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Domínios

Mais de uma vez escrevi sobre a questão dos “domínios” nos âmbitos familiares, que sempre me pareceram tão importante quanto o desejo real de participação. Mas num universo onde os homens são sempre culpados, como questionar este ponto importante? O caminho mais fácil é sempre o maniqueísmo…

A perspectiva contemporânea que aborda de forma mais equilibrada os espaços de conflito nas tarefas do lar é um sopro de frescor na aridez dos embates acusatórios. Ainda hoje reconheço como padrão a prática de acusar os homens de não participarem das tarefas domésticas e da educação dos filhos. Apesar de ser uma queixa verdadeira, ela deixa de apresentar outras facetas da realidade que são, via de regra, negligenciadas.

Uma das questões pouco abordadas é o que chamo de “domínios”. Eles se referem aos espaços de controle e saber reconhecidos, confinados a um gênero. É esse tipo de controle que faz muitos homens levantarem para ver um barulho estranho na porta dos fundos, abrirem o capô do carro para ver o defeito ou pegarem a chave do carro quando a família vai sair. O mesmo que faz as mulheres decidirem de forma autocrática a comida, as roupas e o tipo de educação dos filhos. São domínios culturalmente construídos dentro do patriarcado, mas que apenas enxergamos quando somos vítimas, não quando estamis na posição de opressores.

Muitos homens – e mulheres – se adaptam a essas construções milenares – por comodismo ou cansaço – mas muitos começam a questionar tais posições. Por que não posso (homem) arrumar – ou escolher – a roupa do meu filho? Por que não posso (mulher) dirigir o carro quando a família sai? Por que não posso (homem) decidir a comida que todos vamos comer? Por que não posso (mulher) trocar o pneu do carro ou fazer tarefas mais pesadas da casa?

Para haver equilíbrio é necessário que todos aceitem as mudanças e concordem com as inevitáveis concessões. Homens precisam ter o direito de participar dessas decisões sem o martírio das críticas e sem o peso do escárnio de suas companheiras que se sentem invadidas em seus domínios. As mulheres também precisam ter o direito de “invadir” as funções historicamente assumidas por homens sem sofrer com o deboche e o desprezo que estes oferecem como resposta ao que sentem como a tomada de um lugar cativo que lhes era destinado.

Os domínios antigos estão paulatinamente ruindo. Creio que o desmanche os limites pode ser celebrado como uma nova era de colaboração. Todavia, para que isso ocorra é preciso que a desconstrução de modelos ancestrais seja um exercício constante para os homens e também para as mulheres.

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Responsabilidade e Autonomia

“O problema da responsabilidade da mulher sobre a gestação é bastante complexo e sobre isso há um ponto nevrálgico de caráter ético e filosófico sobre o qual ainda não há solução definitiva: “Afinal, a quem pertence esse feto e, depois, esta criança?”

Há que se lembrar que o surgimento da paternidade reconhecida é recente na historia da humanidade. Até então o sexo era prazer e domínio e passou a ser preservação genética; de uma paternidade social a um vínculo mais pessoal. Entretanto, por razões óbvias, a maternidade sempre foi visceral e reconhecida socialmente. A guarda dessa criança sempre foi responsabilidade da mulher que a pariu. Somente as mudanças estruturais da sociedade advindas da monogamia e do amor romântico puderam determinar uma nova configuração da paternidade. De algo difuso ou quase inexistente a um vinculo social reconhecido e valorizado.

Hoje ainda vemos a mulher muito mais conectada com sua gestação e filhos do que os homens. Não imagino como poderia ser diferente, já que é sobre seu corpo que o processo ocorre. Entretanto, existe um limite invisível que separa os dois polos, que se move ao sopro dos valores sociais vigentes: de um lado a responsabilidade de outras instâncias, como o pai e a sociedade; do outro a liberdade e a autonomia da mulher sobre seu corpo e seu destino.

Quando se reconhece a mulher protagonista e autônoma o aborto legalizado passa a ser mais facilmente entendido. “Seu corpo, suas regras”, dizemos. Também seus cuidados e escolhas na gestação e no parto passam a ser mais valorizados e respeitados. Dieta, estilo de vida, cuidadores, local de parto, amamentação, etc. Tudo depende da mulher, sendo o homem um mero espectador do evento, restringindo-se a lhe dar suporte material e moral.

Por outro lado pode haver um envolvimento muito grande dos parceiros(as) na gestação e parto, mas com isso é natural que também os direitos sobre o bebê sofram uma espécie de partilha. Se antes dependiam apenas das escolhas da mãe, agora o parceiro também se sentirá no direito de opinar e decidir. Portanto, não deveria ser absurdo que ele opinassem sobre local de parto, amamentação, vacinas, parteiros mas também pela própria continuidade ou não da gravidez. Afinal, se ele é responsável (moral e financeiramente) deveria também poder exercer seu poder de decisão sobre algo que também é, reconhecidamente, seu.

As linhas divisórias entre as a suprema autonomia feminina e a “intromissão social” variam no tempo e nas latitudes, mas hoje vemos uma tendência crescente para proteger a mulher e suas escolhas. Entretanto, para que se exija responsabilidades dos parceiros(as) também é fundamental que lhes seja garantido um nível razoável (porem variável) de poder de decisão.

Nenhum parceiro é capaz de oferecer ajuda sem que haja a contrapartida do reconhecimento.”

Manuel de Aquino Queiroz, “Poder e Limites do Corpo – uma arqueologia da gravidez”, Ed. Cascais, pág 135.

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