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Realidade em preto e branco

Copacabana, anos 70

Mais uma imagem que mostra o apartheid do Rio de Janeiro, e de resto o que ocorria em todo o Brasil. O Rio é uma cidade mestiça, com muitos negros e mestiços, mas a praia sempre foi de exclusividade dos brancos. Os negros e pardos aparecem nestas imagens apenas como serviçais, empregados, trabalhando onde os outros descansam e/ou se divertem.

Para aqueles que diziam não haver racismo nesta época eu apenas lembro que a expressão deste problema social só ocorre quando existe algum tipo de tensão e conflito. Nessa época havia a “paz do silêncio”, quando a questão racial era escamoteada e escondida. Até mesmo os negros sobreviviam se adaptando a uma sociedade que não foi construída para eles, de mulatas do Sargentelli a jogadores de futebol.

Cada um olha para essas imagens e extrai delas o que deseja. Eu não posso evitar o choque de ver a construção racista do nosso país. Não quero abrir polêmica, apenas lembrar do racismo em que vivíamos ao mesmo tempo que sofríamos a repressão de um regime brutal. As imagens concordam comigo.

Mas… sim, como era bom ser branco e de classe média no Rio dos anos 70.

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Arquivado em Pensamentos, Violência

Travessia

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Pouco passava das 7 horas quando iniciei minha tradicional caminhada entre Torres e Cidreira. O dia prometia ser quente e seco. Nenhuma nuvem algodoava o azul sobre minha cabeça. A pedra da Guarita mantinha-se no mesmo lugar que eu havia deixado de última vez que a vi. Abusadamente adentrando o Atlântico separa esteticamente a Rio Grande do resto do Brasil, como uma fortaleza. Do lado de cá a monotonia das praias retas e carentes de relevo. Do lado de lá a exuberância litorânea que o Criador ofereceu ao Brasil. Em compensação pelas nossas praias insossas elas estão curiosamente claras e limpas, o que não dá para afirmar dos nossos vizinhos catarinas.

Minha história com o “Caminho de Cidreira” começou há 36 anos. Munido de uma faca , duas laranjas, um boné e três dinheiros saí caminhando pela RS 40 em direção ao mar. A distância que separa Porto Alegre do oceano Atlântico é de 108 km. Imaginei que seguindo a “estrada da praia” mais cedo ou mais tarde chegaria lá. Não tinha mais do que 19 anos, estava começando a faculdade de medicina e não tinha feito nenhum planejamento. Impulso diriam alguns; cabeça oca, diriam outros.

A viagem foi muito menos extenuante do que eu imaginei. Nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor muscular insuportável. As benesses da juventude, o vigor, o ímpeto, as carnes duras. O sol não maltratava; era companheiro. Aliás, num mundo sem celulares e sem internet, só a brisa, o barulho dos carros e o sol me mostravam o caminho adiante.

Na primeira noite dormi no banco da faculdade de agronomia, mal saindo da cidade e ingressando em Viamão. A caminhada fora tão mal planejada que sequer os melhores horários foram escolhidos. A segunda noite, dormi em um galpão abandonado ao lado de um posto de gasolina. Na terceira noite…. não dormi. A excitação de finalmente encontrar o mar foi tanta que continuei caminhando madrugada adentro, chegando na Praia do Pinhal quase ao amanhecer. Sim, eu também cresci visitando a casa da dona Vera, que viria a ser minha sogra já falecida. “Mas agora o Pinhal, não tem mais a gente lá, e eu volto pra lembrar, que a gente cresceu, na beira do mar”, como diria a música, do Cidadão Quem, muitos anos depois. Voltei de ônibus pagando dois dos três dinheiros que eu tinha. O resto do dinheiro gastei com água e pastel.

Na volta encontrei minha mãe preocupada. “Que houve com seu cabelo?”, perguntou. A parte que saía para fora do boné estava queimada e com uma cor estranha. Olhei no espelho e achei bizarro. Resolvi descolorir o cabelo inteiro com água oxigenada, que era a coisa mais gay que a um menino hetero era autorizado fazer. Em minha opinião ficou “tri”, mas não gostaria de ver nenhuma foto minha daquela época.

Quando completei 40 anos de vida resolvi repetir o sonho da juventude. Desta vez com menos vigor e mais planejamento decidi que ao invés de caminhar pela estrada meu trajeto seria acompanhando a linha do mar. Saindo de Torres meu destino final seria a 120 km de distância do ponto inicial, na praia de Cidreira, cidade irmã de Pinhal, que muito frequentamos nos anos leves da adolescência. Desde então tenho feito a caminhada sempre que consigo uma brecha na agenda de nascimentos. O menino que se jogava de janelas continuava inquieto. Agora, 36 anos depois eu voltava a olhar a Pedra da Guarita para mais uma travessia.

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