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Fundos eleitorais

Hoje foram divulgados os valores do fundo eleitoral, um total de quase 5 bilhões de reais, mas que parece pequeno quando a gente pensa no que foi roubado na falcatrua do Banco Master e na montagem do filme “O Pangaré escurinho”. Na repartição desse montante o partido mais favorecido é o PL com 800 milhões de reais, enquanto o PT recebeu 600 milhões. Estes numeros se baseiam na representatividade de cada partido no parlamento. Os valores do PL e do PT parecem valores próximos, não? Entretanto, o que chama a atenção é o fato de que os partidos de direita recebem o triplo do que recebem os partidos de esquerda somados. Como podemos acreditar em paridade de forças com tamanha diferença?

Fica evidente que a eleição no Brasil é um produto na prateleira para ser vendido. Quem paga mais leva uma vantagem praticamente intransponível. Porém, muito mais importante que a qualidade do produto – as propostas políticas – está a propaganda que se faz sobre ele. Afinal, como imaginar que cigarro, Coca Cola e Israel fizeram tanto sucesso no mundo durante décadas sendo tão daninhos para a vida e a saúde de todo o planeta? Publicidade explica essa discrepância. As eleições demandam dinheiro, muita grana, gasta em pesquisas, organização, gasolina, contratar ativistas pagos, gastar com papel e publicidade, ações caras e sofisticadas, com o intuito de eleger o presidente, deputados e senadores – e mesmo vereadores, em nível local. Isso explica porque nossas eleições não são realmente “democráticas”, mas um arremedo de escolha “livre”. É preciso pagar uma fortuna para eleger um candidato. Quem sai na frente? O empresário ou o defensor do operário?

É como se houvesse uma competição de caça na floresta, onde todos saem do mesmo lugar, e todos tem o mesmo tempo para trazer os animais abatidos, mas o garoto herdeiro recebeu uma metralhadora caríssima do papai e o garoto pobre da periferia leva um bodoque, um estilingue que custa apenas alguns centavos. Existe real liberdade de escolha quando a publicidade é tão escandalosamente distinta?

PS: imaginem o PCO com a grana do PL e recebendo cobertura diária da Globo e dos jornalões brasileiros. Deixem essa imagem sedimentar nas suas mentes… 

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Ateus e Fumantes

Há alguns anos eu passei na frente do antigo estádio do meu time no bairro da Azenha no exato momento em que milhares de fiéis de uma igreja pentecostal saíam de lá, com suas fatiotas, saias abaixo do joelho e carregando suas Bíblias na mão. Pareciam estar eufóricos com a pregação, e atravessavam a rua em bandos enormes, atrapalhando o fluxo. Lembro da minha profunda irritação ao vê-los passar na frente do carro, enquanto eu escutava roquenrrol no rádio.

Depois que segui para casa fiquei pensando na multidão e na minha raiva. Ora, eu já havia sido pego nesse tipo de congestionamento de pessoas após jogos de futebol, mas mesmo quando era do time adversário eu jamais me senti tão incomodado. Por que tanta irritação?

Foi então que eu lembrei de outro fenômeno correlato: a raiva que pessoas que não fumam nutrem pelos fumantes. Fumar parece ter se tornado, nas últimas duas décadas, um crime mais hediondo do que assassinato seguido de esquartejamento. Lembro do Contardo Calligaris, famoso psicanalista e fumante, contando que nos Estados Unidos recebeu xingamentos parado no semáforo vindos do carro ao lado por estar fumando dentro do seu próprio automóvel – e sozinho.

Pois então…. qual a relação entre a raiva contra os fumantes e a raiva direcionada aos crentes?

Para mim o ponto de contato entre ambas é… a inveja.

Sim, invejamos o prazer que o cigarro produz nas pessoas que fumam. Sabemos que o ato de fumar é profundamente prazeroso e que cria uma aura de calma e tranquilidade em quem se joga às baforadas. É o prazer alheio que, por não nos alcançar pelas proibições autoimpostas, nos atinge e maltrata. Odiamos no fumante o prazer que sonegamos a nós mesmos.

Pois o crente também é alvo de nossa envídia. Cobiçamos a segurança que ele tem nos desígnios divinos, sua fala cheia de propósitos últimos, sua postura altiva por estar “ao lado do pai”, seu comportamento confiante e sua fé no porvir. Escutar um crente que acredita na providência divina é insuportável para todos aqueles que não foram bafejados pela fé. Diante das agruras da vida, esta engenharia mental arcaica de acreditar num propósito superior para tudo causa sofrimento e dor profunda em quem só vê diante de si caos e desordem.

Não é à toa que aqueles que acreditam em Deus causam tanto desassossego nos ateus praticantes e ativistas. Mais do que desacreditar numa divindade ou em um propósito superior para a Vida, eles pretendem acabar com qualquer resquício de credulidade na humanidade.

Matando o prazer e a fé nos outros diminuímos um pouco nosso desprazer e nosso abandono.

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