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Corpos

Se o “parto realmente faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, então controlar a reprodução – do exercício da sexualidade à maternagem – será uma tarefa primordial do sistema de poderes que nos controla. Não existe sociedade livre com sexualidade encarcerada, e a luta por liberdade passa por romper as amarras da sexualidade que brota de um corpo que se contorce em gozo no momento de parir. Não é sobre o conteúdo; é sobre o continente. Não é sobre estes bebês, mas sobre os corpos que os produzem, carregam e nutrem. É sobre o direito de (não) parir – em paz e com autonomia.

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A angústia necessária

Para que um obstetra procure transformar sua prática é essencial que sua forma de conceber a assistência ao nascimento entre em crise. O choque doloroso entre conceitos precisa ser a tônica do processo. Esta transformação a partir do legado da Escola Médica (tecnocrática e intervencionista) em busca de maneiras mais democráticas de atuação jamais ocorre sem angústia …. e dor. Despir-se dos valores duramente adquiridos no período de formação só pode ocorrer através de sacrifício.

Sacro ofício, trabalho sagrado.

Todavia, é preciso que a humanização, a abordagem suave e a garantia da autonomia à mulher ocorram a partir da dor, pois ela é a energia motriz mais efetiva. A partir disso, a promessa de alívio desse sofrimento assegura a coragem necessária para efetuar as mudanças.

A transformação sempre ocorrerá nos estratos emocionais e afetivos do sujeito. O arcabouço teórico só chega bem depois, para dar suporte à reconstrução do nosso proceder, agora sob outras bases.

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“Para que a psicanálise seja eficaz, é necessário que quem se analisa reúna as seguintes características: que sofra, que não suporte mais sofrer, que se interrogue sobre as causas de seu sofrimento e que tenha a esperança de que o profissional que vai tratá-lo será capaz de livrá-lo de seu tormento.”

J. D. Nasio, psicanalista (Apud Maury Gutierrez)

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Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

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Objeção de consciência

Caríssima Melania Amorim, eu não sei até que ponto o argumento da “objeção de consciência” pode ser usado, mas acho que esta discussão pode ser levada adiante. Talvez seja o momento de se debruçar sobre o tema.

Eu entendo que a situação atual das cesarianas a pedido também é responsabilidade do movimento de humanização e do nosso discurso (justo) de garantir autonomia para que as mulheres façam suas escolhas. Nosso esforço foi mostrar que o parto precisa levar em conta direitos reprodutivo e sexuais, e que o olhar sobre as gestantes não pode mais ser objetual, onde elas não passam de meros “contêineres fetais”, desprovidas de protagonismo e autonomia.

Entretanto, todos sabemos que as opções pela “cesariana milagrosa e indolor” não são verdadeiras pois tais escolhas são condicionadas fortemente pelo ambiente cultural onde estão inseridas. Numa sociedade sob a vigência do “imperativo tecnológico” e onde as opções pelo natural (comida, ambiente, sexualidade, nascimento, morte) são vistas como “reminiscências de um passado de primitivismo e privação“, é compreensível que mulheres façam escolhas baseadas na (des)informação que recebem de seu entorno. Mais ainda; como já dizia Simone Diniz, muitas mulheres optam pela cesariana para fugir do desamparo e da humilhação a que são submetidas no sistema de saúde. “Partos violentos para vender cesariana“.

Por isso estas escolhas NÃO SÃO livres, mas constrangidas pelas vozes de autoridade de profissionais tecnocráticos que baseiam suas decisões muito mais em função do seu próprio conforto e sua auto proteção do que no bem estar de mães e bebês e com base em evidências científicas.

Oferecer a escolha entre cesarianas e partos violentos conduzidos por profissionais despreparados e impacientes é a demonstração mais cabal da perversidade do nosso sistema. A mesma mão que autoriza a escolha pela cesariana (em nome da liberdade) é aquela que proíbe partos fora do controle patriarcal da medicina, ataca parteiras e doulas e persegue obstetras humanistas (em nome de uma pretensa “segurança”).

Talvez seja necessário agora reforçar um velho adágio que eu usava há muitos anos: “O empoderamento das gestantes não significa o desprezo à autonomia do profissional.” Sem um parteiro livre para tomar decisões embasadas trocaremos uma opressão por outra, com resultados igualmente ruins. Objeção de consciência pode ser um caminho e uma alternativa a este dilema.

Não há nenhuma liberdade quando somos obrigados a escolher entre duas imposições violentas e ruins. A pior face da opressão é quando ela vem travestida de autonomia.

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Territórios

 

Escrevi isso há 4 anos durante o atendimento a um trabalho de parto no hospital e me surpreendi, pois não lembrava de jamais ter escrito poesia. Contei pra Zeza e ela disse que era mentira. Talvez seja…

 

Territórios

 

Se o corpo de uma mulher

é um grande território,

onde guerras acirradas

atropelam gerações,

como negar seu direito

na luta da retomada?

 

Se a riqueza dessa terra,

por ter história e ser matriz,

seduziu o forasteiro

que dela quis se apossar,

como não aceitar que o ventre

– e tudo que tem em volta –

queira mais do que depressa

sua posse retomar?

 

Os lindeiros desse chão,

achados de posse eterna,

se esqueceram que a pequena,

por mais delicada que fosse,

tinha na mão um desejo

e no coração um poema.

 

O poema curioso,

cheio de rimas ricas,

dizia meio por assim,

porque a memória anda fraca,

que a conquista não se faz,

no martírio e na faca.

Que a mulher ou é livre,

ou melhor então nem nasça,

pois quem de si o leite dá,

de sua carne outra uma,

não pode viver cercada,

da liberdade, negada

 

O poema era esse,

que a lembrança se achega,

por mais que a mente procure

a palavra escondida.

Mas na mão está o desejo,

que se abre e nos afirma,

que a mulher tão paciente,

agora vai à luta.

Mais que a dor que sempre teve

ela agora só procura,

o caminho que é só seu,

que desenha na lonjura

do seu firme caminhar.

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O que querem as mulheres?

Em um trabalho de 2002 a enfermeira e pesquisadora Ellen Hodnett reuniu 137 relatórios (estudos descritivos, ensaios randomizados e revisões de intervenções no parto) sobre os fatores que influenciam as avaliações de mulheres sobre suas experiências de parto. Quatro foram os fatores essenciais:

  1. Expectativas pessoais;
  2. A quantidade do apoio recebido dos profissionais;
  3. A qualidade do relacionamento cuidador/paciente e
  4. O seu envolvimento na tomada de decisões

Estes fatores parecem ser tão importantes e primordiais que sobrepujam as influências de idade, status social, etnia, preparação para o parto, ambiente físico do centro obstétrico, dor, imobilidade, intervenções médicas e continuidade nos cuidados.

Para este estudo os fatores afetivos e psicológicos sobrepujam as questões técnicas da assistência, a preparação de pré-natal, a continuidade no cuidado e inclusive a dor. Surpresos?

A conclusão de Ellen Hodnett é marcante:

“As influências da dor, do alívio da dor e das intervenções médicas intraparto na satisfação subsequente não são tão óbvias, tão diretas e nem tão poderosas quanto as influências das atitudes e comportamentos dos cuidadores”.

Uau!!!

Assim sendo fica mais fácil entender o sucesso do “Dr Frotinha”. Mesmo sendo um cesarista, sem vinculação com a Medicina Baseada em Evidências e com práticas agressivas, violentas, dolorosas e muitas vezes perigosas e ineficazes, sua abordagem afetiva e próxima pode oferecer às gestantes suas necessidades primordiais de afeto, reconhecimento e participação nas decisões. Assim, mesmo oferecendo uma assistência de baixa qualidade e desvinculada da ciência obstétrica, ele é capaz de transmitir uma ideia de cuidado, um clima de atenção e uma percepção de autonomia (mesmo quando ilusórias).

É evidente que não podemos nos colocar diante de um falso dilema. Não há porque contrapor a atenção centrada na pessoa e uma abordagem que estimula a autonomia com as evidências científicas e a prática humanizada. É, em verdade, exatamente o que a Humanização do Nascimento se propõe. É plenamente possível oferecer às mulheres o “melhor de dois mundos”. Não precisamos mais de profissionais “capengas” que ofereçam apenas um aspecto da atenção, relegando o outro lado ao desprezo.

Entretanto, este estudo evidência que, quando olhamos para o parto pela perspectiva das mulheres é importante não esquecer que o parto é um processo sexual e afetivo acima de qualquer outra consideração. Não é o medo da dor ou do excesso de intervenções o que mais as domina, mas o temor pela rudeza nas relações e o medo de não ser ouvida nas decisões sobre seu corpo e seu bebê.

Aceitar essa perspectiva nos ajuda a entender o que se passa na mente de uma mulher que vai parir. Se as ferramentas tecnológicas são capazes de nos garantir a devida segurança diante das patologias é fundamental entender que a maioria delas não tem muito mais de 100 anos de idade, enquanto o cuidado amoroso, empático, doce e próximo oferecido às mulheres têm a exata idade da existência do gênero humano nesse planeta.

Mais do que treinar profissionais de parto para uma atenção cientificamente embasada é também essencial selecionar aqueles que percebem na assistência sensível e amorosa o caminho mais seguro para um parto satisfatório.

PS: O nome disso é “sincronicidade”. Escrevi o texto acima – que fala dos aspectos emocionais e psicológicos como preponderantes na qualidade da avaliação das mulheres sobre o parto – após rever o trabalho da enfermeira Ellen Hodnett sobre o tema. Procurei uma foto sua para ilustrar o texto e lembrei no nosso breve encontro no Chile em 2012. Tinha na memória uma foto que tiramos juntos, mas sabia que jamais a encontraria e acabei colocando uma encontrada na internet.

Naquela data eu fiz a ela apenas uma pergunta: “É possível melhorar este sistema de atenção ao parto centrado no trabalho médico?”, ao que ela me disse apenas “não, este modelo não tem futuro”. Depois ambos falamos de netos; do seu que recém havia nascido em casa (e do vídeo do nascimento dele que tinha o barulho do aspirador de pó do andar de cima) e do meu primeiro, que nasceria alguns meses depois, de cuja existência eu havia sido avisado dois ou três dias antes.

Pois 20 minutos depois de publicar o texto baseado em seu trabalho o Facebook me lembra do aniversário de 6 anos desse encontro. Mais ainda: me mostra a foto que eu jamais encontraria se fosse procurar. Como explicar essa coincidência?

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Expropriação do parto

Assisti não mais de 3 minutos da fala de um obstetra do centro do país com o tema “Você quer estar certa ou obter resultados?“. Logo me dei conta de que estava diante da mesma retórica de risco que escuto há 40 anos e que – ao se analisar em profundidade – serve como substrato ideológico para a submissão das mulheres ao controle médico no momento apical de sua feminilidade: o parto. Em suas palavras encontrei o mesmo discurso da “mulher bomba relógio” que justificaria a perda total de autonomia e que colocaria o médico como o único sujeito capaz de tomar atitudes em seu nome. O resumo de sua fala poderia ser “Você quer ser livre ou continuar vivo?”. Ou ainda “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Só vais te manter viva se for por mim“.

Para este médico reduzir-se a uma fiel e subserviente paciente, curvada diante de seu saber absoluto, é a única maneira de sobreviver à terrível jornada da gravidez e do parto. Sua voz parece surgir das catacumbas, colocando para o exterior um paradigma mumificado e bolorento. Entretanto, não há mais espaço no mundo contemporâneo para acorrentar as mulheres a um paradigma que as coloca como coadjuvantes no nascimento dos próprios filhos!!! Não há mais lugar para uma visão iatrocêntrica, focada no profissional, sem que a mulher possa escolher como e onde vai parir. Não se justifica mais a falta de conexão com as evidências científicas que mostram o parto domiciliar como tão seguro quanto o hospitalar no que tange mortalidade materna e neonatal, e com inúmeras vantagens acessórias.

O que resta de verdade após escutar essas mensagens de anacronismo e preconceito é que vozes carcomidas pelo tempo e visões antiquadas sobre a mulher e o feminino não devem se manter como hegemônicas; é preciso que a voz dos profissionais humanizados se faça ouvir cada vez mais na Academia e que sejam estes novos modelos os principais canais a informar as pacientes. Chega de ouvir médicos falando sem embasamento científico e sem qualquer conhecimento de causa.

Quando a proposta se resume a “Você quer estar certa ou ter resultados” na verdade estamos diante de outra demanda: o desejo de que se abra mão de toda a autonomia e que se sucumba à ordem hierárquica perversa de expropriação do parto.

Que a onda verde atinja esses médicos para que a liberdade deixe de ser slogan e vire prática cotidiana.

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Pensamento Arriscado

ligadura

Um pensamento arriscado que me ocorreu:

Eu acho que se uma mulher deseja fazer uma laqueadura para evitar uma gravidez futura seu marido deveria ter ciência disso. Portanto, sua assinatura não deveria ser uma “autorização”, mas uma prova de que sabe da decisão de sua esposa no que se refere ao futuro reprodutivo de ambos. Se uma mulher casada não pode vender um imóvel sem a assinatura do marido, porque isso afeta a vida financeira de ambos, porque deveria ser diferente com a… decisão de ter filhos?

Ah… e antes que achem isso machista, penso exatamente o mesmo em relação às vasectomias. Um homem casado não pode se esterilizar sem que sua mulher SAIBA – não confundir essa atitude com “autorizar”.

Aceito contraditórios. Se eu estiver errado me digam a razão.No debate sobre esterilização – aqui entendida como uma ação realizada de forma autônoma por um sujeito para impedir a reprodução – eu retirei alguns pontos que acredito resumirem as posições apresentadas.

Aqui está o que eu percebi:

1 – Ninguém questiona o direito inalienável do sujeito fazer alterações na sua capacidade reprodutiva livre de preconceitos, coerções ou constrangimentos. Autonomia total sobre o corpo. Ninguém tem o direito de determinar o que será feito no corpo de outro adulto.

2 – Algumas pessoas acham que essa ação é pessoal e não pressupõe aquiescência do parceiro. Não seria necessário ao parceiro assinar nenhuma autorização. Entretanto, pela legislação corrente no SUS funciona ainda assim, para homens e mulheres, sendo exigida autorização compulsória por parte do cônjuge.

3 – Um outro grupo acha que a justiça não tem nada a ver com isso. Nenhum documento e nenhuma comunicação compulsória seriam necessários. Isso é da vida íntima do casal e o Estado não pode – ou não deve – se interpor numa relação íntima, que só pode ser resolvida pelos sujeitos envolvidos.

4 – Outro grupo acha que, assim como uma compra de imóvel afeta a ambos, pela comunhão de bens que rege o matrimônio, seria justo que houvesse a comprovação da notificação quando uma cirurgia fosse realizada. Isto é: você pode fazer o que quiser com seu corpo, mas se isso afetar expectativas do seu companheiro(a) será obrigado a notificar (a posteriori) para evitar danos a ele(a).

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Corpo Fechado

terra seca

Sou a favor do pleno protagonismo – em especial das mulheres – e isso inclui aceitar escolhas que me parecem tolas ou inadequadas, mesmo sabendo que minha ideia pessoal sobre essas determinações de nada interessa a quem se responsabiliza por elas. Sem essa possibilidade de decidir nunca haverá liberdade plena. Por outro lado, e com as mesmas justificativas, reconheço para os médicos a “objeção de consciência“. Uma mulher pode se esterilizar aos 25 anos, mas não pode obrigar um profissional a produzir um dano físico em seu corpo. Isso significa que o pleno protagonismo feminino não implica no completo desempoderamento do profissional.

Mas nem sempre vemos os profissionais de saúde respeitando as decisões soberanas das mulheres sobre seus corpos. Em verdade, o que norteia a postura dos profissionais da assistência é a bússola do patriarcado. Sua visão a respeito delas é sempre colocada sobre o pano de fundo da defectividade essencial e do corpo servil que possuem. Nunca uma mulher pode tomar decisões sobre si mesma sem que estas sejam controladas pelo ordenamento falocrático. Mas, tão entranhada está tal configuração nas relações sociais que sequer é percebida pelos médicos, que escamoteiam seu machismo com um discurso cientificista ou higienista. “Acredite em nós, é pelo seu próprio bem“.

Para ser franco, eu defendo até cesarianas banalizadas. Não acredito que vamos oferecer maturidade tratando eternamente as mulheres como crianças. Escolham a cesariana e depois percebam o erro que cometeram; proibi-las de fazer más escolhas não as tornará maduras ou adultas.

Quanto ao consentimento do parceiro isso me parece uma “excrescência cultural que apenas permanece pela inércia dos preconceitos”, a qual precisa ser abolida. O desejo reprodutivo precisa ser investigado antes da formação da parceria. Se a mulher (ou o homem) não deseja filhos, não case com ela (ele). Não faz sentido um homem (ou mulher) deliberar sobre ou corpo de sua (seu) parceira(o).

Concluindo, uma mulher que deseja exterminar sua capacidade reprodutiva precisa ter garantido esse direito, por mais que isso nos cause dor. Se a um homem é permitido emascular-se para se tornar mulher, por que seriam as mulheres impedidas de tornarem-se estéreis, para dar conta de seus desejos e limites subjetivos?

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Autonomia

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Os alunos do quarto ano da faculdade de medicina se aglomeravam ao redor da professora em uma de nossas primeiras incursões dentro da Santa Casa, campo de prática da Medicina Interna.

Naquele dia estávamos debatendo a respeito de algo que praticamente não tínhamos conhecimento algum: pacientes. Para nós as doenças e os males eram entidades abstratas, retiradas de páginas de livros, com nome de velhos professores ingleses e franceses, ou derivadas do latim. A conexão dessas descrições frias com os doentes ainda era para nós difícil de estabelecer.

A enfermaria era de clínica e o paciente uma criança. Era portadora de uma síndrome metabólica genética e estava acompanhada da mãe. A professora era uma médica contratada muito jovem, mal passando dos 30 anos. Tinha a curiosidade e a energia dos jovens médicos, mesclada com a inexperiência em tratar com almas complexas, que dificilmente se enquadram plenamente em modelos nosológicos preestabelecidos. Enquanto ela nos explicava as características da enfermidade que se abatia sobre a criança pude observar, ao longe, a mãe que trazia ao colo sua pequena filha.

Era pobre, mais do que simples, mas sua face tensa perdia um pouco de sua dureza sofrida a cada vez que sussurrava algo para a filha. Talvez por ser eu o único na sala além da pobre senhora que já havia passado pela experiência do nascimento de um filho – incluindo aí a professora – fui quem mais se tocou pela cena colateral, aquela que corria paralelamente à semiologia, aos exames e aos prognósticos sombrios. Trazer um filho doente nos braços é uma das mais angustiantes experiências humanas. A dor do ser que carregamos no colo dói mais que qualquer ferida que decerto temos em nosso próprio corpo.

Terminada a explicação sobre os detalhes do caso e nos aproximamos da mãe e seu filho. A professora apresentou-se e a todos nós. Explicou que éramos alunos de medicina e queríamos examinar sua filha. Ela aquiesceu com um olhar triste e a colocou na cama de lençóis simples sobre o colchão de napa azul.

Não tenho nenhuma lembrança da criança e sequer recordo qualquer detalhe da doença que ela sofria, nem mesmo o nome da enfermidade genética que a acometia. Minha atenção foi automaticamente voltada para a mãe e sua carga de dores. A paternidade havia me tornado, ainda menino, especialmente atento para os dramas que acometem aqueles que têm alguém sob seus cuidados.

– Essa é minha segunda filha, disse ela, com um sotaque carregado da colônia italiana. Minha filha mais velha tem essa mesma doença. Ela também se trata, mas agora está bem.

Seus olhos miravam o chão. Havia culpa em suas palavras, o mais sórdido e sorrateiro dos sentimentos. Mesmo sem saber as nuances e detalhes do metabolismo alterado ela sabia que suas filhas sofriam de algo que seus genes haviam lhes transmitido. A culpa era uma cicatriz a lhe encobrir o rosto com um queloide de dor.

Terminado o exame perguntamos a ela quais as explicações que haviam sido dadas pela equipe médica. Ela nos informou sobre a espera por um determinado exame e que desejava poder voltar para sua casa no interior para continuar sua vida e cuidar da outra filha. Silenciosamente fechava as roupinhas simples e amarrotadas da filha enquanto a professora se despedia.

– Cuide-se, disse a inexperiente professora. Espero que você não pense em ter mais filhos, pois as chances de ter outro com essa doença são grandes.

Olhei para a professora e tive uma sensação incômoda, algo inominado, um sentimento que não poderia entender naquela época da juventude. Para um aprendiz as palavras da professora faziam pleno sentido. Afinal, por que ter um filho cheio de problemas se é possível evitá-lo? Fazia sentido, sim. Todavia, isso não evitou a inquietude que senti pelo “conselho” da professora, principalmente pelo que se seguiu logo após.

– Doutora, disse a mulher, com a voz embargada e visivelmente emocionada. Fico muito agradecida pelo tratamento que recebo aqui. Não me importo que minhas filhas sejam examinadas pelos alunos. Em verdade eu gosto de saber que tantos se preocupam em ajudá-las. Os médicos são atenciosos e cuidadosos. Nossa vida não é fácil com duas filhas que precisam tratamento. Só eu sei o quanto é difícil sair do interior, deixar o marido e alugar um quarto perto do hospital só para acompanhá-las.

A cada descrição da dureza de uma vida sofrida de mãe meu coração se apequenava. Meu filho tinha um ano, se tanto, e nada lhe faltava, apesar de termos uma vida muito simples. Mas o esforço que ela devotava no cuidado de suas filhas deixava minhas angústias de recém pai diminutas e desprezíveis. Ela continuou seu desabafo.

– Sei do sofrimento que essa doença vai provocar nelas e, por extensão, em todos nós que as cuidamos. Muito ainda vamos enfrentar, mas venceremos, com a ajuda de Deus e o auxílio dos médicos, mas…

Olhou mais uma vez para a médica, abotoou o último botão do casaquinho cor de rosa de sua filha e disse:

– … da minha vida cuido eu. Só eu sei o peso que carrego. Terei os filhos que quiser, ou os que Deus mandar, e não cabe à senhora dizer como vou conduzir minha vida. Muito obrigado.

Pegou sua filha no colo e cruzou a sala sem olhar para trás.

Naquele dia percebi que quando nasce uma criança sua alma se acopla a um corpo biológico, que lhe dá sentido através dos significados múltiplos que a vivência na linguagem nos proporciona. Somos muito mais do que simples unidades físico-químicas. Somos seres animados, dotados de “anima”, algo que nos oferece uma mirada especial sobre o mistério da vida.

Um médico deve estar pronto a auxiliar com toda sua energia e conhecimento. Deve ser um “observador atento e isento de preconceitos”, como diria o pai da homeopatia, Hahnemann. Entretanto, ao médico não cabe julgar os valores e crenças de quem trata. Sua ação deve ser humilde e silenciosa, invisível. Uma “transparência de carne e sílica”, como brincava Max. Se é impossível abster-se de sentir – e até sofrer pelo que nosso paciente diz – é fundamental que nossa ação não imponha aos outros valores que somente a nós fazem sentido.

A mulher simples mostrou para o jovem estudante que no espaço que separa o paciente do médico flui uma energia que precisa ser respeitada, sem cair na tentação fácil de preencher esse espaço com arrogância ou prepotência.

Mesmo quando a intenção é ajudar.

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