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Imperfeição

Li no Facebook a frase que dizia que “nossa insistência em sermos perfeitos é ilógica, porque os perfeitos não sabem amar”. Todavia, discordo desta frase; em verdade os perfeitos sabem amar, a questão é que sua condição faz com que não precisem amar.

Na minha perspectiva o amor surge exatamente do sentimento de falta, aquilo do qual o sujeito carece. Sendo a perfeição a ausência de falhas e a completude suprema, nada lhe faltaria ou lhe seria vedado.

Assim, amar para quê? Para suprir qual lacuna? Para tapar qual buraco na alma?

A imagem ao lado explica exatamente o que pretendo dizer…

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Tanques

Hoje tivemos desfile de tanques na Esplanada dos Ministérios em Brasília, com seus canhões apontados para nossas cabeças como gigantes de aço ostentando seus membros eretos numa demonstração grotesca de virilidade. Há alguns dias promoveram um passeio de motocicletas, que nada mais são que próteses metálicas e rígidas colocadas entre as pernas de meninos com medo.

Houve diversas infrações de trânsito praticadas, assim como sempre ocorrem delitos quando a masculinidade precisa ser comprovada por meio da força. Foi pouca gente se analisarmos a repercussão eleitoral. Em São Paulo estiveram 6.230 motos, que fazem muito barulho e impressionam, mas representam apenas 6 mil votantes. Isso não é nada para uma cidade de 20 milhões de habitantes.

É evidente que as manifestações de apoio a Bolsonaro estão minguando – ou “broxando”. Por isso a insistência na exaltação da frágil heterossexualidade. Isso também explica as motociatas, mesma estratégia usada por Mussolini no fascismo nascente no século passado, pois as motocicletas ocupam espaço, fazem barulho, simulam uma multidão e são potentes sinais semióticos de poder fálico. Tudo o que essa turma gosta é de demonstração de potência sexual. Alimentam-se disso. Gozam com essas exibições de potência que denunciam a fraqueza do real poder.

Bolsonaro é o falo desejado pelos deserdados da função paterna.

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Dia sem pai

Pai e mãe, ouro de mina
Coração, desejo e sina…

Hoje era o dia de juntar os netos e ir na casa dele escutar histórias, trocar abraços e ouvir os comentários mais variados sobre – literalmente – qualquer coisa. Este domingo está feliz pelos abraços que recebo, e triste pelos que já não posso mais dar. Hoje é o primeiro “dia dos pais” em que ele não está entre nós; a primeira vez que não tenho meu pai para abraçar.

Tive a oportunidade rara de alcançar o meu pai na corrida do tempo; quando ele morreu ambos já éramos velhos, e pude “trocar figurinhas” com ele sobre o que nós dois sentíamos com o aconchego da velhice a nos envolver com seus braços gelados. Muito do que sei sobre ser velho aprendi com seus conselhos e seu humor sobre a “melhor idade”. Hoje ele me deixa sozinho nessa trilha, e não tenho mais sua experiência para me contar como serão os dias que me restam.

Uma das últimas coisas que ele me disse, quando sua marcante lucidez já estava muito distante, foi uma de suas observações sarcásticas características. Durante sua estadia no hospital eu me aproximei do seu ouvido e disse: “Oi pai, sou eu, Ricardo. Lembra de mim? Sou o seu filho mais bonito”. Ele abriu os olhos, ajeitou o corpo na cama do hospital e disse: “Meu Deus, como você está velho!”.

Olhou firme da minha face e demos uma breve risada. Depois aprofundou-se em seu sono, esperando apenas o momento exato para mergulhar na dimensão desconhecida que o aguardava. Espero que ele esteja bem, e que mantenha para toda a eternidade o humor, a elegância, o charme, a fidelidade aos seus princípios e o amor que sempre direcionou à sua família. Por certo que minha mãe vai cuidar para que mantenha-se na linha.

Em breve serei eu. Percebo a cada dia que passa a proximidade da minha morte, como alguém que sente o frio do inverno se aproximando nas primeiras brisas do outono. Hoje mesmo perguntei ao meu neto Oliver se eu poderia conhecer o filho dele quando nascesse. Oliver disse que não sabe se vai ser pai, talvez com medo da responsabilidade de ser tão bom nessa tarefa quanto seu pai e seu bisavô. Espero ter essa oportunidade cada vez mais rara em um mundo onde as funções parentais perdem valor diante do individualismo que nos cerca.

Ao meu pai deixo o agradecimento de mostrar a mim a grandeza dessa tarefa, construção recente na história da humanidade, mas que oferece às crianças um suporte firme e seguro para alcançar seus mais nobres objetivos.

Sinta-se abraçado, pai.

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