Psicanálise e Medicina

Freud-Hahnemann

Freud e Hahnemann

 

– É dos ‘nervos’, doutor.

Coloca a mão fina sobre o abdome encovado e sua face nos expressa sua dor. Ao procurar ajuda já traz consigo a clara noção de que seus males se originam de algo além do seu corpo físico; algo que se esconde por detrás do meramente manifesto. Apesar do gesto simples, sua atitude nos remete a um enigma que persegue pesquisadores, cientistas, médicos e místicos pelo transcurso dos milênios. As doenças “nervosas“, os males psicológicos ou “de fundo emocional”, nos desafiam a criatividade e a inteligência desde que pela primeira vez um homem esteve preocupado com a saúde e o bem estar de seu semelhante. Mesmo que a vinculação entre transtornos psicológicos e físicos seja moeda corrente em diferentes lugares, de simpósios médicos a conversas de bar, sua estrutura íntima ainda é alvo de discussões acaloradas em qualquer nível de debate. Onde afinal esconde-se a tênue linha que separa (ou liga) o sintoma cru em sua manifestação física mais clara e evidente das interrogações e sofrimentos da alma?

Das vertentes ocidentais terapêuticas, a psicanálise e a homeopatia são as duas especialidades clínicas que entendem o sofrimento humano como produtos de elaboração interna, sendo portanto chamadas de “modalidades endógenas de tratamento”. Ambas as práticas entendem os fenômenos de adoecimento como sendo produzidos “dentro” do indivíduo doente, e não como processos adquiridos do exterior. Assim sendo, reconhecem no sintoma muito mais do que um desacerto ou um desconforto de níveis variáveis. Mais do que uma mera leitura superficial de achados clínicos, buscam o significado mais profundo dos mesmos. Para encontrar o fino laço de união entre sintomatologias ilusoriamente apartadas, é fundamental o entendimento de pressupostos fundamentais: na psicanálise a noção de inconsciente, que tem na homeopatia seu equivalente na ideia de “energia vital”. Sem o conceito de uma ultraestrutura que governa nossas condutas antes do acesso ao racional é impossível entender a sintomatologia psíquica, como muito bem nos elucidou Sigmund Freud no início do século XX. Entretanto, os sintomas físicos também existem em função de uma causalidade, com razões muitas vezes obscuras, mas que são passíveis de investigação e reconhecimento através de uma abordagem ampla e integrativa. A forma de entender esta causalidade é através dos desequilíbrios dinâmicos da energia vital, que a homeopatia elaborou e incrementou.

A psicanálise vai procurar as ligações do sintoma psicológico com os desafios encontrados no processo adaptativo primitivo do paciente, nas suas relações afetivas, sexuais e emocionais com o mundo que o cerca. A homeopatia, criação do médico alemão Samuel Hahnemann no século XVIII, tentará descobrir no próprio sintoma trazido à consulta pelos pacientes o mapa condutor de sua cura, através da tradução dos mesmos em “linguagem repertorial” e no enquadramento do paciente dentro de modelos específicos de adoecimento. Desta maneira, o biotipo, a história pessoal e a sua carga genética serão fatores preponderantes na compreensão de cada caso individual. Por esta razão a homeopatia é também chamada de “medicina do sujeito”.

No processo terapêutico, ambas as modalidades trabalham com um conceito de “similitude”. A psicanálise irá aprofundar-se na própria angústia do paciente, fazendo-a brotar na palavra durante a consulta analítica. A cura se dará através do discurso, pela verbalização e na reorganização de núcleos inconscientes de sofrimento. Na homeopatia, por sua vez, o processo terapêutico ocorrerá através da utilização de um medicamento homeopático o mais assemelhado possível ao próprio conjunto de sintomas dos pacientes, utilizados como sinalizadores e norteadores, onde o medicamento homeopático agirá como estimulador das capacidades internas de reorganização e cura.

A cooperação e interdisciplinaridade entre os profissionais de ambas as áreas é que nos possibilita um entrelaçamento entre o que o paciente nos conta como sofrimento psicológico e o que percebemos como sintoma orgânico. Desta forma holística e integrativa, é possível entender de uma maneira mais ampla o sentido e os significados do ser, do destino e da dor, e através disso encontrar o melhor caminho de cura para cada pessoa.

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