Arquivo do mês: janeiro 2016

Obstetras de Cristal

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No filme Matrix o personagem Tank (Marcus Chong), diferentemente de vários outros personagens da trama, não foi resgatado dos tanques que mantinham vivos os organismos humanos na vida virtual do grande programa chamado Matrix. “Born and raised in Zion”, exclama um orgulhoso Tank, cuja parte posterior do pescoço não exibe – como Neo, Morpheus e os demais – a cicatriz de acoplamento com a máquina de conexão à Matrix.

Tank já havia nascido em liberdade. Sua conexão com o mundo é real, e não filtrada por um sistema de crenças que o leva a crer como reais as construções ilusórias de um mundo artificial. Não é necessário um “cabo de dados” para o mundo de fantasia; sua consciência o conecta com uma realidade mais pura e verdadeira.

Todos os profissionais da humanização do nascimento que conheci na minha trajetória de 30 anos precisaram ser resgatados da Matrix Obstétrica. Acostumados a ver como reais a defectividade feminina, a incompetência essencial da mulher e a ritualística que se extrai dessa mitologia, após muitos anos de hibernação foram despertos do sono tecnocrático pela ação de elementos catalisadores: o nascimento do próprio filho, a gravidez, o luto, o êxtase inesperado ou uma singela paciente acocorada no fundo de uma sala de exames. Para cada despertar eu consigo ver um sujeito que “doulou” esta metamorfose; no meu caso, Dr. Moyses Paciornik. Para outros um professor, um palestrante, um mestre ou um paciente.

Contrariamente ao que se poderia imaginar pela firme vinculação da humanização do nascimento com a medicina baseada em evidências, estas transformações nunca ocorrem no terreno da razão; elas são fruto de uma maturação lenta e silenciosa do universo afetivo do profissional. É deste caldo emocional que surge a transformação, que só depois será aperfeiçoada pelo conhecimento e pelo estudo.

Entretanto, depois de três décadas observando alguns poucos obstetras se rebelando e sendo resgatados da nossa Matrix pela primeira vez na história começam a surgir os “obstetras de cristal”. Acho interessante esta forma de perceber os colegas da obstetrícia que não precisam ser resgatados, pois que algo suficientemente intenso ocorreu durante a sua formação, na graduação ou na residência, que os impulsionou diretamente para os valores do humanismo antes de serem tragados pelo moedor de carne da tecnocracia médica.

Para alguns, um parto humanizado que assistiram. Para outros um vídeo de parto. Em algumas profissionais foi sua própria experiência de parto que lhe permitiu sentir na carne o nascimento, antes de usar sua arte em outras mulheres.

Com sentimento, emoção, apuro e preparo técnico, muito além de serem apenas operadoras robotizadas, os(as) “obstetras de cristal” (uma alusão às crianças de cristal, seres da “nova era”) podem assumir-se humanos completos, sem abrir mão de suas qualidades afetivas ao realizarem a nobre tarefa de estar ao lado. E o fazem de uma maneira que sua presença não danifique a delicada tessitura de que é feito um nascimento.

Muitas experiências já estão em andamento no Brasil, como os alunos que já saem da sua formação orgulhando-se de não fazerem episiotomias de rotina, e reconhecendo a importância de proteger o parto normal. Precisamos ampliar o espectro desse novo paradigma, para que seja possível criar um exército de novos profissionais que se orientem pelas luzes do protagonismo garantido às mulheres, a visão integrativa do parto e sua vinculação com a ciência.

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Bom Humor

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Bom humor no CO do hospital.

Sábado à tarde, 40 graus à sombra, Porto Alegre vazia e incandescente. O obstetra entra no CO, cumprimenta a enfermeira, suspira com desânimo e exclama:

– Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, eu podia estar sequestrando, mas estou aqui atendendo parto no verão.

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Traças

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O Brasil foi tomado no último ano por um enxame de traças fascistas, que insistem em corroer o tecido social com seu discurso de ódio inflamado. Hibernantes no grande armário das elites nacionais desde a decadência do regime militar em meados dos anos 80, elas retornam com toda a força, destruindo a fina camada de civilidade que nos encobre. O ódio envelhecido em barris de ressentimento ressurge mais ácido do que nunca, principalmente pela emergência no cenário nacional de um contingente de brasileiros outrora invisíveis – ou quando muito vestindo uniformes brancos. As babás, os pedreiros, agricultores e funcionários saíram do anonimato e invadiram escolas, aeroportos e universidades, e isso é inaceitável para aqueles que se negam a admitir a dimensão do Outro. Os fascistas saíram do armário com uma fome de mais de 30 anos, e deixaram claro que o fim das liberdades, a exclusão, o preconceito e o racismo farão parte do seu discurso aberto e sem limites, de agora em diante.

Como diria a antropóloga Márcia Tiburi, autora do livro “Como conversar com um fascista“:

O fascismo é o ódio ao outro – nas variadas formas de negação, repressão, recalque, esquecimento, preconceito, agressão, violência simbólica e física – transformado em norma política.

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Esperança

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Tiro uma calça pendurada no calceiro e visto apressadamente antes de sair para o trabalho. Coloco a chave do carro no bolso da frente, a carteira no bolso posterior direito e, quando estou ajustando a calça, percebo um papel no bolso do outro lado.

Coloco a mão no bolso chapado de trás e mexo delicadamente o papel. Sinto a textura e o tamanho. O som do papel especial produz um barulho característico e inconfundível. O papel dobrado em dois roça em si mesmo sob a pressão dos meus dedos e sinto as pequenas irregularidades de tinta em sua superfície. Meu coração dispara e penso que hoje deve estar reservado um grande presente do universo.

Fecho os olhos e volto minha cabeça para o alto, enquanto minha mente em profunda oração silenciosa diz para si mesma: “cinquenta, senhor, cinquenta…”

Chega o momento da verdade e minha mão sai do bolso trazendo a pequena folha dobrada. Trago para a frente dos olhos, que se mantém fechados, em profunda conexão espiritual com as forças que comandam a prosperidade cósmica.

As pálpebras se abrem lentamente e a cor do papel se mostra com vagar.

Mas…. é azul o que o destino me ofereceu. Não é cinquenta; é dois.

Eu pergunto aos crentes e crédulos: Onde está Deus agora? Depois de todas as minhas preces é mesmo meio cafezinho a totalidade do meu merecimento?

Que papelão, meu Deus.  Depois reclama quando fazem marchas por Satanás..

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Dilma

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Minha postura diante do quadro político atual não pode ser traduzida com simplismo como sendo uma atitude “pró-Dilma”; eu prefiro acreditar que se trata de uma posição pró democracia e objetivando uma abertura de conceitos. Já estive em muitos países onde as pessoas me perguntavam – com vivido interesse – sobre o presidente Lula e suas conquistas (para eles surpreendentes e impressionantes) no combate à miséria e à fome. Eu explicava que apesar de concordar com essas conquistas, ele sempre sofreu um ataque muito forte dentro do país, ao que meus amigos de fora sempre diziam: “Deixa eu ver se adivinho. Ele é criticado pelos conservadores, a classee média e os ricos; os que nunca passaram fome. Certo?”. E eu sempre respondia que sim.

As marchas contra Dilma, e as manifestações contra Lula vem SEMPRE dos mesmos lugares: a mídia monopolista (6 famílias), a classe média insatisfeita com a invasão alienígena, os economistas que estão sempre errando suas previsões e alguns críticos bem intencionados e conscientes. Todavia, estes últimos são fáceis de reconhecer: nunca usam adjetivos, não falam “Luladrão” ou “Dilmanta”, criticam as ações do governo com argumentos e sem “caixa alta”, não atacam a honra, não se baseiam em boatos de Friboi ou Jatinhos, não citam Olavo (porque acham que existem críticos com mais decência), não aceitam Impeachment, não tem indignação seletiva, reconhecem que o chamado “Petrolão” não tem partido, são críticos TAMBÉM à FHC e à Privataria, sabem o que é “trensalão”, reconhecem a barbárie de Alkmin e Richa contra professores, alunos e manifestantes e são educados ao ler ou ouvir um contraditório.

Minha defesa de Dilma a é oferecer um contraponto à tentativa de destruição de uma mulher honrada e honesta, o que é reconhecido até pelos seus piores adversários (como FHC). Minha intenção é aclarar o que significa fazer um governo para os OUTROS brasileiros, os outros 80% que sempre foram negligenciados no Brasil. Os pobres, negros, favelados, nordestinos, miseráveis e marginalizados pelas políticas públicas. É mostrar a importância da transposição do Rio São Francisco e a ferrovia Transnordestina para a integração do nordeste, porque a grande imprensa nunca mostra essas obras. É esclarecer a importância da dignidade de cada brasileiro, e nao apenas daqueles que podem comprá-la.

Como diria meu irmão Roger Jones, eu sinto saudades de criticar o presidente (como eu fiz com Lula) pois agora isso se torna impossível pelo clima golpista e canalha que as elites estabeleceram no Brasil, procurando um terceiro turno onde poderão ganhar na marra. Logo partindo do PSDB, o partido mais corrupto do Brasil, segundo o ranking de políticos cassados. Eu sinto saudade de debater política sem ameaças de rupturas institucionais que manchariam exatamente esta imagem positiva de estabilidade democrática que o Brasil alcançou lá fora pelo extermínio da fome e pelo sucesso do bolsa família.

Espero que seja possível voltar a ter debates saudáveis e discussões propositivas, quando aqueles que foram derrotados nas eleições assumirem suas falhas e começarem a fazer oposição ética e digna.

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