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Luz

“Minha mãe foi um Flamboyant, sua árvore preferida. Uma planta frondosa e gentil, cuja copa robusta e larga sempre ofereceu sombra e proteção aos seus. Teve uma vida nobre e digna e cumpriu sua missão com coragem e dedicação.”

Provavelmente tudo o que sei passou pelo filtro da minha mãe. Nada mais natural que uma mãe seja a tradutora mestra dos significados do mundo para seus filhos. Minhas recordações mais antigas se referem a ela explicando coisas simples e banais do dia-a-dia, como o rótulo de um produto na mesa ou o que estava escrito em um outdoor na rua.

Minha mãe foi um produto do seu tempo, mas também pareceu ter passado incólume por uma revolução cujos significados e consequências estamos longe de desvendar por completo. Ela era uma mulher muito feminina, delicada, bela, recatada e do lar e tinha uma profunda devoção à família e ao seu companheiro. Desde o momento em que se casou assumiu o cuidado de sua casa e a tarefa de zelar pelos seus filhos, como faziam as mulheres atingidas pela maternidade nos anos 60.

Hoje é fácil notar o estranhamento que causa uma mulher se definir como “recatada e do lar”. Em uma sociedade que cultua o individualismo o cuidado do lar significa o cuidado com o “outro”, portanto o “descuido” de si mesma. O recato, inserido em uma cultura de exaltação do sujeito, coloca o pudor como defeito grave, a timidez como doença e a simplicidade como anomalia, dignas de serem extirpadas por terapias ou drogas.

Entretanto, havia algo na personalidade da minha mãe que me permitiu questionar valores desta cultura muito tempo depois de ter abandonado o calor reconfortante de suas asas. Minha mãe era uma “cuidadora”, na melhor acepção da palavra. Sua missão era cuidar de seus filhos e de seu marido, oferecendo a estes a melhor possibilidade de alçar voos mais grandiosos. Para ela nunca exigiu holofotes ou ribaltas; satisfazia-se com o brilho que conseguia vislumbrar naqueles a quem se dedicou.

Essa perspectiva de mundo foi muito importante para que eu pudesse entender algumas posições subjetivas que não são facilmente compreendidas em um mundo histérico e individualista. Muito cedo entendi que a função de um obstetra não deveria ser a de assumir o protagonismo dos nascimento. “Um obstetra não é aquele que brilha, mas o que reflete a luz que emana do nascimento“, já dizia meu amigo Max, com rara sabedoria. Não caberia a ele “fazer partos”, mas meramente estar ao lado, ajudar, auxiliar e cuidar – “ob stare“. Da mesma forma, não deveria ser esta a função das doulas, cuja ação reconfortante não permitiria brilhos, mas onde a doce presença infundiria confiança e tranquilidade.

Na homeopatia, ramo centenário da medicina, herdeiro das visões hipocráticas e vitalistas da arte de curar, o médico se situa na posição humilde de tradutor dos sintomas para sua posterior interpretação medicamentosa, mas sempre sabendo que a cura só se processa através do sujeito, sem o qual qualquer terapia é inútil e enganosa. Até mesmo a psicanálise – e seus silêncios – sugere a importância primordial de fugir da sedução inebriante da interpretação sagaz, relegando-se a uma condutora silenciosa da alma – um Caronte a levar à luz todo aquele que se aventura a encarar seu próprio inferno.

O exercício mais profundamente desgastante e tormentoso de qualquer sujeito é a supressão de seu Eu, já nos diziam as tradições milenares. Com minha mãe pude ver o sentido divino de diminuir sua luz para que ela não ofuscasse a dos demais. Com ela pude entender a importância de ser simples e reconhecer a grandeza de viver para exaltar a quem admiramos.

Viver para os outros, para fazê-los felizes, também é um ato de grandeza e amor. Este foi o exemplo máximo que recebi de minha mãe. Siga em paz e obrigado….

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Pobreza

Não é pobre quem pouco tem, mas quem muito deseja“. Durante toda a minha vida fui atropelado por essa verdade escrita por Lucius Annaeus Sêneca, há 2000 mil anos. Muitas vezes testemunhei que a pobreza estava diretamente ligada ao querer, muito mais do que ao possuir. “Quem se dá bem na pobreza é sem dúvida o verdadeiro rico“, já nos ensinava o nobre escritor

Nosso sofrimento pelo escassez de recursos se dá pela multiplicidade dos nossos desejos que são, por definição, infinitos. Não há limite para o quanto desejamos, e o quanto de sofrimento esta falta irá nos atormentar. Por saber da qualidade relativa da escassez, eu brincava com meus filhos pequenos perguntando a eles “quem é mais rico, eu o o Silvio Santos?”. Eles achavam engraçada a pergunta mas eu explicava que a pergunta fazia sentido se a gente soubesse os desejos de um e de outro.

Por certo que falava dos desejos, e não das necessidades. Estas são aquelas não nos propiciam condições de viver: comida, abrigo, afeto, roupa. O resto é desejo.

Para evitar tanta força de não ter a regra seria desapegar-se e se afastar do aprisionamento inexorável dos desejos, como Gandhi e sua caneta, seus óculos, sua túnica e sua roca de fiar. Para o mestre, nada mais o encantava e prendia e acreditava que somente assim despossuído poderia ser livre.

Lembrei disso no dia que consertei meu carro velho com quase 20 anos de uso que se encontrava guardado na garagem há mais de ano, acometido por vários defeitos. Bateria, rodas, radiador e ar condicionado tiveram de ser trocados ou ajustados. Na primeira vez que saí de casa para a Comuna com meu carrinho velho “recauchutado no limite” percebi que meu orgulho era exclusivo de minha condição. Silvio Santos e Bill Gates estavam proibidos dessa emoção específica. Seu orgulho e satisfação eram reservados a outras coisas, mais caras e abrangentes, mas não a esta. Todavia, quem há de dizer que existem felicidades superiores e mais nobres? Essas só podem ser medidas pela régua do sujeito.

Meu neto Oliver me disse “Quero sair com o carro ‘novo’ do vovô.” Se o velho carro assim lhe parece, porque haveria eu de discordar?

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