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Medo ancestral

“O que transforma o parto em um evento cercado de medo e pânico é a “cultura do medo” que empodera instituições e corporações às custas do empobrecimento da experiência materna e da submissão à tecnocracia – a criação humana que mais se assemelha a uma religião planetária.”

Os médicos morrem de medo do parto.

A formação médica em obstetrícia é centrada na intervenção, até porque foi o uso das ferramentas (a começar pelo fórceps e depois pelo escalpelo na episiotomia) que separou a parteria da medicina. Quanto mais intervém, mais importante parece o trabalho do médico. A própria obstetrícia é – pelas suas origens – a negação da autonomia feminina na parturição. A medicina, ao intrometer-se no nascimento, produz um corte epistemológico profundo no próprio entendimento do nascimento. A partir de então a intervenção seria a regra, e as mulheres entendidas como inerentemente incapazes de dar conta de um evento inscrito em sua biologia. Defectivas, incapazes, incompletas – assim entendidas e assim vistas por si mesmas, as mulheres entregam-se docilmente à tecnocracia que poderá resgatá-las do destino cruel produzido por uma natureza madrasta.

Médicos são educados dentro dessa perspectiva. Julgam-se salvadores por resgatarem as mulheres das agruras do parto, um evento mal planejado e defeituoso em essência. “A natureza é uma péssima parteira”, já falava o patrono da obstetrícia brasileira, Fernando de Magalhães.

Como poderia ser diferente para um médico de pouca experiência onde a ênfase recebida da escola médica não é a normalidade do parto, mas suas franjas, as patologias, os casos raros, os desastres, e as circunstâncias em que podem se tornar heróis? Ao lado deste senso de importância desmedida existe o medo criado por uma visão catastrofista do parto. Mal percebem que a maior parte das catástrofes do parto ocorre pela própria intervenção intempestiva e injustificada no processo de nascimento, desde a patologia da palavra – a verbose – usada durante todo o pré-natal (onde a semente do medo é plantada) até as internações precoces, as drogas, o isolamento, a doentificação, a patologização etc…

Médicos encaram o parto com pavor, pois sabem – como dizia Holly Richards – que ele contempla os elementos mais temidos da cultura: vida, morte e sexualidade. Não por outra razão o atendimento hospitalar ao parto é totalmente ritualizado, sem nenhuma conexão com evidências, mas que usa da padronização, da repetição e do simbolismo para criar uma atmosfera de proteção mística, onde a ação do médico poderia gerar – mesmo que de forma fantasiosa – resultados positivos em um processo cujo resultado é sempre imprevisível.

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Ritos

Existe um tema que ainda não foi suficientemente debatido nestes tempos de isolamento social. Talvez seja mesmo natural que se deixe para mais tarde, diante do terror que nos impacta pelas mortes que nos cercam. Mas a precisaremos falar da supressão dos rituais.

Minha mãe faleceu em fevereiro, poucas semanas antes do surgimento da pandemia. Por causa disso ainda foi possível passar pelos rituais de despedida. O último adeus, o velório, o encontro com parentes e amigos, o discurso do meu pai, as lágrimas. Um ciclo que se fechou com os rituais que nos protegem e auxiliam na construção do luto.

Hoje em dia não há mais despedidas. Não há também a celebração daqueles que nascem. Não comemoramos em conjunto a passagem de um giro solar, não cantamos parabéns, não compramos lembranças e não celebramos nossos rituais de passagem da forma como sempre o fizemos em milênios.

Resta a pergunta: que tipo de sociedade sobrará quando nenhuma passagem puder ser marcada em ritos que exaltam seus valores mais profundos? Como ficam os sobreviventes que não conseguem passar pela dor transformativa de enterrar seus mortos? E as famílias que, apartadas do evento do parto, revivem – sem saber – o mito da cegonha?

Estas são questões que a vida pós pandemia deverá responder.

Entretanto, sou cético quanto a esta simplificação da vida. Abolir os rituais seria o mesmo que pular a corte, a espiral concêntrica dos encontros sexuais. Abolir, suprimir ou cortar os “pick up lines” o “você vem sempre aqui?” ou mesmo o simples “conheço você de algum lugar?” é absolutamente inimaginável para nossa espécie, mas mesmo para a imensa maioria das que conhecemos – de cães, insetos e passarinhos. Seria realmente possível partir diretamente para os atos sem passar pela torturante ritualística dos encontros?

Não. Os rituais são tão intrinsecamente imbricados na ação humana que seria impossível imaginar a vida humana sem estes artifícios.

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Rituais mutilatórios

E quanto aos rituais…. eu sou DEFENSOR árduo dos rituais. Eles são fundamentais para a cultura. Natal, Páscoa, Pesach, ano novo (cristão, chinês, hebreu), bodas, aniversários, funerais, etc. A questão é que todos os rituais desnudam os valores culturais. Estudei por 30 anos os rituais de parto para me convencer que eles apontam para os valores do patriarcado e que se assentam sobre o mito da defectividade essencial da mulher. Esta é a questão central: os rituais nos mostram quem somos!! Fazem isso porque operam na sombra do inconsciente e não sob a luz da razão!

Por isso eles são poderosos e reveladores. Sob a luminosidade da razão eles murcham, secam e ….. se transmutam. Os rituais não são estanques e imóveis; eles caminham dois passos atrás do nosso conhecimento e dos valores sociais, e nos seguem de perto. Quando a razão impõe um novo entendimento da realidade, os rituais se modificam para se adaptar à novidade. Os rituais são eternos, mas não imóveis. Sua metamorfose adaptativa é o que lhes confere a imortalidade.

Acabar com as mutilações genitais tem o mesmo sentido de terminar com os sacrifícios sobre animais que fazíamos em um passado não muito distante. Pareciam ter sentido, mas aos poucos – calcinados pela luz da razão – foram desaparecendo. O mesmo precisa ocorrer com os rituais humilhantes ou violentos – como as mutilações.

Se as mutilações tinham alguma vantagem higiênica e identificatória há milhares de anos estas funções desapareceram. Ninguém pode admitir que sua proximidade com Deus se deve por ter a vulva deformada ou o prepúcio amputado. A ciência inclusive nos mostra o quanto perdemos de sensibilidade e prazer com estas perdas e cortes. A abolição destas mutilações em crianças é um marco civilizatório essencial.

Estabeleça-se que nenhuma criança pode ter seu corpo violado por práticas ritualísticas e mutilatórias e que qualquer adesão a estes grupos religiosos através dessas práticas só possa ocorra após a maioridade. Essa mudança nas práticas permitiria que as marcas, quaisquer que sejam, ocorram sob o controle de um sujeito livre para tomar decisões perenes sobre o seu próprio corpo.

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Trotes

Quando nós questionamos as razões para a existência de lugares sombrios como o “dignidade médica” que tanto produziu de discurso de ódio, racismo e intolerância é importante entender que tipo de maquinário produz os médicos deste país e qual a matéria prima do qual são feitos. O “trote” universitário talvez seja apenas o plano visível de uma estrutura gigantesca cuja finalidade é manter e disseminar os valores mais conservadores de uma sociedade.

Como um gigantesco e penoso “moedor de carne” – no dizer do meu colega Max – a universidade destrói os alicerces que sustentavam o(a) menino(a) que emerge perdido(a) e temeroso(a) nos caminhos tortuosos do campus. Infelizmente, para uma enorme parcela dos estudantes, a rebeldia juvenil dá lugar a um conformismo e a uma postura altiva e pedante, apenas alguns anos passados do ingresso na escola médica. O que era inquietude vira certeza, o que um dia foi cooperação vira disputa e os sentimentos mais nobres que nos impulsionaram um dia a instrumentalizar a fraternidade se transformam em exercício de poder e preconceito de classe.

O trote serve como ritual de passagem para o convívio na universidade. Como bem nos esclareceu Robbie eles são repetitivos, padronizados e simbólicos e nos levam direto aos códigos valorativos profundos da cultura. Neste caso eles mostram a face mais feia e distorcida de uma sociedade excludente, racista, homofóbica, preconceituosa e alienada dos valores mais nobres da arte de curar.

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Dearest Robbie

Robbie 01

Rituais de passagem são fundamentais, e o parto é um exemplo da real necessidade de ritualizar as transições pelas quais passamos. Entretanto, no parto contemporâneo ocidental não há uma falta de rituais; pelo contrário, existe uma perversão daqueles que historicamente conduziram o nascimento nos milênios que nos antecederam. Um ritual nos permite enxergar os valores inconscientes da cultura que circulam de forma invisível no “campo simbólico”, e no parto não poderia ser diferente. Os rituais que usamos revelam a estrutura valorativa que sustenta nossa ação social. Se no passado serviam para fortalecer as funções primordialmente femininas de gestar e parir, hoje sustentam o modelo tecnocrático, empoderando instituições e profissionais às custas da subtração da mulher como condutora do processo.

Assim, não nos faltam “rituais” no parto. Eles existem em abundância, bastando para isso observar os movimentos que o constituem. As malas, as roupas, as consultas de pré-natal, a ida ao hospital, o corte dos pelos, as “lavagens”, o afastamento imediato, as intervenções e tantos outros eventos se estruturam pela repetição, padronização e simbolismo, os quais caracterizam e definem todos os rituais humanos.

A diferença nos rituais que hoje observamos na assistência ao nascimento é que eles afastam as mulheres do controle, enquanto exaltam as tecnologias e quem as controla. Mudar a forma de nascer implica em transformar estes rituais, adaptando-os a um novo paradigma, passando de um modelo que aliena e exclui as mulheres para outro que as inclui e, mais ainda, as coloca no comando do processo.

A grande deflagradora deste processo de resgate da ritualística no parto foi Robbie Elizabeth Davis-Floyd. Robbie é uma das maiores personalidades do feminismo no mundo contemporâneo. Seu livro “Birth as an American Rite of Passage” é um marco na antropologia do parto e nascimento, ramo da ciência que estuda os recortes transcultural da assistência ao parto. Se primeiro livro, baseado em sua tese de doutorado na Universidade do Texas, vendeu mais de 40 mil cópias, e isso é algo digno de nota. Ela recebeu algumas homenagens e honrarias que apenas feministas americanas realmente importantes receberam. Participou de várias edições de “Our bodies, ourselves”, e escreveu livros que transformaram a trajetória de parteiros no mundo inteiro. Robbie descortinou o imaginário do nascimento, sua profundidade simbólica e a relação dos rituais com as práticas da atenção ao parto ocidental contemporâneo. Muitos médicos, entre os quais me incluo, mudaram a forma de ver sua ação no parto a partir da perspectiva que ela inaugurou com relação aos rituais aplicados ao nascimento.

Este texto é a consequência direta de assistir – inadvertidamente – um colega atendendo um parto através da velha ritualística de atenção dos anos 50: paciente deitada de costas, pernas erguidas, obstetra mascarado, episiotomia, gritos, Kristeller, luzes ofuscantes e uma crença óbvia – apesar de inconsciente – na defectividade feminina para dar conta dos desafios do parto. Somente depois de conhecer o trabalho de Robbie o enigma da diferença – muitas vezes abissal – entre o que se sabe e o que se faz na prática pôde finalmente ser compreendido.

Os rituais foram desvelados por Robbie, e assim despidos, puderam ser por nós analisados naquilo que trazem de mais verdadeiro.

Por abrir estas “portas de percepção” teremos com Robbie uma dívida impagável.

Que Deus a abençoe…

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