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Sobre as histórias a contar

Há 20 anos exatamente estava atendendo no consultório quando fui surpreendido por uma imagem no computador da minha mesa. Imediatamente liguei meu rádio e aproveitei para escutar as descrições ao vivo. Um avião havia se chocado contra as torres gêmeas em Nova York, um lugar que eu havia conhecido duas décadas antes quando visitei a cidade. A descrição da rádio me fez ligar a TV do consultório na recepção, aproveitando uma falha na agenda. A sensação de todos era pânico e assombro.

Cheguei a ver ao vivo o choque do segundo avião. Imediatamente liguei para minha mulher. “O mundo vai acabar”, disse eu para Zeza Jones em tom de despedida, sem saber que era mesmo verdade. O mundo, como o conhecíamos, acabava naquele dia. Nunca mais eu vi os Estados Unidos como eu estivera acostumado a ver e – confesso – até admirar. Imediatamente, ainda enquanto ouvíamos o eco da queda retumbante das torres, surge o “Patriotic Act”, a perda dos direitos civis nos EUA, o recrudescimento da islamofobia, a invasão do Iraque, a “Guerra ao Terror”, as convulsões no Oriente Médio, as invasões brutais a vários países (Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, etc) e o panóptico americano sobre suas zonas de domínio, que em nível local levou à própria Lava Jato, ao juiz cooptado em Curitiba, aos golpes jurídico-midiáticos e finalmente nos levando à “facada” e à Bolsonaro.

Sim, em minha perspectiva o fascismo bolsonarista é ainda um reflexo do fatídico dia 11 de setembro de 2001, que no futuro será visto como a festa macabra a celebrar o fim de um Império. Desde então esse gigante de poder planetário apodrece lentamente à nossa frente mas, como todo sistema de opressão, sua decadência será marcada pela violência e pela agressão às conquistas da civilização.

Minha solidariedade aos mortos dessa tragédia no correr dos anos foi dando lugar à indignação com um país que passou a matar um World Trade Center a cada dia no Oriente Médio. Só no Iraque foram 100 mil. No Afeganistão foram mais de 400 mil mortos, mas para estes homens e mulheres pobres e de pele escura – mortos por defender sua própria terra – não há nenhuma superprodução de Hollywood para contar suas histórias, seu sofrimento, sua dor, seus filhos perdidos, o heroísmo de seus combatentes e suas esperanças soterradas pelas bombas americanas.

Os bombeiros americanos são tratados – justamente – como heróis. Histórias e lendas são contadas sobre sua bravura e coragem para salvar o maior número possível de vitimas do ataque. Todavia, nenhuma justiça é feita aos heróis e heroínas anônimos que ainda hoje protegem seus filhos dos ataques imperialistas. Da Palestina às cavernas nas montanhas do Afeganistão milhares de histórias poderiam ser contadas sobre a brutalidade e os massacres levados à cabo pelas forças invasoras, mas também sobre os anônimos homens e mulheres que defenderam suas famílias e suas comunidades.

Um mundo onde impere a justiça e o equilíbrio por certo haverá de trazer à tona essas narrativas de dor, coragem, determinação e esperança.

PS: Não, não é o World Trade Center nesta foto. É Gaza, onde todas as semanas há um novo massacre, matando palestinos de forma brutal e sistemática. Lá as torres gêmeas são o imagens do cotidiano. E por trás da barbárie continuada estão os mesmos Estados Unidos e seu apoio aos terroristas de Isr*el.

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Desastre do Lattes

Látis é uma espécie de Kwai, onde se guarda todas as tretas que o cara fez, mas é mais pra material de colégio tipo … estudo, mas não dá pra mandar vídeos ou fotos de gatos, esmalte ou comida chique. Recomendo apenas para quem tá a fim de um trampo.

Sem Lattes, sem memória, sem passado. Imagine só, meu amigo…. de uma hora para outra tudo ficou zerado. Depois do incêndio a memória dos feitos e atos de bravura escolar viraram cinza. Anos colecionando troféus acadêmicos e agora… tudo acabou. Fim… como se aquele dinheiro que você guardava debaixo do colchão perdesse o valor. Aqueles estudos, pesquisas, palestras, títulos. Tudo incinerado. Todo mundo agora se torna oficialmente igual, inobstante o brilhantismo ou a mediocridade.

Lembrei os jogos de futebol do meu tempo. Não importava quanto estava o placar da pelada, mas quando escurecia e todo mundo estava exausto, alguém gritava: “Zerou!! Quem fizer o primeiro ganha!!!”. Subitamente o placar desaparecia, e tudo o que já havia sido jogado deixava de existir. Ninguém mais estava ganhando ou perdendo. Nesse último gás a gente jogava como se estivesse começando tudo naquele exato instante.

É mais ou menos assim que eu vejo o fim do capitalismo.

O velho milionário vai dormir mega empresário e acorda como um cidadão comum. Ainda antes de levantar da cama vê um sujeito ao lado da sua cama, vestindo um uniforme verde escuro e um boné, avisando que precisa da chave dos fundos da sua empresa para a entrada dos caminhões. Levanta da cama, cruza o quarto gigantesco e, ainda impactado pelo despertar abrupto, entrega a chave ao rapaz de barba negra e uma estrela fulgurante no bolso da camisa.

“Posso pelo menos acompanhar vocês até lá?” ele pergunta, sem conseguir imaginar algo melhor para dizer.

O jovem revolucionário responde:

“Claro senhor. Vamos aguardá-lo lá”, e entrega na mão do ex capitalista uma tarjeta plástica. Vê o grupo de jovens sair da mansão dirigindo o seu carro esporte conversível e percebe que o mundo, como o conhecia, desabou.

Olha para sua mão e vê que a tarjeta plástica que o guerrilheiro lhe deu é um cartão de transporte público. Só então, chora.

PS: É verdade esse bilete

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