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Pensamento de Pobre

Passei boa parte da minha vida escutando a expressão “pensamento de pobre” para definir pessoas que tinham o costume de economizar em bagatelas, como comprar roupas de qualidade menor, pedir carona, comprar em menor quantidade ou simplesmente que deixavam de consumir para não gastar seu dinheiro.

Evidentemente, como em qualquer ação humana, essa postura é sempre acompanhada de infinitas racionalizações. Ora dizem que a marca genérica é igual à oficial, que não vale a pena gastar com supérfluos ou que não acham justo gastar tanto com algo que é possível viver sem. Quem critica este “Pensamento de pobre” afirma que se trata de um defeito de mentes constritas; um paraefeito da menos-valia. Apontam que esse pensamento constrói atitudes diminutas, tímidas, pequenas em sua amplitude, e que a conduta justa para uma alma ambiciosa é pensar sempre com grandiosidade e valor.

“Vou me dar de presente porque mereço“, falam aqueles cujas atitudes são opostas ao pensamento de pobre. Dizem que as coisas boas da vida são oferecidas àqueles que fazem jus a elas, mas que é responsabilidade de quem quer vencer buscá-las ativamente. “Pense alto, pense grande e permita-se fazer uso do que conquistou”, dizem estes. Eu compreendo muito bem a perspectiva de quem pensa positivamente e se acredita merecedor dos benefícios que podem ser comprados. Não posso dizer nada contra essa forma de enxergar a si mesmo inserido no mundo. Entretanto, sou obrigado a reconhecer que desde tenra idade cultivo o “pensamento de pobre”.

Reconheço pertencer a esta “corrente” sem nenhum constrangimento ou culpa, E mais: não se trata de defender dessa escolha, mas tão somente fazer uma confissão: meu pensamento foi sempre guiado pela lógica da escassez. Uso celular modesto, e sempre de segunda mão. Os poucos carros que tive na vida (com exceção de um que tirei num consórcio há 30 anos) eram todos usados. Minhas roupas compro muito baratas ou em “thrift shops” durante uma viagem. Não há “etiqueta” em nenhuma roupa que visto. Vivo em uma casa pequena e sem luxos e nunca me deixei seduzir pelo brilho das mansões, dos carros, das festas ou da opulência, mesmo quando ganhava muito mais do que a média dos brasileiros.

Digo isso sem qualquer vaidade, ensejando mostrar superioridade espiritual ou mesmo a correção de minhas ações. Não se trata disso, mas sim o reconhecimento de uma decisão subjetiva ligada à valores do inconsciente: nem pior nem melhor, apenas enxergo o mundo dessa forma. Suspeito que a escassez foi minha companheira em vidas passadas e que este traço se manteve nesta existência atual. Isso explicaria a tendência irrefreável de enxergar as coisas pela perspectiva da contenção.

Faço uma analogia com outras escolhas que fiz na vida. Minhas pacientes por vezes se assombravam com o fato de eu ter sido pai ainda muito jovem, mal adentrando a terceira década de vida. Perguntavam se eu achava melhor ter filhos mais cedo ou mais tarde na vida, e eu sempre lhes dizia que “o melhor momento é quando se quer”. Eu quis ser pai muito cedo, mesmo sem plena consciência disso, e por este fato sou muito grato, mas entendo perfeitamente quem prefere adiar esta decisão para celebrar uma juventude livre e sem amarras. Da mesma forma, entendo quem prefere usufruir de todas as coisas “compráveis”, acreditando que elas podem lhes trazer alegria e prazer. Não há erro algum em admirar o belo ou usar o dinheiro para garantir conforto e segurança.

Entretanto, como eu disse, não se trata de escolhas plenamente conscientes. Tanto quanto a escolha por uma gravidez prematura ou mais tardia, a opção por colocar alegria e realização nas “coisas” não é feita de forma racional, mas opera nos porões da mente, e sobre essa decisão não cabe nenhum julgamento de valor. De minha parte estou certo de que continuarei com o pensamento de pobre até o fim dos meus dias. Não creio que haja cura para o meu mal e, se houver, talvez o tratamento seja muito caro. Prefiro não gastar com isso.

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Pobreza

Não é pobre quem pouco tem, mas quem muito deseja“. Durante toda a minha vida fui atropelado por essa verdade escrita por Lucius Annaeus Sêneca, há 2000 mil anos. Muitas vezes testemunhei que a pobreza estava diretamente ligada ao querer, muito mais do que ao possuir. “Quem se dá bem na pobreza é sem dúvida o verdadeiro rico“, já nos ensinava o nobre escritor

Nosso sofrimento pelo escassez de recursos se dá pela multiplicidade dos nossos desejos que são, por definição, infinitos. Não há limite para o quanto desejamos, e o quanto de sofrimento esta falta irá nos atormentar. Por saber da qualidade relativa da escassez, eu brincava com meus filhos pequenos perguntando a eles “quem é mais rico, eu o o Silvio Santos?”. Eles achavam engraçada a pergunta mas eu explicava que a pergunta fazia sentido se a gente soubesse os desejos de um e de outro.

Por certo que falava dos desejos, e não das necessidades. Estas são aquelas não nos propiciam condições de viver: comida, abrigo, afeto, roupa. O resto é desejo.

Para evitar tanta força de não ter a regra seria desapegar-se e se afastar do aprisionamento inexorável dos desejos, como Gandhi e sua caneta, seus óculos, sua túnica e sua roca de fiar. Para o mestre, nada mais o encantava e prendia e acreditava que somente assim despossuído poderia ser livre.

Lembrei disso no dia que consertei meu carro velho com quase 20 anos de uso que se encontrava guardado na garagem há mais de ano, acometido por vários defeitos. Bateria, rodas, radiador e ar condicionado tiveram de ser trocados ou ajustados. Na primeira vez que saí de casa para a Comuna com meu carrinho velho “recauchutado no limite” percebi que meu orgulho era exclusivo de minha condição. Silvio Santos e Bill Gates estavam proibidos dessa emoção específica. Seu orgulho e satisfação eram reservados a outras coisas, mais caras e abrangentes, mas não a esta. Todavia, quem há de dizer que existem felicidades superiores e mais nobres? Essas só podem ser medidas pela régua do sujeito.

Meu neto Oliver me disse “Quero sair com o carro ‘novo’ do vovô.” Se o velho carro assim lhe parece, porque haveria eu de discordar?

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