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Fim do Futebol. Será?

Hoje (18/09/2026) foi publicada na Internet uma manifestação dos clubes brasileiros em defesa das BETs. Clubes da Série A e federações de futebol se mobilizaram contra a possibilidade de o Governo Federal proibir os jogos de cassino on-line, argumentando que uma mudança brusca na regulamentação das apostas teria forte impacto financeiro no futebol brasileiro. As BETs autorizadas investem mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios, beneficiando desde grandes clubes até equipes menores, futebol feminino, categorias de base e projetos sociais. No manifesto, as entidades reconhecem os riscos sociais associados às apostas e defendem maior fiscalização, prevenção e proteção aos consumidores, mas sustentam que a regulamentação é preferível à proibição, pois permite tributação e controle das empresas e combate às plataformas clandestinas, para as quais, segundo elas, os apostadores poderiam migrar caso o mercado legal fosse restringido.

O manifesto dos clubes brasileiros tem razão em alguns pontos, em especial ao dizer que poderia haver uma quebradeira nos clubes. Há contratos firmados com as BETS e muitos contratos de jogadores caros, comprados no exterior, estão ligados às receitas que seriam esperadas com tais contratos. É claro que estes aspectos não podem ser desconsiderados. A bancarrota de clubes tradicionais do Brasil, que fazem parte da malha de sustentação da cultura brasileira, e aquilo que nos define na mente de milhões de estrangeiros, não pode ser algo visto como positivo. Não se trata, portanto, de utilizar um remédio que, de tão forte, viesse a matar o paciente. os clubes brasileiros, em sua maioria, estão com situação financeira calamitosa, e o dinheiro das BETs ajuda e diminuir o impacto dos desastres financeiros causados por seus dirigentes.

Entretanto, enfrentar os assaltos a banco e prender os criminosos que os promovem também deixa muitas famílias em necessidade. Não há como justificar as BETs apenas porque ela ajuda o futebol a pagar suas contas. Existem inúmeros estudos mostrando o desastre que as apostas causam nas famílias do Brasil. O Banco Central estimou que, apenas entre janeiro e agosto de 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros fizeram apostas on-line, movimentando aproximadamente R$ 20,8 bilhões por mês. O problema é especialmente grave entre famílias de baixa renda: análise do TCU encontrou cerca de 802 mil famílias beneficiárias do Bolsa Família que, em janeiro de 2025, comprometeram mais de 2% de sua renda com apostas, faixa considerada de alto risco para despesas essenciais e endividamento. Além da perda financeira, o Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a endividamento, conflitos e rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, perda de emprego e maior risco de suicídio, estimando, com base na literatura científica, que cada pessoa que desenvolve transtorno do jogo pode afetar outras seis ao seu redor. A preocupação tornou-se suficientemente grande para que o governo passasse a impedir beneficiários do Bolsa Família e do BPC de manter contas nas plataformas licenciadas; até agosto de 2026, cerca de 3 milhões de beneficiários haviam sido bloqueados.

Há um outro fator importante. Quanto mais dinheiro é envolvido nas apostas maior será a sedução para alterar o resultado dos jogos para favorecer apostadores. O aspecto particularmente preocupante da era das BETs on-line é o spot-fixing: não é mais necessário combinar quem vai ganhar ou perder a partida. Um jogador pode manipular algo aparentemente secundário — tomar um cartão, cometer uma falta, provocar um escanteio ou alterar uma estatística individual — e isso já pode movimentar apostas. Foi justamente esse modelo que apareceu com força na Operação Penalidade Máxima brasileira. Inúmeros jogadores e clubes estiveram envolvidos em escândalos dessa natureza, e as absolvições de alguns deles certamente passa por uma ação paternalista da justiça com clubes de enorme torcida. Entre eles temos Bruno Henrique (Flamengo), Ivan Toney (Inglaterra), Sandro Tonalli (Itália), Alef Manga (Coritiba) e muitos outros, inclusive de equipes menores que sequer tomamos conhecimento. E isso não ocorre apenas no futebol; no Beisebol ocorreram escândalos semelhantes. No Chicago White Sox, em 1919, oito jogadores foram acusados de participar de um esquema para entregar partidas da World Series para o Cincinnati Reds. Todos foram banidos. Também no basquete, onde Jontay Porter em 2024 foi banido da NBA por passar informações confidenciais a apostadores sobre o próprio desempenho.

Eu também sou contra o proibicionismo. Acho que devemos dar a liberdade às pessoas para que estas façam escolhas informadas sobre seu destino – inclusive seu dinheiro. Entretanto, vejo na questão das BETs um fenômeno parecido com aquele que eu testemunhei há mais de 30 anos quando cortaram a publicidade do cigarro da Formula 1 e posteriormente das televisões. Isso acarretou um lento e sustentado declínio do tabagismo, que se sustentava não por uma adesão livre do sujeito ao cigarro, mas por um massacre de propaganda e vinculação desse hábito com o “sucesso”. Bastou cortar a fonte de publicidade e o consumo de cigarros iniciou seu declínio, o que causou uma melhoria importante na taxa de mortes por câncer de pulmão. A logica é que se percebe na reação dos clubes pelo temor que o novo governo possa obstaculizar as BETs é exatamente essa. Lembro do Armindo Antônio Ranzolin, radialista e dirigente da ABERT nos anos 90, lendo uma carta aberta da sua associação onde se posicionavam de forma veemente contra a proibição de propagandas de cigarro na TV. Veja, não tiveram sequer escrúpulos para defender propaganda de cigarro, que matava milhões no mundo todo, um veneno reconhecido há décadas. A grana do cigarro deixou de fluir, e o mesmo poderá acontecer com as BETs.

O futebol está sendo sustentado por gente doente, apostadores que vendem a alma pelos seus vícios. Não existe “diversão” em apostar; esta é uma mentira vendida para disfarçar os mecanismos psicológicos que prendem um sujeito ao jogo. Devemos permitir que isso aconteça? Podemos considerar que a opção por jogar é uma opção livre? Podemos desconsiderar a pressão da propaganda massiva sobre a população? É lícito não reconhecer o efeito hipnótico dos ganhos fáceis em uma população massacrada pela barbárie do capitalismo decadente? Ou devemos escolher uma opção sanitária, baseada na diminuição dos danos, constrangendo os empresários de apostas que se aproveitam do desespero da população para lucrar? Cabe salientar o momento em que esta campanha veio à tona: um mês antes das eleições. Os dirigentes de futebol do Brasil são em sua imensa maioria pertencentes às classes mais altas, e muitos deles são do partido de direita do ex presidente Bolsonaro. Não existiria aí a intenção de colocar as torcidas do Brasil contra a esquerda, que por muitas vezes cogitou ações contra o “Império Milionário das BETs”?

O fim das BETs provavelmente traria uma convulsão no mundo do esporte, mas com o tempo o futebol se adaptaria. Talvez tenham que pagar menos de 2 milhões mensais para técnicos importados da Europa. É possível que alguns jogadores tenham seus salários cortados pela metade ou bem menos. Mas com o tempo isso seria bom para o futebol.

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Fundos eleitorais

Hoje foram divulgados os valores do fundo eleitoral, um total de quase 5 bilhões de reais, mas que parece pequeno quando a gente pensa no que foi roubado na falcatrua do Banco Master e na montagem do filme “O Pangaré escurinho”. Na repartição desse montante o partido mais favorecido é o PL com 800 milhões de reais, enquanto o PT recebeu 600 milhões. Estes numeros se baseiam na representatividade de cada partido no parlamento. Os valores do PL e do PT parecem valores próximos, não? Entretanto, o que chama a atenção é o fato de que os partidos de direita recebem o triplo do que recebem os partidos de esquerda somados. Como podemos acreditar em paridade de forças com tamanha diferença?

Fica evidente que a eleição no Brasil é um produto na prateleira para ser vendido. Quem paga mais leva uma vantagem praticamente intransponível. Porém, muito mais importante que a qualidade do produto – as propostas políticas – está a propaganda que se faz sobre ele. Afinal, como imaginar que cigarro, Coca Cola e Israel fizeram tanto sucesso no mundo durante décadas sendo tão daninhos para a vida e a saúde de todo o planeta? Publicidade explica essa discrepância. As eleições demandam dinheiro, muita grana, gasta em pesquisas, organização, gasolina, contratar ativistas pagos, gastar com papel e publicidade, ações caras e sofisticadas, com o intuito de eleger o presidente, deputados e senadores – e mesmo vereadores, em nível local. Isso explica porque nossas eleições não são realmente “democráticas”, mas um arremedo de escolha “livre”. É preciso pagar uma fortuna para eleger um candidato. Quem sai na frente? O empresário ou o defensor do operário?

É como se houvesse uma competição de caça na floresta, onde todos saem do mesmo lugar, e todos tem o mesmo tempo para trazer os animais abatidos, mas o garoto herdeiro recebeu uma metralhadora caríssima do papai e o garoto pobre da periferia leva um bodoque, um estilingue que custa apenas alguns centavos. Existe real liberdade de escolha quando a publicidade é tão escandalosamente distinta?

PS: imaginem o PCO com a grana do PL e recebendo cobertura diária da Globo e dos jornalões brasileiros. Deixem essa imagem sedimentar nas suas mentes… 

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Bandeiras

Nessa época eleitoral é importante estar atento para as falsas bandeiras. Aqui está uma história que ficou marcada na minha memória, e que deve ter ocorrido há uns dez anos. Certa vez fui convidado a falar em uma cidade de tamanho médio no interior do Brasil. O convite veio direto da secretaria de saúde, na pessoa do seu secretário municipal. Quando lá cheguei fui amavelmente recebido pela sua assessora que me mostrou o prédio da câmara e apontou o lugar onde deveria esperar até ser chamado. Não demorou muito e pediram para que eu compusesse a mesa para os trabalhos da noite. Falei por mais de uma hora sobre a importância da garantia do protagonismo à mulher no processo de parto e nascimento e no significado de capacitar doulas – e as próprias famílias – para darem conta desse evento numa perspectiva humanista e embasada em evidências científicas. Penso que a palestra foi bem recebida pelos participantes, e a prova foi as excelentes perguntas e manifestações que se seguiram à minha fala.

Terminado o encontro, me preparei para voltar ao hotel e descansar do dia corrido, visto que meu avião sairia muito cedo. A assessora do secretário, entretanto, me fez um convite para acompanhá-lo, junto com um grupo de ativistas da cidade, a um jantar. Foi o que fiz. Lá chegando conversei animadamente com as ativistas, todas doulas e enfermeiras, que estavam entusiasmadas em trazer um curso de doulas para a cidade e para influenciar na gestão municipal no sentido de criar uma “lei de doulas”. A tudo eu respondia com o pouco de experiência que tinha pelas visitas a inúmeras cidades pelo interior do Brasil. Enquanto isso, o secretário ao meu lado apenas escutava. Era um rapaz jovem, não tinha 40 anos, estava de terno e gravata e usava “brilhantina” no cabelo. Pertencia a um partido de direita que havia elegido o prefeito três anos antes, e ele agora pretendia concorrer a uma vaga como vereador, depois de sua experiência na administração pública.

Em determinado momento, ele me disse:

– Olha doutor, muito obrigado pela sua presença na cidade. Gostei da sua palestra. Entretanto, não entendo nada desse assunto. Sou um completo ignorante neste tema. Sou da área de gestão, entende? Tenho dois filhos e ambos nasceram de cesariana, porque assim minha mulher escolheu. Sabe, para mim tanto faz, cesariana, parto normal, essas coisas todas. Afinal, o corpo é dela não é? Minha esposa não queria correr riscos, acho que o senhor entende. Também não estava interessada em sentir dor; ela é muito fiasquenta sabe? Qualquer dorzinha já a abala muito; jamais suportaria as dores de um parto.

Escutei silenciosamente e não fiz comentários. Aprendi a duras penas que as convicções fortemente arraigadas surgidas de estratos irracionais não podem ser confrontadas em curto prazo com qualquer abordagem racional, mesmo quando apresentamos fatos, estudos e evidências. Estes recursos retóricos simplesmente se chocam contra uma parede rígida de crenças, as quais ajudam a suportar as contradições. Ele continuou:

– Porém, minha assessora teve o parto dela com uma doula e descobriu seu nome na Internet. Achei que isso poderia ser uma bandeira para utilizar na próxima eleição. Serei candidato à vereança. Acho que isso pode atrair a atenção do eleitorado feminino. Que acha?

Pôs a mão no bolso, retirou um santinho e me entregou. Nele o perfil era característico dos agroboys: a mesma brilhantina e o terno com gravata, misturados com palavras impactantes como “progresso”, “renovação”, “juventude”, “dinamismo”, etc. Entretanto, neste momento eu percebi, com vergonha e um pouco de tristeza, que para ele eu era um “santinho ambulante” e uma peça de propaganda de sua campanha. Pelas suas palavras ficou claro que ele estava tão distante dos ideais da humanização do nascimento quanto um urso polar está da Antártida. Eu estava, sem o saber, fazendo parte de um esquema que pretendia angariar votos usando a isca do parto humanizado, mas para um candidato que não tinha nenhum compromisso real com a ideia. Pensei que, de certa forma, a culpa era minha por não saber o que havia por trás do convite. Por outro lado, a mensagem havia sido transmitida, o recado havia sido dado e as pessoas que participaram do evento receberam uma semente do que poderia ser um mundo em que o parto fosse mais livre, sem ser dominado despoticamente por interesses de outra ordem. Não sei o quanto estive errado em aceitar o convite, e até hoje guardo essa dúvida.

De qualquer forma, passei a pensar que, muito mais do que as palavras de apoio e de suporte aos nossos ideais, um candidato precisa ser aquele que vive intensamente o que prega. É necessário que seu discurso não fique confinado às palavras, mas que esteja em sua história, no seu trabalho, no seu cotidiano, na educação dos filhos, na forma como conversa com os colegas de trabalho e como interage com os amigos. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, as máscaras acabam caindo e por fim nos mostra a real essência que se esconde por detrás dos disfarces.

Nessa eleição vote pensando nisso…

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A Esquerda e Maduro

A imprensa – repetindo uma crítica velha, que apenas se retroalimentou agora – diz que é um absurdo comemorarmos a vitória de Maduro – tratado como um ditador sanguinário – nas eleições recentes da Venezuela. Não poderia ser diferente, tendo em vista o tipo de imprensa frouxa que criamos no Brasil, Todavia, essa crítica emerge também de setores da esquerda, mas o que esperar de uma esquerda onde até um sionista ex-BBB, que apoia Tebet para as eleições 2026, se acha a última bolacha do pacote apenas pela sua vinculação identitária. Até este momento em que escrevo esta crônica o presidente Lula e o presidente Petro não reconheceram a vitória de Maduro nas eleições – o que mostra frouxidão no apoio ao governo de enfrentamento aos imperialistas. Para estes “esquerdistas”, é necessário defendermos a democracia liberal burguesa a qualquer custo, nem que para isso usemos a narrativa produzida pelos “think tanks” liberais e as próprias palavras com as quais o imperialismo nos descreve.

Para os epítetos oferecidos ao presidente Maduro pela nossa imprensa “isenta”, resta explicar como um sujeito pode ser “ditador” e vencer seguidas eleições democráticas e livres, vistoriadas sempre por inúmeras nações estrangeiras, inclusive recebendo delegações das várias “ditaduras” europeias, em especial da “ditadura” francesa, da “ditadura” inglesa e também de países da América Latina? “Ahh, mas ele impediu sua adversária de concorrer”. Bem, não foi “ele”, o presidente Maduro, mas o judiciário Venezuelano, que condenou uma candidata que teve inúmeras inconsistências na sua prestação de contas de seu cargo como deputada. Digam: como um sujeito assim seria tratado nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na Holanda? “Ahh, mas o judiciário de lá é controlado pelo governo”. Quem disse? Quem prova? Olhem o Brasil, como exemplo: acham que Lula controla o STF – que inclusive o prendeu ao arrepio da lei? Bolsonaro é o principal nome dos fascistas e da extrema direita brasileira e está impedido de concorrer; é o conhecido “inelegível”. Porém, está nessa situação por crimes contra o sistema eleitoral transitados em julgado. Seremos uma ditadura por causa disso? Devemos aceitar qualquer violação à lei para satisfazer a sanha de controle por parte dos americanos?

O que significaria a volta da extrema direita à Venezuela, trazendo consigo o controle imperialista ao pais? Depois de um quarto de século de lutas por autonomia e controle de suas riquezas, como ficaria o país sendo novamente entregue às potências estrangeiras? Não seria justo que a vitória (mais uma vez nas urnas) da Revolução Bolivariana fosse  comemorada e entendida como uma conquista do povo na sua luta por autonomia? Tais esquerdistas liberais não conseguem se dar conta que essa narrativa de “Maduro ditador” é uma construção do imperialismo para atacar qualquer líder popular que desafie o Império e seus interesses. Cegos pela propaganda intensa que lhes é dada para engolir, não perceberam as inúmeras mentiras contadas de forma repetitiva, da mesma forma como foram contadas sobre Dilma e Lula. Não é possível esquecer onde os sucessivos golpes e o “law fare” contra Lula nos conduziram: o Brasil foi colocado nas mãos de um ladrão, reacionário, entreguista e incompetente como Bolsonaro, cujos crimes expostos à luz do dia chocam qualquer sujeito minimamente honesto. Por obra do imperialismo,  todo grupo de resistência contra a opressão é chamado de “terrorista” (como o Hamas, o Hezbollah e os Houtis) e todo líder popular de esquerda ou progressista é tratado como ditador (ou narcoditador) como fazem com Kim Jon Un, ou Chávez.

O controle imperialista e os embargos criminosos contra um povo bravo que decidiu democraticamente não se submeter ao imperialismo levaram a décadas de dificuldades para o país caribenho. A derrota de Maduro levaria inexoravelmente ao poder a extrema direita ligada aos Estados Unidos, liberal, conservadora e violenta. E vejam: criticar Maduro é possível e até louvável, mas torcer contra sua vitória quando seus concorrentes são fascistas e entreguistas é apostar na subserviência da Venezuela ao imperialismo mortal, cruel e assassino. A direita chama a Venezuela de antidemocrática, e usam como argumento a pretensa fuga de venezuelanos para o Brasil através da fronteira. Por acaso a fuga de cidadãos, esmagados pelas dificuldades impostas pelos embargos americanos e pelas dificuldades econômicas da Venezuela, significa que o país é uma ditadura? Por acaso as dificuldades do país podem ser desvinculadas dos bloqueios criminosos contra o país? Aguardo as provas de que não existem liberdades democráticas na Venezuela, ou pelo menos que elas sejam menores que no Brasil e nos Estados Unidos. Aliás, nos Estados Unidos se você usar uma bandeira palestina ou se fizer boicote ao estado terrorista de Israel pode ser preso ou morto. Serão eles uma ditadura?

Muitos adversários costumam fazer pouco caso dos boicotes ao país. Dizem “O governo costuma culpar o embargo por tudo”…. mas não é para culpar? A estes pergunto: sabem o que representa para um país um embargo de remédios, comida, peças para máquinas, equipamentos médicos, tecnologia, maquinário etc., praticamente tudo que é produzido pelo comércio internacional? Quem não sabe, tente lembrar o que foi uma simples greve de caminhoneiros no Brasil e a falta de apenas um produto: a gasolina. Agora multiplique por mil e faça durar 20 anos e teremos as dificuldades da Venezuela. Acham que isso não é suficiente para destruir a economia de um país? Ora, sejam respeitosos com a verdade. E sabem por que os Estados Unidos organizam e promovem este tipo de torniquete sobre a economia dos países rebeldes? Para forçar o povo a odiar seu governo, pela mesma razão que Israel mata civis para fazer o povo palestino odiar o Hamas. É simples quando se abre os olhos…

Por fim: a Venezuela foi um dos países com maior crescimento econômico em 2022 na América Latina e registrou uma das principais expansões do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços) também em 2023, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). E no primeiro semestre de 2024 a Venezuela já cresceu 7% (!!!!!)

A esquerda precisa acordar para estas narrativas conhecidas e gastas que não passam de pura propaganda imperialista, armadilhas da imprensa corrupta do Brasil e de fora daqui que tem o claro objetivo de manter a América Latina sob as botas dos imperialistas do norte.

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Leite derramado

Não que isso seja uma desculpa, mas um dos principais problemas do Estado é a própria estrutura da democracia liberal; na nossa cultura as pessoas pensam a qualidade dos governos na perspectiva dos seus próprios interesses. É muito comum a gente ver um caminhoneiro, dono de bar, médico, professor, empresário ou funcionário público se dizendo arrependido de ter votado no governador, prefeito ou presidente porque não resolveu os problemas da sua categoria. “Não recebemos aumento desde que fulano foi eleito!! Nunca mais voto nele!!” É o famoso voto egoísta. Assim sendo, mesmo quando o governante é um crápula, canalha, ladrão e incompetente, se contemplou seu segmento profissional, seu bairro, sua identidade, sua cidade, colocou calçamento na sua rua ou deu um cargo em confiança para o seu sobrinho ele automaticamente se torna maravilhoso. Essa é apenas uma das razões pelas quais fazemos este tipo de escolha nas eleições, que se mostram um desastre para o povo. Agora estamos a chorar sobre o leite derramado.

Além disso, quem define o que é um bom governante? Aqui no Brasil sempre se consideram as “obras”, e estas precisam ser visuais, que atinjam os sentidos, que impactem a todos por sua grandiosidade. Um viaduto (prefeitos tem tesão em viadutos), um novo hospital de transplantes ultramoderno (que vai beneficiar médicos especialistas e não mais que 100 pacientes por ano), avenidas, pavimentação, aeroporto, etc. Mas qual governante faria uma rede de esgotos? Quem faria uma reformulação da rede elétrica? Quem pagaria um salário decente aos professores? Quem se arriscaria a fazer transformações profundas na estrutura invisível da sociedade? Quem arriscaria seu mandato fazendo apenas o que precisa ser feito – e não o que dá votos? Como acham que o prefeito ou o governador poderiam fazer propaganda dessas administrações usando como publicidade o conserto das bombas de drenagem estragadas há muitos anos que evitaram algo que – por causa disso – não aconteceu? Quem votaria num prefeito cujo slogan fosse: “Eu consertei o que estava estragado, mas não foi usado ainda”?

Sempre conto a história de uma paciente que teve uma síncope cardíaca no corredor do hospital, mas por sorte caiu na frente de dois médicos que passavam por ali: um cardiologista e um obstetra. Por esta situação fortuita foi possível realizar uma cardioversão (choque) imediata, e assim teve a vida salva. Quando recebeu alta da UTI escreveu uma carta (que foi lida no auditório do hospital) elogiando o trabalho do médico que a salvou. Quando fomos ver seu prontuário notamos que ela estava há vários anos sem consultar para sua condição cardíaca – uma arritmia. Isso nos deixou uma lição: elogiamos os médicos que consertam heroicamente as falhas do sistema, mas nunca damos o devido crédito àqueles profissionais cuidadosos que não permitem que seus pacientes fiquem tantos anos sem assistência; nunca elogiamos os médicos que silenciosamente evitam os desastres. Esses são invisíveis, tanto quanto o são os canos de esgoto, as bombas de drenagem, os diques para represar o rio, a rede elétrica e a rede de água potável que existem nas cidades e ninguém vê.

Para haver um sistema mais democrático precisamos ultrapassar a democracia liberal e a política sazonal, aquela que só ocorre cada 4 anos. Precisamos nos livrar dos políticos populistas e do sistema que se ocupa tão somente na maquiagem superficial das cidades. Mas, por mais que seja duro admitir, precisamos de novos eleitores, novos cidadãos, personagens ativos na transformação da sociedade em que vivem, agentes mais participativos no dia a dia das cidades, dos Estados e do país. Gente que possa enxergar o valor da melhoria coletiva, e não apenas daquelas mudanças que lhe interessam ou afetam. Com o modelo atual será sempre mais difícil.

Sim, agora vamos consertar as bombas de de drenagem estragadas em Porto Alegre. Precisou aparecer a “pedra de tropeço”, a tragédia, o desastre ambiental, e agora choramos sobre o leite derramado. Até quando nossa visão política vai ser apenas para os próximos 4 anos, quando sabemos que na China os planos são para 50 anos?

Pensem nisso.

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Proposta demagógica

Mais uma vez: retirar recusos do fundo partidário é uma posição reacionária. Descapitalizar as eleições trata a escolha popular como algo menor, como se financiar a democracia fosse algo desprezível e de menor importância. Continuo absolutamente contrário a esta proposta, pelas razões que já expus. Essa proposição fortalece os partidos da direita, os conservadores e obolsonarismo. Equivaleria a usar o dinheiro dos sindicatos para debelar a crise, causando um enfraquecimento das instituições de proteção ao trabalhador. Não faz sentido algum abrir mão de avanços da democracia – como é o fundo partidário – através de propostas populistas para enfrentar a crise. O fundo partidário oferece paridade de armas aos partidos!!! Não se justifica enfraquecer a democracia em nome de uma crise; existem muitas outras formas de capitalizar o governo sem prejudicar as eleições e os partidos de esquerda. Esses fundos foram criados pra dar mais transparência e equidade para as eleições.

Quem sabe tiramos recursos da compra de armas de Israel ou deixamos de financiar a policia assassina? Quem sabe finalmente taxamos os bilionários? Não, a proposta é fazer valer o poder econômico da direita e da burguesia, através do estímulo ao financiamento próprio das campanhas. Quem seria eleito sem dinheiro público? Ora… os empresários, os políticos já eleitos, os milionários, s elite financeira, etc, e não o trabalhador simples, o pedreiro que mora na Lomba do Pinheiro e quer representar sua comunidade ou o funcionario público que deseja uma valorização para o servidor do Estado. Se essa proposta vier a vingar, apenas os ricos terão dinheiro suficiente para financiar suas campanhas; os pobres não terão condições sequer para entregar um santinho. “Proponho a gente cancelar o 13º salário de todos. Não seria uma coisa fixa, apenas um direcionamento pra essa causa, para essa necessidade. Como uma atitude dessas poderia enfraquecer a democracia? Por favor eu queria mesmo entender“.

Ora, estou sendo irônico; não é da população pobre ou da democracia que devemos tirar recursos!!! Essa proposta enfraquece a política, mas só através da política poderemos resolver a crise, até porque foi ela mesma – e as nossas péssimas escolhas – quem criou todos os males que agora enfrentamos. 

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Pesquisas

“Não acredite nas pesquisas, elas foram compradas pela esquerda”,
diz o militante bolsonarista…

Bem, para acreditar nisso é preciso questionar: na última eleição o Bolsonaro comprou as pesquisas? Como funciona? Afinal, as pesquisas mostraram de maneira muito clara que Bolsonaro crescia de forma vertiginosa no final da campanha eleitoral e todas as empresas foram unânimes em apontar a vitória do candidato da extrema-direita. Outra dúvida: as esquerdas – professores, operários, trabalhadores, proletários, estudantes, os pobres, os negros, os gays – compram pesquisas de intenção de voto, mas a direita – os magnatas, a elite financeira, os empresários, os militares, a pequena burguesia e os patrões – não compram? Por quê? A direita é honesta e a esquerda vigarista? Por que deveríamos acreditar nessa divisão moral da sociedade? Onde se pode comprovar isso? Expliquem por que os pobres comprariam as pesquisas eleitorais (quem paga?) e os ricos (como o velho vigarista da Havan) não fariam isso?

Essa divisão moral da sociedade não faz sentido algum, mas todo o ideário fascista é centrado nessa ideia. Basta ver como foram as propagandas nazistas, o fascismo italiano e todas as frentes de direita que, na ausência de argumentos econômicos e sociais, apelam para valores da “família”, da “religião” e de um patriotismo canhestro e falacioso. Veja como os defensores de Bolsonaro jamais questionam os projetos, planos e realizações dos governos de esquerda, muito menos os comparam com o que foi feito na onda neoliberal de Temer-Bolsonaro. Não, sempre partem para os ataques morais, chamando os petistas (e a esquerda em geral) de vigaristas, ladrões, guerrilheiros e “presidiários”. Entretanto, jamais se vê uma crítica aos projetos de governo, nunca algo técnico ou sobre as ideias, sempre elementos subjetivos sobre a honestidade ou a “espiritualidade” dos políticos da esquerda.

O estranho é que isso agride até a própria realidade. Quem esteve a vida inteira envolvido com crimes, milícias, rachadinhas, funcionários fantasmas, apartamentos para “comer gente“, desejo de “matar uns 30 mil“, negros pesados em “arrobas“, sendo a “favor da tortura“, ameaçando golpe militar a todo momento, vizinho de “milicianos envolvidos na morte de Marielle e Anderson” sempre foram Bolsonaro e seus filhos.

Eu espero que a partir do ano que se aproxima possamos virar a página do fascismo, do negacionismo, do estímulo à violência, do golpismo e do ódio incontido. Precisamos reconstruir um pais que foi destruído pelos golpes em sucessão, e esta será uma tarefa de todos nós.

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Cirão da Massa

Uma análise curiosa que a minha filha Bebel fez: em 2018 os ciristas diziam que Haddad deveria desistir da eleição para que Ciro – com 12% de intenção de votos – pudesse vencer Bolsonaro no segundo turno com a tese de que Ciro “tinha menor rejeição”. Todavia, agora os mesmos apoiadores do Cirão da Massa acham absurdo que ele – com 6% da intenção de votos – desista da eleição para garantir Lula já em 2 de outubro, poupando o país de uma guerra suja pelos votos em segundo turno. Quem votar em Ciro no primeiro turno estará em frente ao dilema “Lula x Bolsonaro”. Por mais que eu critique os ciristas duvido que seu ódio irracional ao Lula seja tanto que os fará aceitar o voto num degenerado como Bolsonaro. Posso garantir que 70% votarão em Lula, menos por ele e mais pela rejeição ao Bolsonaro. Aliás, é o que dizem as pesquisas de segundo turno…

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Voto impresso

“Vamos discutir agora a questão seríssima do voto impre… digo auditável, para que as eleições de 2022 sejam limpas”

Cara, de uma vez por todas…. NÃO VAI TER VOTO IMPRESSO e por várias razões – entre elas a recusa do congresso. Todavia, a mais importante é que, mesmo que fosse algo necessário para a lisura das eleições, NÃO HAVERIA TEMPO para criar um modelo novo em tão pouco tempo. Não se muda a tecnologia usada há 25 anos – com pleno sucesso – em um ano e meio. Além disso, a mentira do Bolsonaro é de que os votos não são auditáveis – e são!!! Aécio Neves pediu auditoria em 2014 e ela foi feita. Sem falhas.

Pergunto: se houvesse fraude eleitoral por que Bolsonaro teria sido eleito? Por que Dilma foi reeleita? Por que Aécio perdeu, se ele era o candidato da gente do dinheiro e do “mercado”? Nada disso faz sentido.

Aliás, só uma coisa parece ser certa: Bolsonaro está pavimentado o caminho para dizer que perdeu as eleições por fraude, EXATAMENTE o mesmo roteiro que Trump, o outro bufão da extrema direita supremacista branca, tentou ativar nos Estados Unidos.

A derrota de Bolsonaro cada dia fica mais certa, e por isso mesmo ele cria o factoide de que existe fraude ou de que ela pode ser facilmente realizada. Quer convulsionar o país. Quer criar a ideia de que é “popular”, tem a preferência do povo e que – palavras suas – “não aceita nenhum resultado que não seja a sua reeleição”.

A quem serve essa patifaria? A quem serve exigir algo que não é possível realizar? A quem serve jogar o povo contra a justiça? A quem serve jogar o povo – SEM PROVA ALGUMA – contra o sistema eleitoral?

Bolsonaro tentará um autogolpe se nada mais funcionar e, como bom psicopata, não se importa com quantas mortes terá que lidar. Aviso apenas que Bolsonaro já tem 75% de pessoas contrárias à sua sanha autoritária e se ele resolver destruir a democracia neste pais o povo inevitavelmente sairá para as ruas

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Americanos

A ideia que os americanos produzem de si próprios é uma das coisas mais curiosas da atualidade. Ainda influenciados pelo cinema, que os coloca como “salvadores do ocidente” pela (falsa) ideia de que venceram a segunda guerra mundial – essa guerra foi vencida pelos russos – cultivam a imagem de benevolentes e caridosos, povo especial que espalha a liberdade e a democracia pelo mundo afora.

Se é verdade que o liberalismo americano representa um avanço sobre sistemas fechados e tiranias, também é real que os americanos não tem uma democracia tão sólida quanto parece e muito menos são eles uma fonte de democracia a se espalhar pelo mundo. Os milhões de mortos, as dezenas de países invadidos, destroçados, aniquilados no mundo inteiro – em breve a Venezuela – em busca de poder, dominação e riquezas naturais só são menores que sua gigantesca máquina de propaganda que convence as mentes incautas de que eles são, acima de tudo, democratas e libertários.

Engano. Suas ações são apenas as manifestações do Império decadente se espalhando por todos os continentes para que se possa manter um padrão de vida irreal e destrutivo, o “American Way if Life” que é tão arraigado no nosso imaginário pela publicidade.

O mais engraçado é o espanto do cidadão médio americano quando se fala da possível (provável?) influência russa na eleição de Trump. Ora, tolinhos… os Estados Unidos influenciam eleições e governos do mundo inteiro, de forma velada ou explícita, para controlar os países que consideram como seus asseclas, empregados da Casa Grande americana, para os quais nos mandam em troca espelhinhos, colares e IPhones. Agora se escandalizam quando o que SEMPRE fizeram aos outros pode ter ocorrido em sua própria casa.

Aqui no Brasil esse entreguismo nunca foi tão explícito como agora. Nosso governo sequer tem pudores de prestar continência à bandeira americana e oferecer nosso próprio território para exploração e incursões de exércitos estrangeiros.

É preciso entender que sem autonomia e soberania seremos miseráveis subalternos, e para nossos dominadores jamais teremos importância ou significado. Pode apostar que os americanos podem não gostar de Fidel, Chávez, Maduro ou Kim, mas devotam a estes líderes um respeito e uma reverência que jamais terão com o fascista e sua família de gangsters que guardam, para eles, as riquezas do seu quintal.

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