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Cirurgias mutilatórias

Aqui no Brasil a episiotomia ainda é feita com frequência. A sociedade de ginecologia e obstetrícia nunca teve uma posição firme contra essa cirurgia até porque, historicamente falando, ela é a intervenção que inaugura a divisão entre a prática dos médicos e das parteiras. É o divisor de águas, surgida de um trabalho mal feito e mal avaliado por De Lee, no início do século passado. Tem a fama de ser a única cirurgia do Ocidente a ser realizada sem o consentimento das pacientes. É responsável pela maior parte do desconforto físico pós-parto e pode causar dores na atividade sexual mesmo vários meses após ter sido realizada.

É também vista como a cirurgia que é feita no corpo de uma pessoa para produzir efeitos no corpo de outra. Por isso mesmo, por estar no limiar entre esses dois mundos, esta intervenção cirúrgica é cercada de mitos, e permanece avessa às evidências científicas a pelo menos 3 décadas. É o procedimento mais emblemático da luta das mulheres pela autonomia corporal. Sua execução, entretanto, resiste às evidências porque simboliza a supremacia da tecnologia – representada pelo bisturi – sobre a natureza implicada no nascimento fisiológico. Episiotomia é a grande cirurgia ritualística e mutilatória da Medicina ocidental.

A derrocada da episiotomia e da posição de litotomia (a posição mais usada para parir, deitada de costas na mesa obstétrica) ocorrerá ao mesmo tempo de uma mudança paradigmática profunda, com o retorno das parteiras ao centro da atenção ao parto e com a máxima valorização da fisiologia do parto sobre as intervenções, que ocorrerão apenas em situações limite, e não como o padrão do cuidado.

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Avanços

clitoridectomia

Sobre a abolição das mutilações sexuais femininas – clitoridectomia e episiotomia – temos uma excelente notícia vinda da Nigéria. O presidente Goodlook Jonathan assina – depois de mais de uma década de pressão – uma lei que torna crime a realização da mutilação sexual através da clitoridectomia. Eu acredito que este tipo de ação pode impulsionar o questionamento sobre outras mutilações praticadas contra mulheres e homens. A episiotomia rotineira (sem indicação clara) precisa sofrer o mesmo tipo de crítica, da mesma forma que a circuncisão, cirurgia ritualística e mutilatória aplicada sobre meninos e homens em várias partes do mundo.

Acabar com a mutilação de mulheres é muito mais importante do que reconhecer o casamento gay, apesar da grande importância de reconhecer as relações entre pessoas de mesmo sexo. Todavia, as mulheres – e os grupos que as apoiam – tem muito menos força política do que os grupos pró-homossexuais. De qualquer modo são duas notícias alvissareiras.

O corpo humano é sagrado, e sua integridade precisa ser protegida por todos os que prezam a saúde física e psicológica, em especial das crianças.

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