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Urgência

Uma história antiga. Chegamos na casa da paciente e desde a rua já se ouviam os gemidos fortes, anunciando que o parto estava próximo. Era um chalé pequeno onde havia um único banheiro, exatamente onde ela curtia a massagem inebriante do chuveiro abraçada em seu companheiro. Depois das avaliações de bem-estar de praxe fui para a sala aguardar a descida do bebê.

Passados alguns minutos percebi a minha bexiga estava prestes a explodir, mas, para minha angústia, o banheiro continuava ocupado pelo casal, parteira e doula. Sua cara deixava claro que ela não sairia daquele lugar. Quando alcancei o grau de desespero absoluto abri a porta dos fundos da casa modesta para fazer xixi no jardim, atrás de um pequeno arbusto, torcendo para não haver testemunhas.

Bastou que saíssem as primeiras gotas para que, de dentro da casa, eu escutasse o grito frenético da doula:

– Vai nascer!!!

O resto é história…

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Partos domiciliares

As críticas que afirmam que os estudos sobre segurança em parto domiciliar são feitos em países onde este local de parto é reconhecido pelo sistema de saúde – portanto não serviriam para o Brasil – vão e voltam toda hora. Isso se diz há muito tempo e de diversas formas. É parecido com o discurso que diz que direitos humanos só funcionam em países civilizados. Isto é, aqueles que… respeitam direitos humanos.

Por outro lado, vejam como o discurso médico está migrando. Antes a oficialidade obstétrica afirmava que “parto domiciliar é perigoso”, ou como dizia um professor daqui, “PD é violência obstétrica”. Hoje a fala está mudando para “sim, os estudos mostram segurança… mas só vale para países de primeiro mundo!!!”

Em suma: “parto domiciar só funciona para europeus”. Lembro que na faculdade professores enchiam o peito para bafejar tolices como “parto de cócoras é só para indio assim como acupuntura é só para chinês“. Agora é “parto domiciliar é só pra europeu branco“. Que nível…

Assim, os latino americanos estariam condenados a partos hospitalares violentos e/ou cesarianas até termos uma assistência centrada na mulher, e todos sabemos o desinteresse da corporação em lutar por este modelo. Todavia, este argumento tambem carece de sentido. No Brasil os partos domiciliares planejados são atendidos quase que exclusivamente na classe média, e por essa razão não há porque estabelecer essa diferença entre a as assistência à nossa classe média e aquela oferecida nos países europeus.

Se o parto domiciliar ocorresse em favelas e sem o suporte adequado para transferências esta queixa poderia ser relevante. Não é o caso…

Não se deixem enganar; por trás desse comentário existe “síndrome de vira-lata”. Podemos encontrar aqui o mesmo discurso que nos impedia de ver pentelhos no cinema ou de ter democracia nos anos 70, usando a justificativa de que, ao contrário dos europeus, éramos primitivos e não sabíamos votar.

Parto domiciliar – ou parto onde a mulher quiser – é um direito reprodutivo e sexual. O resto é estratégia para manter podres poderes intocados.

Veja o último estudo aqui

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Papai Zuck

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Mark Zuckerberg – criador do Facebook – tornou-se pai recentemente, mas incrivelmente apenas ficamos sabendo sete dias depois do parto. Durante uma semana uma celebridade existiu entre nós de forma invisível. Eu e Bill (Gates) fomos os primeiros a saber, pelos nossos laços de amizade, mas este hiato de uma semana me faz suspeitar que Pri (Priscilla) teve um parto domiciliar nos Estados Unidos. De que outra forma poderiam parir um bebê de forma silenciosa e privada com tantos paparazzi em volta? Seria possível para eles entrar em um hospital qualquer, ganhar um bebê e não levantar nenhuma suspeita??

Que bafão!!!!

E agora, caso se confirme, o que dirão os barões do Parto Hospitalar mandatório?

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Mudanças

Parto CASA

Houve um período no debate sobre o parto humanizado em que se acreditava na possibilidade de “educar” médicos através de uma imersão nas “verdades da MBE”. Muitos colegas se deixaram entusiasmar com essa possibilidade e o Ministério da Saúde protagonizou uma espécie de Caravana da Humanização que se propunha a levar a “boa nova” aos médicos, uma espécie de “Evangelho das Boas Práticas” aos gentios.

O resultado foi, como eu previra, nulo. Zero. Não havia NADA nas evidências científicas capaz de seduzir, quanto mais mobilizar, os profissionais. Os novos regramentos não passavam de ficção aos ouvidos pétreos dos chefes de serviço. “Para que mudar e arriscar-se numa aventura humanizante se não há um clamor audível por mudança? Onde estão as marchas, os cartazes e a legião de indignadas? Se querem uma modificação no modelo, mostrem-me o choro e o ranger de dentes. Caso contrário, não me peçam para trabalhar mais em troca de nada“.  Realmente, a simples confrontação com a realidade das pesquisas é inútil como elemento transformador. Fosse isso suficiente bastaria folhear os cadernos do Ministério da Saúde e transformar radicalmente a sua prática. Todavia, sabemos que isso não acontece.

A única forma de mudar a realidade é transformando a “base”. Somente se as MULHERES forem atingidas e transmutadas pelo discurso da humanização é que poderemos descortinar uma nova realidade. Elas serão as únicas condutoras desta revolução. A nós caberá apenas a nobre posição de coadjuvantes.

Quem almeja protagonismo procure ser cantor de Rock ou Sertanejo. Médicos, parteiras e doulas não brilham, e a eles cabe o lugar de refletir a luz que emana das mulheres. O modelo iatrocêntrico (centrado no médico) em que as enfermeiras são “parte da equipe” nunca teve resultados positivos onde foi implantado (vide EUA). Por que haveria de produzir resultados positivos em um país que não dispões dos recursos imensos para consertar os problemas que ele mesmo produz?

Quando tive a oportunidade de tietar Ellen Hodnett em um congresso no Chile há alguns anos minha única pergunta a ela foi: “Você acredita na possibilidade de educar médicos para que sejam mais humanizados e assim mudar o paradigma do nascimento?

Sua resposta foi curta e simples: “Não, esse modelo se mostrou falho. Não há mais nada que ele tenha a oferecer“.

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Partos extra-hospitalares

Grito primal

Sobre os debates em relação aos partos extra-hospitalares…

Debato estas questões há 30 anos, e virtualmente há 16 anos. Já participei de “pegas” muito mais violentos na minha comunidade “Parto Humanizado” no falecido Orkut. Aquilo sim era baixaria. Todavia hoje em dia – graças à muita idade – eu não participo de nenhum debate em que o nível esteja abaixo do padrão mínimo de civilidade. Descobri que “caps lock” e gritaria é proporcional à falta de argumentos. Quando o volume da voz ou, no caso virtual, agressões “ad hominem” ocupam o lugar de argumentos bem construídos, é hora de abandonar o debate. Faço isso sistematicamente. Já fui atacado por todos os lados por ter ideias que muitas vezes agridem o “senso comum”, mas prefiro a impopularidade à falsa luz dos aplausos fáceis.

Se querem saber minha opinião franca a respeito do parto domiciliar, eu até posso expressar. Existem temas muito interessantes escondidos nos argumentos de todos os lados, e eles são uma amostragem bem interessante do nosso código social valorativo.

Primeiramente, esse NÃO É um assunto médico, da mesma forma que “aborto” também não é. Essa é uma questão HUMANA, em que a medicina tem uma visão a oferecer, mas que está pareada com muitas outras tantas visões, como a sociologia, a antropologia, o direito, a psicologia, a psicanálise e tantas outras quantas forem as abordagens possíveis de um fenômeno de múltiplas interpretações. O erro é chamar médicos para mostrar sua visão sobre o tema e lhes oferecer a “opinião definitiva”, como se eles tivessem um conhecimento superior sobre a totalidade do fenômeno, quando em verdade dominam apenas uma parcela desse conhecimento.

O que você diria, por exemplo, se um médico fosse chamado a opinar sobre “açúcar” e, a partir de um posicionamento da corporação, lhe proibisse (e todos os demais) de comer qualquer doce, baseado em pesquisas relacionando açúcar com obesidade, diabete e infarto? Acharia um abuso? Pois é assim que muitas mulheres se sentem a respeito dos médicos proibirem (direta ou indiretamente) mulheres de terem seus filhos no lugar onde desejam.

Os riscos relativos (pois que os absolutos são baixos até para cesarianas) de qualquer ação humana não podem regular isoladamente os procedimentos, sejam eles quais forem. Quer um exemplo?

Se você viajar de ônibus para São Paulo (não importa onde esteja) o risco relativo é MAIOR se compararmos a mesma viagem feita de avião. Pergunto: é justo proibir que as mulheres viajem com seus filhos de ônibus para São Paulo porque existe uma opção mais segura? Se você responder NÃO, então concorda com todas as pessoas que defendem o parto domiciliar, mesmo que conseguisse (o que é improvável) provar que ele é mais arriscado do que a modalidade hospitalar. Se você responder SIM, entre na justiça agora mesmo e quebre todas as empresas de ônibus interestaduais.

Assim sendo, avaliar riscos relativos é uma forma fácil de entrarmos em erro. A outra questão é própria do debate: não há sentido algum em considerar o parto como sendo um ato médico, pela mesma razão que a alimentação, a evacuação e a atividade sexual não o são. Portanto, oferecer a última palavra sobre sua alimentação, trabalho intestinal ou vida sexual aos médicos é um equívoco, pois muito mais existe nestas ações que possam caber na explicação fisiológica que os médicos possuem. O desejo sexual, o gosto pelos alimentos e a excreção obedecem ordenamentos do simbólico que estão muito além do entendimento orgânico que um médico pode oferecer.

A partir dessas considerações fica mais fácil entender que parto domiciliar, ou “parto no local de escolha da mulher“, tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais, mais do que qualquer outra coisa. Não é por acaso que as pesquisas prospectivas na Inglaterra demonstraram que se trata de uma opção segura, que pode ser estimulada entre as pacientes do sistema público de lá. Os ingleses não são tolos ou idiotas e, como diria Sting, “The brits love their children too“. Local de parto é um DIREITO de escolha da MULHER, e não do médico (que serve para aconselhar e orientar). Portanto, o médico deve acompanhar estas decisões soberanas de suas pacientes, como expresso nos códigos de ética médica de qualquer lugar do mundo.

Obstaculizar o acesso de médicos aos seus pacientes através de coerção, ameaças ou violências (explícitas ou implícitas) é um crime contra a liberdade de escolha e uma violência contra a autonomia. Qualquer ação nesse sentido deve ser repudiada em nome da democracia e da autodeterminação. Mais do que uma ação “feminista” (por proteger as mulheres e garantir a elas o direito de escolha) ela é uma agressão aos seres humanos, tolhidos da possibilidade de escolher seus valores e assim construir seu destino.

Para finalizar, melhor faria a corporação médica em se espelhar nas ações de grandes democracias europeias e regulamentar o parto extra-hospitalar, para que, assim debatido, ele pudesse ter os melhores resultados. Quantos resultados negativos nesta modalidade de atenção ocorreram pelo preconceito dos colegas ao receber uma transferência no hospital? Quantas vezes parteiras aguardaram mais do que deviam pelo medo da humilhação a que seriam submetidas por um sistema preconceituoso, fechado e que criminaliza as decisões soberanas tomadas pelos pacientes?

Para que as mulheres possam ter a máxima excelência na atenção precisamos nos desfazer de todos os resquícios de autoritarismo na atenção à saúde, ao mesmo tempo em que reforçamos a cidadania e a autonomia como valores fundamentais na assistência ao parto.

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