Arquivo da tag: cirurgias ritualísticas

Parto e Animalidade

Sobre o texto que andou rolando pela Internet a respeito de “partos animalizados”…

Primeiramente o nome já demonstra o preconceito tolo e infantil com a nossa condição animal. Talvez para o autor suas cesarianas sejam “partos angelicais”, feitas em uma espécie que transcendeu sua essência biológica e que não necessita mais passar pela “brutalidade” de contrações e dilatações. Acho apenas que tal ideia entraria em discordância com uma dupla de pesquisadores chamados Darwin e Wallace no que diz respeito à nossa hereditariedade animal. Aqui, no próprio título, faltou estudo e deixou-se de oferecer uma visão mais ampla do nascimento, além de desmerecer a importância de respeitar a nossa fisiologia, sim, “animal”.

Quanto ao texto eu consegui ler até a metade… parei quando li a defesa da episiotomia. Eu acho que existem muitos argumentos razoáveis para combater a humanização do nascimento, principalmente em relação ao ativismo. Não somos anjos e muito menos infensos a falhas e equívocos. Entretanto este texto tem erros lógicos muito grosseiros, por demais primários, que demonstram um desleixo importante com o estudo da matéria.

Este é mais um artigo escrito com 15 anos de atraso. Essa era a retórica de quando começamos a debater humanização do nascimento nos congressos do final do século XX. Falávamos do termo “humanização” e da sua conexão com o movimento chamado “humanismo”, que se inicia a partir do século XIV, que coloca o “homem no centro de todas as decisões“, além de reconhecer os valores greco-romanos de beleza e “perfeição” humanas, em oposição ao pessimismo das teocracias. Entretanto, o autor se mantém fixado na taxonomia, com mais de uma década e meia de atraso, ao acreditar que “humanização” é uma “obviedade” porque se refere ao gênero “humano”. Este é um erro que não se justifica mais. Talvez ele precise avisar o “HumanizaSus” para trocar de nome também.

As críticas à humanização existentes no artigo são primárias demais para receberem respostas. Como eu já disse, existem críticas pertinentes e debates em aberto, mas não cabe mais questionar o nome do movimento ou fazer apologia a cirurgias ritualísticas e mutilatórias como as episiotomias. Isso já foi deixado de lado, já viramos esta página, e os articulistas precisam estudar antes de se manifestarem. É preciso conhecer o assunto antes de produzir uma opinião, caso contrário teremos apenas leviandades e irresponsabilidades.

Tudo o que vejo é um franco atirador disparando de uma sacada com balas de festim. Não acerta nada, não fere os princípios norteadores de nossa causa, mas fica fazendo barulho. Os desavisados, ao escutarem os estopins, pensam se tratar de uma batalha. Todavia, com o tempo perceberão que para enfrentar um movimento baseado em provas e ciência precisarão ter muito mais “balas na agulha”.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Cirurgias Ritualísticas

Map Clit

Consideramos classicamente as cirurgias mutilatórias e ritualísticas da medicina ocidental (em contraposição à clitoridectomia, oriental) as seguintes intervenções: Postectomia (circuncisão), Tonsilectomia (retirada das amídalas) e Episiotomia (corte perineal no parto). É digno de nota que as três intervenções ocidentais citadas alcançaram um apogeu e estão em franco declínio, pela falta de evidências científicas para o seu uso e pela pressão popular pela sua diminuição. O mesmo se aplica à clitoridectomia, proibida no ocidente e com severas críticas de países ocidentais quanto à sua prática em alguns países islâmicos, em especial a Nigéria.

Entretanto, para além das cirurgias acima descritas, já é possível incluir a cesariana como uma cirurgia mutilatória e ritualística, largamente alastrada no ocidente, já que tem a mesma base irracional das anteriores para a sua abrangência.

Isto é: mesmo reconhecendo a importância dessas cirurgias em casos específicos (não é necessário enumerar a importância das cesarianas para salvar a vida de mães e bebês em situações especiais), sua abrangência fala muito mais de uma relação ritualística do que de um uso operacional (em nome de uma real necessidade clínica).

Segundo Robbie Davis-Floyd, um “Ritual” pode ser definido como um procedimento padronizado, repetitivo e simbólico carregado de sentido cultural, e cuja leitura (exegese) de seus pressupostos pode nos levar ao código profundo de valores que sustenta uma específica sociedade. A existência de cesarianas em profusão nos permite analisar que tipo de valor está na base da cultura onde elas se inserem. No caso das sociedades ocidentais os valores que se mostram evidentes são o patriarcado e o capitalismo, aliados a uma ideia contemporânea de praticidade (tempo) e conjugada com a mitologia da transcendência tecnológica (que nos diz que todo procedimento tecnológico é melhor que sua variante natural).

Portanto, faz todo o sentido analisar as cesarianas sob este prisma. Os exemplos citados de pressões culturais sobre a mulher (espartilhos, pés esmagados, dietas, culto à beleza, etc.) estão absolutamente adequados para sustentar esta análise, por também serem regidos pelos mesmos elementos sociais inconscientes. O mesmo tipo de constrangimento social se aplica às cesarianas e, como nos exemplos anteriores, fica claro que o exagero desta cirurgia beneficia muito mais as corporações e instituições do que as mulheres e seus filhos. As evidências que confirmam esta afirmação estão aí para quem se puser a investigar.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Violência