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Renovação

Minha nora entrou no centro obstétrico com contrações esparsas, bolsa rota, aumento de temperatura e uma ansiedade que compartilhava com todos ao redor. Dos atingidos pela angústia eu era o mais aflito – e o mais dissimulado. Por trás de uma máscara de tranquilidade, dúvidas e perguntas. Por que não desce? O que está havendo? Por que a temperatura subiu? Por que eu?

Não era para estar ali. Sempre deixei isso claro. Pedi a todos o direito de ser apenas avô, mas não foi possível. A gestação de mais de 42 semanas e as férias da obstetra que aceitou atender um parto normal nessas condições me colocavam como única esperança. Senti vergonha pela minha cidade, incompetente para produzir parteiros. Mais de 39 anos depois de “Nascer Sorrindo” de Leboyer e o cenário obstétrico continuava praticamente inalterado, com as mesmas visões anacrônicas dos anos 40. Um atraso que ainda levaremos décadas para recuperar.

Quando ela chegou ao centro obstétrico eu já estava lá esperando, como sempre fazia. Avisei algumas técnicas de enfermagem “amigas da causa” que a esposa do meu filho chegaria carregando meu neto, ainda no ventre. Foram elas que, com ingênua euforia, deixaram que a informação chegasse aos ouvidos da enfermeira chefe.

Sobrinha de uma das diretoras-freiras do hospital ela fazia o papel das antigas “enfermeironas” dos anos 50. Tinha uma política muito clara: favorecia os médicos que não “atrapalhavam” o serviço (os cesaristas). Era simpática e cordial com eles mas guardava todo seu azedume e ressentimento para os profissionais que trabalhavam fora do paradigma tecnocrático, aqueles que ousavam investir na condução natural (fisiológica) dos partos a despeito do tempo despendido para tal.

Nunca escondeu sua desaprovação por mim e pelas teses da humanização. Foi a primeira enfermeira a me dizer claramente que não aceitava o trabalho das doulas e durante os anos que trabalhamos no mesmo serviço sempre deixou explícito seu desprezo pela humanização do nascimento. “Vamos acabar com a farra das doulas“, me disse certa vez.

Quando viu minha nora entrar no centro obstétrico – segurando sua barriga entre as contrações – imediatamente barrou a entrada da doula. Inventou uma mentira ao insinuar que esta teria dito “se eu não entrar a paciente também não entra“. Usou de uma inverdade absurda para justificar sua atitude autoritária e vingativa. Precisei negociar a entrada dela e do meu filho, fazendo um enorme exercício de apaziguamento – exatamente no meio de uma brutal crise existencial.

Acabamos optando pela cesariana, por razões múltiplas, mas essencialmente por uma parada de progressão de várias horas. Depois da cirurgia a enfermeira chefe cruzou comigo pelo corredor do hospital e disse “Não sabia que era sua nora; se soubesse abriria uma exceção“.

Essa frase me deixou ainda mais furioso, mas nada disse para ela. Engoli em seco, como me acostumei a fazer durante 30 anos de bullying. Ela não só agiu de forma cruel tentando impedir o trabalho valioso da doula como confessou que teria se comportado diferente caso soubesse que era meu neto que estava por nascer. Eu pergunto: o que me faria merecer esta deferência? Por acaso neto de médico é diferente dos outros humanos?

Passados quase 7 anos desta cena, ainda guardo muita mágoa e culpa pelo silêncio que me impus – minha condição frágil no hospital não me permitia confrontações. Hoje fiquei sabendo que esta enfermeira-chefe saiu do hospital. Não sei as razões, mas espero que estejam relacionadas à discordância dos seus superiores com sua incapacidade de reconhecer a transcendência dos partos na história de tantos personagens: mãe, pai, bebê e família.

Em seu lugar assume uma enfermeira que sempre guardava um sorriso para receber bebês e recém mães. Que a história desse hospital possa mudar e uma página nova possa ser escrita. Que os pressupostos da humanização possam, finalmente, florescer.

Apesar de tudo, meu neto está aí, mostrando que o clima ruim construído ao redor de um nascimento pode ser revertido.

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Arquivado em Histórias Pessoais