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Ricos

“Não creio que os ricos tenham um comportamento social diferente por um defeito de caráter ou uma perversidade inata da alma. Esta é uma questão cultural. Vejam que eu aqui uso “rico” para me referir ao sujeito que anda com seu próprio avião e coleciona Porsche, e não o que popularmente chamamos assim, apenas porque tem uma casa bonita e um carro novo. Seu comportamento diferente de nós não se dá por  uma questão essencial, mas a compreensão de que o acúmulo de poder em forma de capital – em especial desde a mais tenra idade –  faz com que os absurdamente abastados vivam em um mundo à parte, com seus valores próprios, onde os outros não possuem o mesmo valor que eles se atribuem, por isso mesmo se escondem no Olimpo gradeado onde vivem. Sequer as coisas que seu muito dinheiro compra valem o quanto sentimos que valem, em nosso mundo de valores poucos.

Por isso acredito que a riqueza, assim como a pobreza, a beleza extremada e até a delicadeza são fardos que o sujeito carrega, por mais estranho e paradoxal que isso possa parecer. Se possível fosse, pediria antes de chegar a este mundo que não recebesse o fardo da beleza, para não sucumbir à vaidade e à puerilidade. Também não gostaria de ser rico para não tratar meus iguais como coisas etiquetadas, retirando deles todos sua condição humana. Pediria que a delicadeza fosse temperada com pitadas generosas de força para não correr o risco de sucumbir aos baques do mundo por faltar-me a força e a energia. Em suma, pediria que estes fardos fossem aliviados para que nenhum deles fosse capaz de obstruir a tarefa de conquistar a humildade.

Nunca esquecerei da frase enigmática que o meu pai disse quando eu estava em plena adolescência e na angústia natural de conseguir dinheiro e independência: “Se quiseres me destruir basta me dar 1 milhão e estarei arruinado“. Para mim sua frase parecia totalmente incompreensível, mas hoje, ao ver diminuir paulatinamente o valor monetário de qualquer coisa ao meu redor, sua frase pode, finalmente, fazer sentido.”

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