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Informações perigosas

Minha tese a respeito das investigações é simples, e tem a ver com os estados psíquicos induzidos pelas informações. Para mim, a comunicação – em especial tudo o que dizemos aos pacientes – TAMBÉM contém riscos. Uma informação inútil pode se tornar algo extremamente perigoso.

Por exemplo: quantas vezes atendi partos em que a única avaliação do tamanho do bebê havia ocorrido pela palpação, ou por uma ecografia bem precoce. No dia do parto… tóóóóin, nascia um bebezão de 4.400g. Pois eu pergunto: como se comportariam TODAS as pessoas envolvidas no parto – incluindo mãe, família e equipe – na presença de uma ecografia apontando um bebê de 4800g (imaginando que a ultrassonografia erre por 10%)? Que tipo de resiliência a uma parada de progressão haveria no transcurso do trabalho de parto? Que tipo de paciência haveria diante de um período expulsivo prolongado? Quanto sobraria de confiança a esta mulher e seu companheiro diante da sentença “fatídica” de um bebê “enorme”?

Pois agora respondam o que aconteceria a uma mulher cujas mamas foram “avaliadas” pela sua possível capacidade (ou não) de produzir leite ANTES de estar efetivamente amamentando. Que mulher investiria na continuidade da amamentação diante de uma avaliação “preocupante”? Quem insistiria em um projeto de amamentar com um rótulo grudado no peito dizendo “mamas incompetentes”? Quem se manteria firme ao ver surgir a primeira fissura ou ao ver que seu bebê que não entra na curva de crescimento da pediatra?

Façam o seguinte: avaliem meninos de 15 anos de idade para saber seu o pênis deles vai funcionar adequadamente quando tiverem relações sexuais. Não precisa nem dar nota, basta olhar, examinar e depois coçar o queixo dizendo: “hum, não sei não. Acho que está bom, mas vamos ver”. O que acham que ocorreria?

Eu digo: uma explosão no diagnóstico de impotência. Ou… um aumento vertiginoso nas vendas de Viagra ou até mesmo de tratamentos para aumento de pênis. E talvez UM em 100.00 tivesse realmente um problema verdadeiro relacionado à sua capacidade de ter relações sexuais satisfatórias relacionada ao seu pênis. Desta forma, essas avaliações são SEMEADURAS DE INSEGURANÇA, mas que nenhuma vantagem produzem.

No caso das mamas, se houver uma (raríssima) incapacidade de produzir leite, que diferença faz saber durante o pré-natal? O que esse diagnóstico presuntivo ajudaria esta mãe? O mesmo eu digo das ecografias invasivas e suas informações inúteis, que quase só disseminam pânico, e nenhum benefício. As vantagens para os profissionais e o sistema capitalista nós já sabemos, mas qual a vantagem para os pacientes?

Tetas erradas = bacias erradas. Fazer diagnóstico de ambas “de olhada” é um erro. E esse erro vai transmitir à mulher (mais) uma mensagem de sua longa lista de defectividades culturalmente determinadas. Também vai dar a ela uma excelente oportunidade para desistir na primeira dificuldade. “Afinal, não tenho mesmo passagem, ou minhas tetas são atrofiadas. Para que insistir?”

E mais… “Toda mãe sabe parir e todo bebê saber nascer”. Sim, mas nem todos sabem interpretar essa frase, porque parimos e nascemos antes de termos qualquer consciência disso. Portanto, parir e nascer são coisas que “sabemos” muito antes de termos condições de racionalmente “saber”.

As falhas não ocorrem por falta de “saber”, mas talvez pelo oposto: criar expectativas e racionalizar sobre um fato pulsional e automático, sobre o qual quanto menos a mulher racionalizar, melhor ocorrerá.

Uma breve história: conheci um paciente de quase 70 anos no estágio de urologia da residência médica, o qual veio ao hospital para operar uma hipospádia. Isto é; a uretra saía no meio do pênis, para baixo, e não na ponta. Com isso ele urinava para o chão e tinha um pênis muito encurtado.

Enquanto fazíamos a avaliação pré operatória, meu colega (ingênuo e desatento) lhe perguntou: “Por que o senhor não veio antes? Digo, há muitos anos mesmo. Poderíamos consertar isso e o senhor teria uma vida normal, com filhos e tudo”.

Quando ouviu isso o “colono” acostumado com a lida da roça respondeu com o sotaque alemão característico e de forma rude:

“Filhos? Pois eu tenho 6, com 3 mulheres diferentes. E não estou pensando em parar”.

Se alguém tivesse lhe dito que não podia, ou que era insuficiente, talvez não fosse tão fértil. Oferecer ajuda é diferente de induzir anomalias onde ainda não existe nenhum problema real.

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Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

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Sobre as Tetas

ACER

Historias curtas de Porto Alegre….

Aconteceu enquanto almoçava solitário em um restaurante de Porto Alegre.

Uma senhora desconhecida se aproxima de mim enquanto eu estava terminando meu almoço. Com olhos arregalados, boca de um vermelho vivo e brincos extravagantes, ela coloca a mão no meu ombro e com olhar severo me diz:

– Você é o João Vicente, não é?

Ainda tenho tempo de terminar minha última garfada e, claramente surpreso, respondo:

– Olha, infelizmente não. Eu me chamo Ricardo.

Ela fica desconcertada e me enche de desculpas. Diz que estava me olhando há alguns minutos mas que tinha “obrigação” de me perguntar quem eu era. Eu, também sem jeito, resolvo ser simpático e lhe digo:

– Não se recrimine. Esse João Vicente deve ser um jovem senhor muito charmoso também. É natural que as pessoas se confundam assim.

A senhora dá uma boa risada e me explica:

– João Vicente é meu sobrinho, filho da minha irmã, e ele é a sua cara. Incrível como são iguais! Na verdade eu estava furiosa porque achei que ele estava esnobando sua velha tia.

Sorri para ela amistosamente e disse que nenhuma pessoa em sã consciência esnobaria uma senhora tão charmosa e chique, muito menos um sobrinho.

Mais uma gargalhada e ela arrematou.

– Muito verdade, Ricardo. Imagina só, mamou nessas tetas e agora me esnoba!!

Bateu forte com a mão espalmada nos seios fartos e saiu caminhando. Eu só olhei para o lado e baixei a cabeça, com esperança que ninguém tenha escutado pela metade nossa breve conversa.

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