse modelo liberal burguês, onde os candidatos são escolhidos pela burguesia – os verdadeiros donos do país – levou aos Estados Unidos a escolherem como seus dois últimos presidentes um demente e um abusador. Antes disso um negro que jamais colocou em prática qualquer iniciativa para diminuir a pobreza no seu país e, antes dele, um playboy inútil, alcoolista e usuário de drogas, filho de um ex presidente e que jamais teve um emprego na vida. Aliás, a trajetória de George W. Bush em muito se assemelha ao candidato das milícias.

No Brasil, em função da configuração do congresso e dos partidos, até mesmo um líder operário como Lula é obrigado a se vergar à Faria Lima e ao latifúndio do Agro, os verdadeiros proprietários do país. E isso porque, nesta configuração, não é possível para ele governar sem a interferência direta desses poderes. Todos vimos o que houve com Dilma que foi defenestrada sem ter cometido qualquer crime de responsabilidade – a única forma legal de retirar uma presidente eleita de seu posto. Ou seja: o sistema é feito para propiciar golpes. Por isso Lula não se atreve a dirigir-se à esquerda, pois sabe que seria facilmente retirado pelos conluios de gente ligada ao imperialismo e aos interesses do grande capital nacional. Para Lula cabe o papel medíocre de ser o gestor da massa falida do capitalismo brasileiro, sem poder realizar as mudanças necessárias para tirar o país do atoleiro.

Foi por perceber o “cul de sac” dessa política liberal que eu abandonei a modalidade eleitoral burguesa e suas ilusões. Percebi, a duras penas, que não é possível avançar as pautas do povo atrelado a um sistema burguês criado e mantido para que não aconteçam mudanças na estrutura de classes do país. Quem um dia prestar atenção no cenário das disputas políticas nacionais vai acabar percebendo que os candidatos apenas são eleitos quando ungidos pelo poder que realmente governa a nação: a burguesia, que pode pender para qualquer lado desde que seus ganhos sejam mantidos ou aumentados e que ninguém questione o sistema de classes. Para que uma real mudança ocorra, será necessário que ocorra uma revolução. Foi assim nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, em Cuba, na Rússia czarista, no Vietnã e qualquer outro país que ousou pensar no futuro. A via da democracia liberal tem um horizonte limitado e que já se mostra esgotado: a crise na Europa e a decadência acelerada dos Estados Unidos (que observa os maiores índices de pobreza e a maior concentração de renda da sua história) são exemplos claros disso.

Quem se surpreende pela quantidade de votos eu fiz apenas demonstra que não entendeu a opção que eu fiz. Um partido como o PCO pouco se importa com as eleições pois, na melhor das hipóteses, poderíamos eleger alguém como Lula, um presidente engessado e constrangido por uma estrutura política que impede mudanças relevantes e profundas na economia do país.

Eu recebi um pouco mais de 2300 votos, o que é absolutamente surpreendente para alguém que entregou a sua conta eleitoral no Banco do Brasil zerada, que não fez campanha, que não participou de debates e que apenas se limitou a oferecer seu nome ao partido para que daí viesse alguma visibilidade para as nossas propostas. Entretanto, é útil lembrar que o deputado estadual Márcio Canella (União Brasil) recebeu 197.178 votos nas eleições de 4 de outubro de 2026, sendo o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. Ao contrário de mim, ele fez um enorme sucesso nas urnas. Canella foi preso pela Polícia Federal em 15 de outubro de 2026, na Operação Unha e Carne, que investiga suspeitas de ligação com organizações criminosas. Ele foi preso hoje por ser líder das milícias do Rio de Janeiro, amicíssimo de Flávio Bolsonaro e parceiro de negócios do candidato das rachadinhas. Diante disso eu pergunto: é possível medir a integridade de um sujeito ou mesmo a adequação de suas propostas por meio da simples contagem dos votos que recebeu? É possível avaliar a qualidade de um sujeito pelo número de “seguidores”, pela quantidade de “likes”, pela votação que recebeu ou pelo dinheiro que possui?

Ou serão essas medidas externas propícias ao engano, pois revelam o exterior fulgurante de um sujeito enquanto esconde sua realidade interna e imaterial?

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Arquivado em Histórias Pessoais, Política

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