Com o seu bebê ainda manchado com as cores do nascer, aconchegado em seus braços, recém inflando de ar os pulmões úmidos, ela tem o gosto doce de um parto veloz nos lábios. Atônita, ela se vira para mim e fala, entre confusa e incrédula:
– É muito louco, sabe. Quando sai a cabeça do bebê e parece um boneco, mas é um ser humano. E aí vem o resto e é vivo, se mexe e respira. É uma pessoa!!Tudo isso é muito maluco. É incrível…
Sorri da sua surpresa. Para ela uma aventura inesquecível e uma emoção corporificada, marcada no corpo; uma agitação dos sentidos. Para mim a reafirmação do mistério, do inacessível e do oculto.
– Se para você é “muito louco”, imagine o que eu sinto. Loucura é a mais suave das definições. Viagem, barato, êxtase… não importa; qualquer palavra será sempre insuficiente para descrever o indescritível.
Sobre o texto que andou rolando pela Internet a respeito de “partos animalizados”…
Primeiramente o nome já demonstra o preconceito tolo e infantil com a nossa condição animal. Talvez para o autor suas cesarianas sejam “partos angelicais”, feitas em uma espécie que transcendeu sua essência biológica e que não necessita mais passar pela “brutalidade” de contrações e dilatações. Acho apenas que tal ideia entraria em discordância com uma dupla de pesquisadores chamados Darwin e Wallace no que diz respeito à nossa hereditariedade animal. Aqui, no próprio título, faltou estudo e deixou-se de oferecer uma visão mais ampla do nascimento, além de desmerecer a importância de respeitar a nossa fisiologia, sim, “animal”.
Quanto ao texto eu consegui ler até a metade… parei quando li a defesa da episiotomia. Eu acho que existem muitos argumentos razoáveis para combater a humanização do nascimento, principalmente em relação ao ativismo. Não somos anjos e muito menos infensos a falhas e equívocos. Entretanto este texto tem erros lógicos muito grosseiros, por demais primários, que demonstram um desleixo importante com o estudo da matéria.
Este é mais um artigo escrito com 15 anos de atraso. Essa era a retórica de quando começamos a debater humanização do nascimento nos congressos do final do século XX. Falávamos do termo “humanização” e da sua conexão com o movimento chamado “humanismo”, que se inicia a partir do século XIV, que coloca o “homem no centro de todas as decisões“, além de reconhecer os valores greco-romanos de beleza e “perfeição” humanas, em oposição ao pessimismo das teocracias. Entretanto, o autor se mantém fixado na taxonomia, com mais de uma década e meia de atraso, ao acreditar que “humanização” é uma “obviedade” porque se refere ao gênero “humano”. Este é um erro que não se justifica mais. Talvez ele precise avisar o “HumanizaSus” para trocar de nome também.
As críticas à humanização existentes no artigo são primárias demais para receberem respostas. Como eu já disse, existem críticas pertinentes e debates em aberto, mas não cabe mais questionar o nome do movimento ou fazer apologia a cirurgias ritualísticas e mutilatórias como as episiotomias. Isso já foi deixado de lado, já viramos esta página, e os articulistas precisam estudar antes de se manifestarem. É preciso conhecer o assunto antes de produzir uma opinião, caso contrário teremos apenas leviandades e irresponsabilidades.
Tudo o que vejo é um franco atirador disparando de uma sacada com balas de festim. Não acerta nada, não fere os princípios norteadores de nossa causa, mas fica fazendo barulho. Os desavisados, ao escutarem os estopins, pensam se tratar de uma batalha. Todavia, com o tempo perceberão que para enfrentar um movimento baseado em provas e ciência precisarão ter muito mais “balas na agulha”.
Quando nós questionamos as razões para a existência de lugares sombrios como o “dignidade médica” que tanto produziu de discurso de ódio, racismo e intolerância é importante entender que tipo de maquinário produz os médicos deste país e qual a matéria prima do qual são feitos. O “trote” universitário talvez seja apenas o plano visível de uma estrutura gigantesca cuja finalidade é manter e disseminar os valores mais conservadores de uma sociedade.
Como um gigantesco e penoso “moedor de carne” – no dizer do meu colega Max – a universidade destrói os alicerces que sustentavam o(a) menino(a) que emerge perdido(a) e temeroso(a) nos caminhos tortuosos do campus. Infelizmente, para uma enorme parcela dos estudantes, a rebeldia juvenil dá lugar a um conformismo e a uma postura altiva e pedante, apenas alguns anos passados do ingresso na escola médica. O que era inquietude vira certeza, o que um dia foi cooperação vira disputa e os sentimentos mais nobres que nos impulsionaram um dia a instrumentalizar a fraternidade se transformam em exercício de poder e preconceito de classe.
O trote serve como ritual de passagem para o convívio na universidade. Como bem nos esclareceu Robbie eles são repetitivos, padronizados e simbólicos e nos levam direto aos códigos valorativos profundos da cultura. Neste caso eles mostram a face mais feia e distorcida de uma sociedade excludente, racista, homofóbica, preconceituosa e alienada dos valores mais nobres da arte de curar.
Pensando bem, creio que humanos que não são “direitos” – de acordo com nossa lógica branca, europeia e capitalista – não merecem os direitos que as pessoas de bem possuem. Direitos humanos devem ser preservados apenas para aqueles que se comportam bem, de acordo com critérios que as próprias pessoas de bem estabelecem. Sendo assim, aqueles que não se adaptam à estratificação social e se rebelam contra a ordem estabelecida são sub-humanos.
Da mesma forma como criamos gado para abate, essas pessoas, que se situam abaixo da linha de humanidade, também podem ser abatidas se não forem mais úteis para a humanidade (nós). Eliminar os “não direitos” deixa, portanto, de ser assassinato, ou mesmo crime, e passa a ser “eliminação”. Podemos também chamar esta retirada compulsória do nosso convívio como “retirement”, aposentadoria, como em Blade Runner.
Certo?
Não. Sem entender que a condição humana precede qualquer aspecto moral – e que o resguardo dessa condição é o fundamento da civilização – nada teremos além da barbárie institucionalizada, uma sociedade divorciada dos seus princípios mais fundamentais de igualdade, solidariedade e fraternidade
Direitos humanos para humanos sujeitos. Cláusula inegociável da civilidade.