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O que querem as mulheres?

Em um trabalho de 2002 a enfermeira e pesquisadora Ellen Hodnett reuniu 137 relatórios (estudos descritivos, ensaios randomizados e revisões de intervenções no parto) sobre os fatores que influenciam as avaliações de mulheres sobre suas experiências de parto. Quatro foram os fatores essenciais:

  1. Expectativas pessoais;
  2. A quantidade do apoio recebido dos profissionais;
  3. A qualidade do relacionamento cuidador/paciente e
  4. O seu envolvimento na tomada de decisões

Estes fatores parecem ser tão importantes e primordiais que sobrepujam as influências de idade, status social, etnia, preparação para o parto, ambiente físico do centro obstétrico, dor, imobilidade, intervenções médicas e continuidade nos cuidados.

Para este estudo os fatores afetivos e psicológicos sobrepujam as questões técnicas da assistência, a preparação de pré-natal, a continuidade no cuidado e inclusive a dor. Surpresos?

A conclusão de Ellen Hodnett é marcante:

“As influências da dor, do alívio da dor e das intervenções médicas intraparto na satisfação subsequente não são tão óbvias, tão diretas e nem tão poderosas quanto as influências das atitudes e comportamentos dos cuidadores”.

Uau!!!

Assim sendo fica mais fácil entender o sucesso do “Dr Frotinha”. Mesmo sendo um cesarista, sem vinculação com a Medicina Baseada em Evidências e com práticas agressivas, violentas, dolorosas e muitas vezes perigosas e ineficazes, sua abordagem afetiva e próxima pode oferecer às gestantes suas necessidades primordiais de afeto, reconhecimento e participação nas decisões. Assim, mesmo oferecendo uma assistência de baixa qualidade e desvinculada da ciência obstétrica, ele é capaz de transmitir uma ideia de cuidado, um clima de atenção e uma percepção de autonomia (mesmo quando ilusórias).

É evidente que não podemos nos colocar diante de um falso dilema. Não há porque contrapor a atenção centrada na pessoa e uma abordagem que estimula a autonomia com as evidências científicas e a prática humanizada. É, em verdade, exatamente o que a Humanização do Nascimento se propõe. É plenamente possível oferecer às mulheres o “melhor de dois mundos”. Não precisamos mais de profissionais “capengas” que ofereçam apenas um aspecto da atenção, relegando o outro lado ao desprezo.

Entretanto, este estudo evidência que, quando olhamos para o parto pela perspectiva das mulheres é importante não esquecer que o parto é um processo sexual e afetivo acima de qualquer outra consideração. Não é o medo da dor ou do excesso de intervenções o que mais as domina, mas o temor pela rudeza nas relações e o medo de não ser ouvida nas decisões sobre seu corpo e seu bebê.

Aceitar essa perspectiva nos ajuda a entender o que se passa na mente de uma mulher que vai parir. Se as ferramentas tecnológicas são capazes de nos garantir a devida segurança diante das patologias é fundamental entender que a maioria delas não tem muito mais de 100 anos de idade, enquanto o cuidado amoroso, empático, doce e próximo oferecido às mulheres têm a exata idade da existência do gênero humano nesse planeta.

Mais do que treinar profissionais de parto para uma atenção cientificamente embasada é também essencial selecionar aqueles que percebem na assistência sensível e amorosa o caminho mais seguro para um parto satisfatório.

PS: O nome disso é “sincronicidade”. Escrevi o texto acima – que fala dos aspectos emocionais e psicológicos como preponderantes na qualidade da avaliação das mulheres sobre o parto – após rever o trabalho da enfermeira Ellen Hodnett sobre o tema. Procurei uma foto sua para ilustrar o texto e lembrei no nosso breve encontro no Chile em 2012. Tinha na memória uma foto que tiramos juntos, mas sabia que jamais a encontraria e acabei colocando uma encontrada na internet.

Naquela data eu fiz a ela apenas uma pergunta: “É possível melhorar este sistema de atenção ao parto centrado no trabalho médico?”, ao que ela me disse apenas “não, este modelo não tem futuro”. Depois ambos falamos de netos; do seu que recém havia nascido em casa (e do vídeo do nascimento dele que tinha o barulho do aspirador de pó do andar de cima) e do meu primeiro, que nasceria alguns meses depois, de cuja existência eu havia sido avisado dois ou três dias antes.

Pois 20 minutos depois de publicar o texto baseado em seu trabalho o Facebook me lembra do aniversário de 6 anos desse encontro. Mais ainda: me mostra a foto que eu jamais encontraria se fosse procurar. Como explicar essa coincidência?

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Mudanças

Parto CASA

Houve um período no debate sobre o parto humanizado em que se acreditava na possibilidade de “educar” médicos através de uma imersão nas “verdades da MBE”. Muitos colegas se deixaram entusiasmar com essa possibilidade e o Ministério da Saúde protagonizou uma espécie de Caravana da Humanização que se propunha a levar a “boa nova” aos médicos, uma espécie de “Evangelho das Boas Práticas” aos gentios.

O resultado foi, como eu previra, nulo. Zero. Não havia NADA nas evidências científicas capaz de seduzir, quanto mais mobilizar, os profissionais. Os novos regramentos não passavam de ficção aos ouvidos pétreos dos chefes de serviço. “Para que mudar e arriscar-se numa aventura humanizante se não há um clamor audível por mudança? Onde estão as marchas, os cartazes e a legião de indignadas? Se querem uma modificação no modelo, mostrem-me o choro e o ranger de dentes. Caso contrário, não me peçam para trabalhar mais em troca de nada“.  Realmente, a simples confrontação com a realidade das pesquisas é inútil como elemento transformador. Fosse isso suficiente bastaria folhear os cadernos do Ministério da Saúde e transformar radicalmente a sua prática. Todavia, sabemos que isso não acontece.

A única forma de mudar a realidade é transformando a “base”. Somente se as MULHERES forem atingidas e transmutadas pelo discurso da humanização é que poderemos descortinar uma nova realidade. Elas serão as únicas condutoras desta revolução. A nós caberá apenas a nobre posição de coadjuvantes.

Quem almeja protagonismo procure ser cantor de Rock ou Sertanejo. Médicos, parteiras e doulas não brilham, e a eles cabe o lugar de refletir a luz que emana das mulheres. O modelo iatrocêntrico (centrado no médico) em que as enfermeiras são “parte da equipe” nunca teve resultados positivos onde foi implantado (vide EUA). Por que haveria de produzir resultados positivos em um país que não dispões dos recursos imensos para consertar os problemas que ele mesmo produz?

Quando tive a oportunidade de tietar Ellen Hodnett em um congresso no Chile há alguns anos minha única pergunta a ela foi: “Você acredita na possibilidade de educar médicos para que sejam mais humanizados e assim mudar o paradigma do nascimento?

Sua resposta foi curta e simples: “Não, esse modelo se mostrou falho. Não há mais nada que ele tenha a oferecer“.

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