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Medicina irreconhecível

“Se por um decreto divino a prática médica a partir de hoje fosse plenamente vinculada às evidências científicas – que já temos – muito cedo a medicina se tornaria uma profissão tão diferente do que existe que seria praticamente irreconhecível. O que chamamos de “ato médico” é, em verdade, a encenação de um encontro de cura, cujo enredo não é escrito com as tintas da ciência.”

James H. Waldorf, “From the depths to Calicut”, ed Norwegian, para 135

James

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Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


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Partos extra-hospitalares

Grito primal

Sobre os debates em relação aos partos extra-hospitalares…

Debato estas questões há 30 anos, e virtualmente há 16 anos. Já participei de “pegas” muito mais violentos na minha comunidade “Parto Humanizado” no falecido Orkut. Aquilo sim era baixaria. Todavia hoje em dia – graças à muita idade – eu não participo de nenhum debate em que o nível esteja abaixo do padrão mínimo de civilidade. Descobri que “caps lock” e gritaria é proporcional à falta de argumentos. Quando o volume da voz ou, no caso virtual, agressões “ad hominem” ocupam o lugar de argumentos bem construídos, é hora de abandonar o debate. Faço isso sistematicamente. Já fui atacado por todos os lados por ter ideias que muitas vezes agridem o “senso comum”, mas prefiro a impopularidade à falsa luz dos aplausos fáceis.

Se querem saber minha opinião franca a respeito do parto domiciliar, eu até posso expressar. Existem temas muito interessantes escondidos nos argumentos de todos os lados, e eles são uma amostragem bem interessante do nosso código social valorativo.

Primeiramente, esse NÃO É um assunto médico, da mesma forma que “aborto” também não é. Essa é uma questão HUMANA, em que a medicina tem uma visão a oferecer, mas que está pareada com muitas outras tantas visões, como a sociologia, a antropologia, o direito, a psicologia, a psicanálise e tantas outras quantas forem as abordagens possíveis de um fenômeno de múltiplas interpretações. O erro é chamar médicos para mostrar sua visão sobre o tema e lhes oferecer a “opinião definitiva”, como se eles tivessem um conhecimento superior sobre a totalidade do fenômeno, quando em verdade dominam apenas uma parcela desse conhecimento.

O que você diria, por exemplo, se um médico fosse chamado a opinar sobre “açúcar” e, a partir de um posicionamento da corporação, lhe proibisse (e todos os demais) de comer qualquer doce, baseado em pesquisas relacionando açúcar com obesidade, diabete e infarto? Acharia um abuso? Pois é assim que muitas mulheres se sentem a respeito dos médicos proibirem (direta ou indiretamente) mulheres de terem seus filhos no lugar onde desejam.

Os riscos relativos (pois que os absolutos são baixos até para cesarianas) de qualquer ação humana não podem regular isoladamente os procedimentos, sejam eles quais forem. Quer um exemplo?

Se você viajar de ônibus para São Paulo (não importa onde esteja) o risco relativo é MAIOR se compararmos a mesma viagem feita de avião. Pergunto: é justo proibir que as mulheres viajem com seus filhos de ônibus para São Paulo porque existe uma opção mais segura? Se você responder NÃO, então concorda com todas as pessoas que defendem o parto domiciliar, mesmo que conseguisse (o que é improvável) provar que ele é mais arriscado do que a modalidade hospitalar. Se você responder SIM, entre na justiça agora mesmo e quebre todas as empresas de ônibus interestaduais.

Assim sendo, avaliar riscos relativos é uma forma fácil de entrarmos em erro. A outra questão é própria do debate: não há sentido algum em considerar o parto como sendo um ato médico, pela mesma razão que a alimentação, a evacuação e a atividade sexual não o são. Portanto, oferecer a última palavra sobre sua alimentação, trabalho intestinal ou vida sexual aos médicos é um equívoco, pois muito mais existe nestas ações que possam caber na explicação fisiológica que os médicos possuem. O desejo sexual, o gosto pelos alimentos e a excreção obedecem ordenamentos do simbólico que estão muito além do entendimento orgânico que um médico pode oferecer.

A partir dessas considerações fica mais fácil entender que parto domiciliar, ou “parto no local de escolha da mulher“, tem a ver com direitos humanos reprodutivos e sexuais, mais do que qualquer outra coisa. Não é por acaso que as pesquisas prospectivas na Inglaterra demonstraram que se trata de uma opção segura, que pode ser estimulada entre as pacientes do sistema público de lá. Os ingleses não são tolos ou idiotas e, como diria Sting, “The brits love their children too“. Local de parto é um DIREITO de escolha da MULHER, e não do médico (que serve para aconselhar e orientar). Portanto, o médico deve acompanhar estas decisões soberanas de suas pacientes, como expresso nos códigos de ética médica de qualquer lugar do mundo.

Obstaculizar o acesso de médicos aos seus pacientes através de coerção, ameaças ou violências (explícitas ou implícitas) é um crime contra a liberdade de escolha e uma violência contra a autonomia. Qualquer ação nesse sentido deve ser repudiada em nome da democracia e da autodeterminação. Mais do que uma ação “feminista” (por proteger as mulheres e garantir a elas o direito de escolha) ela é uma agressão aos seres humanos, tolhidos da possibilidade de escolher seus valores e assim construir seu destino.

Para finalizar, melhor faria a corporação médica em se espelhar nas ações de grandes democracias europeias e regulamentar o parto extra-hospitalar, para que, assim debatido, ele pudesse ter os melhores resultados. Quantos resultados negativos nesta modalidade de atenção ocorreram pelo preconceito dos colegas ao receber uma transferência no hospital? Quantas vezes parteiras aguardaram mais do que deviam pelo medo da humilhação a que seriam submetidas por um sistema preconceituoso, fechado e que criminaliza as decisões soberanas tomadas pelos pacientes?

Para que as mulheres possam ter a máxima excelência na atenção precisamos nos desfazer de todos os resquícios de autoritarismo na atenção à saúde, ao mesmo tempo em que reforçamos a cidadania e a autonomia como valores fundamentais na assistência ao parto.

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