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A Mãe do Canalha

Elizabeth Bathory, a Condessa Sanguinária

Na música “O Meu Guri” Chico Buarque nos descreve de uma forma tocante e poética a perspectiva de uma mãe sobre as desventuras de seu filho, que era um pivete, um menino ladrão, um meliante. A forma amorosa e cálida como ela descreve seu “guri” sempre me tocou de uma forma muito especial porque revela algo muito significativo: todo sujeito, por pior que seja, já foi uma criança cheia de sonhos, recebeu amor de sua mãe – ou de alguém ocupando esse lugar – e já carregou em seu sorriso nossos sonhos e projetos.

Quando me falam de uma figura odiosa – do atual presidente aos policiais rodoviários de Sergipe que executaram Genivaldo – eu tento imaginá-los crianças, cheios de sonhos, de esperanças, abrindo-se para a vida. Imagino como se fossem meus filhos, e tento imaginar como poderia acomodar a reprovação de seus atos com o amor que teria por eles. Penso que eles tiveram mães, que por certo devotaram a eles o afeto que as mães sempre oferecem. Assim, penso que a maldade que eles carregam é devida a algo que aconteceu no meio do caminho, tropeços que os desviaram do melhor rumo. Todavia, por certo eles um dia foram crianças a quem abraçamos, desejamos felicidade e em quem depositamos toda a esperança no futuro.

Também quando uma dessas figuras se vai desse plano eu penso naqueles que choram sua partida, por piores que tenham sido ao nosso olhar. Não há ninguém que seja tão mau e deteriorado que não seja digno de um amor, de um afeto, de uma boa lembrança e, se formos olhar pelos olhos de sua mãe, ele será para sempre “o seu guri”.

Os canalhas também tiveram suas mães, também tomaram banho de chuva, tiveram seus amigos diletos, brincaram na rua até escurecer e igualmente tiveram seus sonhos e planos. O que nos diferencia deles são minúsculos detalhes numa trajetória acidentada, que pode levar qualquer um para o desvio, para o erro – ou para o sucesso. Mais do que nossas diferenças, o mais chocante na natureza humana são nossas semelhanças, e o que nos separa – no longo matiz que distancia o facínora do gênio e do anjo – são esses pequenos desvios de rota.

Sim, até os(as) canalhas têm mãe…

Imagem: “A famosa “Condessa sanguinária” figura entre as mulheres acusadas de serem as maiores assassinas da história, já tendo servido de inspiração para muitos escritores e cineastas. Sua imagem é pejorativamente associada à de uma pessoa obcecada pela juventude, a ponto de se banhar em sangue para preservar a própria beleza. Numa época em que era comum a nobreza castigar a criadagem desobediente, Elizabeth Bathory foi apontada como causadora da morte de diversas pessoas. As acusações de assassinato em torno dela aumentaram e uma ordem de investigação contra a mesma foi executada. Em 1610, um caderno de propriedade da nobre foi encontrado contendo o nome de aproximadamente 650 vítimas.”

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Mal e mau

Meu pai sempre usava essa expressão para mostrar qual a verdadeira essência da maldade:

“Você só consegue me fazer mal se me fizer mau”.

Assim, a pior vingança do bolsonarismo contra aqueles que sonham com a equidade, a justiça, a diversidade, o respeito ao outro e uma sociedade de paz é nos transformar na pior versão deles mesmos. Creio que a postura de um humanista é jamais se curvar à sedução do ódio e da vingança. Quando nos tornamos iguais àqueles que mais combatemos é porque já estamos derrotados. Quando aceitamos o ódio e o ressentimento como via de expressão então já não há mais diferença ética entre nós e nossos adversários.

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Renovação

Minha nora entrou no centro obstétrico com contrações esparsas, bolsa rota, aumento de temperatura e uma ansiedade que compartilhava com todos ao redor. Dos atingidos pela angústia eu era o mais aflito – e o mais dissimulado. Por trás de uma máscara de tranquilidade, dúvidas e perguntas. Por que não desce? O que está havendo? Por que a temperatura subiu? Por que eu?

Não era para estar ali. Sempre deixei isso claro. Pedi a todos o direito de ser apenas avô, mas não foi possível. A gestação de mais de 42 semanas e as férias da obstetra que aceitou atender um parto normal nessas condições me colocavam como única esperança. Senti vergonha pela minha cidade, incompetente para produzir parteiros. Mais de 39 anos depois de “Nascer Sorrindo” de Leboyer e o cenário obstétrico continuava praticamente inalterado, com as mesmas visões anacrônicas dos anos 40. Um atraso que ainda levaremos décadas para recuperar.

Quando ela chegou ao centro obstétrico eu já estava lá esperando, como sempre fazia. Avisei algumas técnicas de enfermagem “amigas da causa” que a esposa do meu filho chegaria carregando meu neto, ainda no ventre. Foram elas que, com ingênua euforia, deixaram que a informação chegasse aos ouvidos da enfermeira chefe.

Sobrinha de uma das diretoras-freiras do hospital ela fazia o papel das antigas “enfermeironas” dos anos 50. Tinha uma política muito clara: favorecia os médicos que não “atrapalhavam” o serviço (os cesaristas). Era simpática e cordial com eles mas guardava todo seu azedume e ressentimento para os profissionais que trabalhavam fora do paradigma tecnocrático, aqueles que ousavam investir na condução natural (fisiológica) dos partos a despeito do tempo despendido para tal.

Nunca escondeu sua desaprovação por mim e pelas teses da humanização. Foi a primeira enfermeira a me dizer claramente que não aceitava o trabalho das doulas e durante os anos que trabalhamos no mesmo serviço sempre deixou explícito seu desprezo pela humanização do nascimento. “Vamos acabar com a farra das doulas“, me disse certa vez.

Quando viu minha nora entrar no centro obstétrico – segurando sua barriga entre as contrações – imediatamente barrou a entrada da doula. Inventou uma mentira ao insinuar que esta teria dito “se eu não entrar a paciente também não entra“. Usou de uma inverdade absurda para justificar sua atitude autoritária e vingativa. Precisei negociar a entrada dela e do meu filho, fazendo um enorme exercício de apaziguamento – exatamente no meio de uma brutal crise existencial.

Acabamos optando pela cesariana, por razões múltiplas, mas essencialmente por uma parada de progressão de várias horas. Depois da cirurgia a enfermeira chefe cruzou comigo pelo corredor do hospital e disse “Não sabia que era sua nora; se soubesse abriria uma exceção“.

Essa frase me deixou ainda mais furioso, mas nada disse para ela. Engoli em seco, como me acostumei a fazer durante 30 anos de bullying. Ela não só agiu de forma cruel tentando impedir o trabalho valioso da doula como confessou que teria se comportado diferente caso soubesse que era meu neto que estava por nascer. Eu pergunto: o que me faria merecer esta deferência? Por acaso neto de médico é diferente dos outros humanos?

Passados quase 7 anos desta cena, ainda guardo muita mágoa e culpa pelo silêncio que me impus – minha condição frágil no hospital não me permitia confrontações. Hoje fiquei sabendo que esta enfermeira-chefe saiu do hospital. Não sei as razões, mas espero que estejam relacionadas à discordância dos seus superiores com sua incapacidade de reconhecer a transcendência dos partos na história de tantos personagens: mãe, pai, bebê e família.

Em seu lugar assume uma enfermeira que sempre guardava um sorriso para receber bebês e recém mães. Que a história desse hospital possa mudar e uma página nova possa ser escrita. Que os pressupostos da humanização possam, finalmente, florescer.

Apesar de tudo, meu neto está aí, mostrando que o clima ruim construído ao redor de um nascimento pode ser revertido.

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Bons e maus

Li agora:

“Dinheiro não corrompe ninguém; só melhora quem é bom e piora quem é ruim”

Eu discordo. Na verdade quando você diz “piora quem é ruim”, eu pergunto: como você sabe quando um sujeito sem poder algum é “ruim”. Como saber das virtudes quem nunca as colocou a prova? Por nunca ter feito nada de mau? A ausência de más atitudes definiria, assim, o cidadão justo e correto?

Ora… então paraplégicos são pessoas boas e corretas, visto que nunca se encontra um assaltando bancos, roubando velhinhas ou matando gente. Claro… sabemos que não o fazem porque não PODEM, e não porque sua limitação lhes ofereceu alguma virtude. Portanto, a simples ausência do MAL não implica na presença do bem.

O mesmo podemos dizem do “bom sujeito” – também conhecido como cidadão de bem – que nunca participou de atrocidades apenas pela própria incapacidade de cometê-las. Todavia, o “bom” sujeito, uma vez de posse dos recursos, como o dinheiro, fama ou posses, se tornará aquilo que sempre foi mas não tinha como manifestar: um humano cheio de falhas e fragilidades morais exposto às tentações, que o fazem parecer egoísta e avarento e pleno de mazelas no seu comportamento. O que poderia ser visto como um sujeito “corrompido” nada mais é do que alguém liberto de seus limites.

Sim… o poder corrompe. Como Tibério, que terminou a vida exercendo todas as perversões que seu poder ilimitado permitia. Dinheiro é poder e ele faz nossas máscaras caírem. Por isso mesmo é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu. A tentação do poder ilimitado só a conhece quem já passou por ele.

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Comentários

demonio

“A seção de comentários das notícias é o que o demônio lê todas as manhãs em busca de novas ideias para o dia”

Que Deus nos perdoe por tanta maldade

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