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Almas gêmeas

Li esta resposta a um questionamento sobre o sexo objetificado na cultura contemporânea:

“O sexo objetificado e coisificado pela padronização do erotismo, tratado como mercadoria, é vendido como estereótipo, camuflando qualquer *relação verdadeira de afeto*. Os encontros resumem-se ao desejo de adquirir um produto, algo distante do sentimento de pertencimento mútuo.”

Hoje em dia, com as relações mais livres e frouxas, derivadas – entre outras coisas – das conquistas do feminismo, achamos que as relações são “objetuais”, ‘interesseiras” e “superficiais”. Em verdade, a sexualidade sempre foi um acerto entre interesses, as vezes explícitos mas quase sempre inconscientes.

Por seu turno, “relações verdadeiras de afeto” são criações contemporâneas e nada tem a ver com sexo, que serve basicamente à reprodução e – exatamente por isso – é prazeroso. Unir afeto com sexo é um artificialismo criado pela cultura há pouco tempo, com o surgimento do amor romântico. Dizer que amor e afeto “deveriam estar unidos” é um ideia bonita, mas não tem nada a ver com a nossa programação.

Em verdade, “se amor existe, é o sentimento de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, como diria Freud. O amor é, por certo, a fissura bizarra da estrutura cósmica, o inesperado e não programado sentimento que surge pela debilidade do feto humano ao ser expulso do ventre materno antes do devido tempo de maturação. Sua “altricialidade” – a dependência do cuidado alheio – produz reciprocamente os sentimentos maternos de afeto que constituem a base da nossa estrutura psíquica, e o que nos joga inexoravelmente no universo do desejo.

Imaginar que a novidade da estrutura de sexo conectado com amor seja o fim último de ambos sentimentos é uma crença arriscada. Determinar o fim do “projeto sexual da humanidade” – o pertencimento de um pelo outro – é tão apressado quanto decretar, na economia, o “fim da história”. Se deu errado com Fukuyama, porque daria certo com as uniões afetivas humanas?

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Lactofilia

Vênus de Willendorf, cujas mamas voluptuosas mostram que nossa atração por elas é tão antiga quanto a própria humanidade

A questão se torna sempre delicada exatamente quando grupos que defendem as mulheres respondem até com violência a qualquer insinuação de que a amamentação faz parte do arsenal erótico feminino. Associar amamentação e prazer é uma espécie de tabu que ainda resiste em nossa cultura.

Por outro lado, o fato de um homem (ou mulher) ter fixação erótica em mamas ou mesmo em mamas com leite, ao meu ver não tem nenhum problema ou “pecado” envolvido. Os objetos de desejos e as fantasias não são boas ou ruins, são manifestações do inconsciente. Para mim são como podolatrias (pés), adoradores de nádegas, de cabelo, mãos, sapatos, etc. São fetiches (uma parte que sintetiza o todo) inofensivos e naturais.

O que pode ser questionado é quando existe a “passagem ao ato” e este se torna inoportuno para quem está produzindo leite. Se um homem (ou mulher) se excita com leite jorrando de sua parceira, namorada ou amiga e esta prática é consensual, qual poderia ser o problema? Qual o pecado poderia existir pela excitação ligada à vivências remotas da infância??

Nenhuma, eu creio. Entretanto, se essa busca de satisfação implica em abusar, constranger, enganar, expor indevidamente ou importunar mulheres lactentes… aí se torna um ato inadequado e até punível pela lei. É nesse momento que uma fantasia pode se tornar crime, e só a partir desse ponto.

Aparece nessa temática, mais uma vez, a luta – ao meu ver equivocada – de alguns grupos contra a objetualização da mulher. Ora, mais uma vez eu digo: não há nada de errado em objetualizar o corpo da mulher, visto que o erotismo masculino é mesmo de caráter objetual. O problema está em REDUZIR a mulher a um corpo a serviço do prazer masculino, desconsiderando suas dimensões subjetivas, inclusive – e principalmente – sua própria sexualidade.

Assim, a lactofilia seria danosa quando – como qualquer outra expressão da fantasia sexual humana – não levasse em consideração o OUTRO, no caso a mulher, desprezando seus sentimentos, emoções, integridade física, e direito à privacidade. Enquanto fantasma do desejo humano, entretanto, a lactofilia é como qualquer outra expressão da sexualidade. Não há como criticá-la em termos morais, pois que se situa além desses valores.

De resto, a análise histórica do desejo pelas mamas é sempre necessária e correta. Somos fixados nas mamas pois que elas representam a continuidade da vida humana e significam nossa sobrevivência. Nada mais compreensível que fetichizá-las.

Os americanos tem uma cultura muito mais “mamófila” do que a nossa. Aqui, creio que pela “abundância” de africanos falantes do kimbundo – de onde veio a palavra “bunda”, de “mbunda” e com esteatopigia (uma mera suposição, claro) – somos muito mais “bundofílicos“. Mas, do ponto de vista antropológico, faz todo o sentido esta veneração à sublime arquitetura das mulheres, pois ambas exaltações das partes femininas nos levam à origem da proteção da vida. Ancas grandes para partos fáceis e muitos, além de mamas profusas e fartas para amamentar nossos filhos com o leite que carregam.

Querer criminalizar este olhar masculino sobre o corpo das mulheres além de inútil agride as próprias forças libidinais que nos trouxeram até aqui.

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