Arquivo da tag: partos domiciliares

Narrativas

images-18

A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Parto em Casa…

parto-expulsivo

Percebo que muitos profissionais que argumentam contra o direito de uma mulher parir em casa com auxílio qualificado (médicos e/ou enfermeiras e obstetrizes) precisam mais informações sobre a quantidade e a variedade de equipamentos usados no parto domiciliar planejado. Além disso, é importante que conheçam a realidade de países que, mais do que reconhecer a validade dessa assistência, ESTIMULAM que os partos sejam extra hospitalares e atendidos por midwives (enfermeiras obstetras e obstetrizes, no Brasil).

O discurso do “risco” serve como um fio lógico para justificar o controle sobre o corpo e a sexualidade femininas. Como diria Robbie Davis-Floyd, sempre que ouvimos a palavra “segurança” em relação à atenção ao parto a palavra correta deveria ser “controle“. O mesmo raciocínio de risco usado na assistência ao parto nos impediria andar de avião, ou obrigaria a presença de médicos em cada rua ou automóvel. Quando partos planejados em domicílio são comparados com os hospitalares em GRANDES avaliações e com RIGOR METODOLÓGICO o que se observa é um número muito pequeno de intercorrências relacionadas ao acompanhamento e uma baixa morbi-mortalidade em ambas as amostras, mostrando que o ambiente hospitalar não acrescenta segurança quando comparado ao ambiente extra-hospitalar.

Na minha formação médica também fui bombardeado pela “lógica do risco”, mas com o passar do tempo fui me dando conta que ela só fazia sentido num contexto patriarcal, de controle rigoroso sobre a sexualidade feminina. Assim, o parto hospitalar compulsório é um dos meios de propagação e manutenção de um discurso patriarcal e misógino, que deplora a autonomia das mulheres e que – acima de tudo – teme uma sociedade baseada na liberdade sexual e na relação igualitária entre os gêneros.

O que eu acho curioso é o fato de que se comparam partos domiciliares com a atenção hospitalar sem levar em consideração o que as mulheres desejam. Isto é: a vontade das mulheres nunca conta. É o mesmo que avaliar vantagens de um alimento sobre outro e desconsiderar o desejo ou apetite de quem come. Uma fantasia que corre no meio médico é que os profissionais humanizados determinam o local de parto para suas pacientes, quando é o oposto que ocorre: as pacientes é que solicitam ajuda para SUAS escolhas, baseadas em leituras, seminários, pesquisas, conversas, avaliações subjetivas e sua vontade. Portanto, não se trata de escolher o melhor local para parto, mas honrar – ou não – escolhas que as próprias mulheres fazem sobre o nascimento de seus filhos.

Alias… Parto domiciliar planejado no Brasil não passa de 2% da totalidade de nascimento, mesmo quando acrescentamos aos partos planejados aqueles ocorridos em zonas remotas do país, como o nordeste e a Amazônia. Trata-se, portanto, de uma realidade minúscula, mas sua vertente urbana é predominantemente um fenômeno de classe média. Uma questão burguesa, admito. Por esta razão, e pelo número pequeno de partos que acontecem desta maneira, quando me convidam para falar de humanização e parto domiciliar eu sempre digo: “Ok, desde que eu possa falar 98% do tempo em parto hospitalar e casas de parto e 2% em parto em casa, pois esta é REAL relevância da questão“.

Assim sendo, o nosso foco precisa ser na humanização da assistência hospitalar e o aprofundamento do debate sobre o DIREITO DE ESCOLHA por parte das mulheres, sem constrangimentos ou pressões de qualquer natureza.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Ana Maria Braga e a Humanização

Estamos num momento MUITO CRIATIVO do movimento de humanização. Pela primeira vez, graças ao ativismo (de qualquer tipo, o de gabinete e o de paralelepípedo) estamos tendo uma visibilidade nunca antes alcançada. Portanto, agora é a hora de planejar os próximos anos de luta por um nascimento mais digno e uma maternidade livre de coerções.

Minha tese é de que precisamos MUDAR o paradigma de lutas, da mesma maneira que mudamos a nossa atitude ao sairmos da adolescência. Nossa mudança será de uma AGENDA NEGATIVA, que se baseia na exposição das práticas inadequadas, taxas abusivas, violência institucional, níveis de intervenção inadequados, ausência de alternativas e cerceamento de informações sobre riscos relativos, para uma AGENDA POSITIVA, que obrigatoriamente precisa mudar o discurso e mostrar o que pode ser feito de BOM e de correto para o nascimento e a amamentação. Menos acusação e mais proposta; menos acusações a cesaristas e mais exaltação de profissionais humanistas. Deixar de focar em pessoas e mostrar a importância de projetos. Mostrar mais o sucesso das casas de parto, modelos de parteria e dos hospitais públicos humanizados e acusar menos as maternidades tecnocráticas e afastadas das evidências.

Além disso, precisamos de uma atitude PRÓ-ATIVA, que faça propostas de ponta, ofereça alternativas viáveis (e não fantasias irrealizáveis), que negocie com as outras partes (médicos, hospitais, prefeituras, etc.) e que tenha a compreensão e a bondade de aceitar o contraditório. Quando a Ana Maria Braga fala positivamente de partos domiciliares isso deve ser EXALTADO como um progresso na mídia e na própria consciência dela sobre o nascimento. Se isso não é tudo, pelo menos é um gigantesco passo para a visão mais respeitosa e compreensiva de uma grande formadora de opinião como ela.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto