Arquivo do mês: novembro 2021

Mamas?

Aqui está outro debate que coloca algumas ideias culturalmente disseminadas contra a parede e exige delas coerência. A primeira ideia que surgiu como comentário na matéria acima foi a condenação da “amamentação do marido” porque “a sociedade erotiza os seios e a própria amamentação”. Outra crítica que retirei da seção de comentários da revista é que as mamas tem uma função nutricional, e que seu uso para além dessa tarefa seria uma “profanação” e uma “perversão”. A terceira crítica curiosa foi “podem fazer, mas longe da minha visão. Que o façam entre 4 paredes, não precisa esse exibicionismo”. Lembra alguma coisa?

Meu corpo minhas regras, não? Cada um é responsável pelo seu prazer, certo? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, ok? Entre quatro paredes tudo é válido enquanto consensual e feito entre adultos, combinado?

Coloquei uma penca de clichês sobre corpo, sexo e amor consensual. Faltou algum?

Creio que o mito da “amamentação angelical” precisa ser questionado e desafiado na mente das pessoas, em especial das mulheres. Aliás, as críticas a este relato foram todas colhidas de mulheres, que me pareciam fazer uma espécie de defesa através da denegação. Assim, se já temos maturidade suficiente para entender que “parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, por que insistimos em retirar a amamentação dessa categoria? Por que esterilizamos o ato de amamentar, retirando dele seus óbvios componentes eróticos? Por que insistimos em negar para as mamas e para a amamentação seus óbvias conexões com o prazer? Se as mamas não fossem eróticas, não seriam tão bem escondidas do nosso olhar…

Quanto aos aspectos nutricionais Freud já esclarecia que uma criança não procura leite nas mamas, mas afeto, e se surpreende com a delicia e a maravilha do leite materno. Os experimentos de Harlow (onde os macaquinhos desprezavam a mãe de arame com leite e procuravam a mãe fofinha com água – mesmos às custas da desnutrição) nos ensinaram isso há mais de meio século. Portanto, o seio é o grande objeto erótico da fase oral, mas por certo que os resíduos dessa impregnação sexual nos acompanham por toda a vida. Quanto ao uso “pervertido das mamas”, lembro que toda a construção sexual humana tem estrutura perversa (vide abaixo, Zizek) e que, se a boca fosse feita “somente para comer”, muito do nosso arsenal erótico se desmancharia no ar…

Quanto a “não expor publicamente” isso me remete aos discursos ainda existentes sobre o comportamento dos gays. “Podem ser gays, mas vão se beijar em casa”. Pois eu achei muito pertinente que este casal tenha deixado clara uma fantasia que deve ser compartilhada por mais gente do que pensamos. Por que tanto medo ao ouvir a confissão de uma fantasia alheia?

Porém, acima de tudo, acredito que uma fantasia sexual entre adultos não deveria receber tantas condenações de ordem moral, em especial por parte das mulheres que tão bravamente lutaram pela liberdade de usufruir do prazer que podem obter de seus corpos. Chega de dedos apontados às mulheres. Mamas são eróticas, amamentar faz parte da vida sexual normal de uma mulher. Casais adultos podem explorar sua sexualidade como desejarem. Moralismos são anacrônicos e abusivos. Sexo é legal e quanto mais livre melhor.

E fora Bolsonaro…

Clique aqui para ver a matéria completa.

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Bateria

A bateria do meu velho carrinho faleceu, apesar dos nossos esforços paliativos. Descobri a loja mais próxima e telefonei perguntando se haveria bateria de 60 amperes. O jovem atendente confirmou e lá fui eu para trocar. Fui atendido por um jovem de 20 e poucos anos que me mostrou em um catálogo o tipo de bateria que eu precisava, mas lamentou pois havia se enganado.

Sim, a bateria estava em falta e a que eu precisava chegaria apenas no meio da tarde. Desculpando-se pela falha ele se comprometeu a levar na minha casa, já que eu estava com a Avinha e a Bebel e não teria como esperar.

Pediu meu endereço e se surpreendeu que éramos quase vizinhos, pois ele morava não mais de 500m da Comuna. Perguntou o que eu fazia e eu lhe disse que trabalhei 35 anos como obstetra. Nesse ponto, o dono da loja de baterias apontou para o jovem e falou orgulhoso:

– Esse meu filho está se formando em psicologia.

Surpreso, perguntei a ele o que pretendia fazer depois da graduação, e ele me respondeu sem titubear: “clínica psicanalítica”. Disse que estuda Freud e Lacan e pretende fazer pós graduação aqui mesmo em Porto Alegre. Conversamos sobre alguns dos meus professores daqui, como Alfredo Jerusalinsky, Contardo Calligaris, a psicanálise argentina e a APPOA. Por fim ele me disse que no momento estava fazendo estágio em clínica de crianças, que era o que pretendia fazer no futuro. Nos despedimos e voltei para casa. Agora estou aguardando a chegada da bateria.

Pergunto a você, que leu até aqui: quando você imaginaria que, ao procurar um lugar para trocar sua bateria arriada, seria atendido por um psicanalista?

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Idade Média e Renascimento

A transição entre a idade medieval e o período renascentista foram bastante marcantes. No período medieval havia um marcado teocentrismo que determinava que a relação do homem era com Deus, sendo que os humanos eram sempre tratados como falhos, fracos, inferiores e falíveis. Todas as relações eram mediadas pelo criador, e o ser humano era ensinado desde cedo e temê-lo. Diante do poder divino o homem era incapaz de reagir. Com o Renascimento a relação se dá entre homem e natureza, fortalecendo a noção de que este é capaz de conhecer e transformar a natureza em seu benefício. O Renascimento inauguro uma visão antropocêntrica, onde o homem passa a ocupar o lugar outrora ocupado por Deus.

O Renascimento é marcado por algumas modificações muito importantes. Ocorre um renascimento comercial pela ampliação dos horizontes com as grandes navegações, em especial aquelas patrocinadas pelos ibéricos.  As cidades, esvaziadas durante a idade média e o domínio da Igreja Católica, voltaram a ser ocupadas, criando-se os “burgos”, pequenos vilarejos que deram o nome modernamente utilizado de burguesia, ou seja, aqueles que vivem em cidades.

Não apenas a revitalização das cidades, o comércio e as navegações, mas algumas invenções foram fundamentais no Renascimento, como a bússola, a pólvora, o papel e por fim a mais importante delas: a imprensa, pois com ela foi possível popularizar e disseminar o conhecimento. Também a imponência do poder centralizador da Igreja, que perdurou durante toda a idade média a partir da queda do Império Romano do ocidente, foi abalada pelas reformas protestantes conduzidas por Martinho Lutero, a ponto de produzir como força de reação a chamada “Contrarreforma” católica.

Outros elementos do período renascentista foram os incrementos artísticos – causados pelo dinheiro excedente nas principais cidades que financiaram grandes artistas através do mecenato – como também científico, que produziram o surgimento de gênios como Nicolau Copérnico e Galileu Galilei.

A mentalidade medieval tinha essa perspectiva teocêntrica, e todo o saber deveria ser encontrado nas escrituras. Pouco – ou nenhum – espaço havia para uma visão crítica sobre as palavras sagradas, tratadas como lei acima de todas as outras. O ser humano era fraco, frágil, pecador, insuficiente e só poderia ser salvo através da “Doutrina da Graça”, algo que se concentrava no desejo de Deus, independente das obras realizadas. O corpo era pouco importante, assim como os bens materiais. Toda a variedade dos fenômenos da natureza tinha como explicação a vontade divina, de quem nada escapava. Havia um estímulo ao conformismo, já que a vontade do Criador seria soberana, inobstante qualquer ato que pudéssemos realizar. Nesta visão de mundo a fé era superior a qualquer desígnio da razão.

Em contrapartida, a mentalidade surgida com o renascimento oferecia uma nova visão do homem e sua relação com a sociedade.  A visão passou a ser antropocêntrica, tendo o homem como centro de todas as decisões. O conhecimento deveria partir da experiência, dos estudos e pesquisas e baseados na razão. O ser humano passou a ser retratado como belo, como pode-se observar nas obras dos grandes pintores e escultores renascentistas como Leonardo da Vinci, Rafael, Boticcelli, Caravaggio, Tintoretto e Michelangelo. Os fenômenos da natureza passam a ser explicados pela razão, e não mais pelos augúrios do Criador ou suas vontades inexpugnáveis. O mundo renascentista se preocupava em mudar o mundo, abandonar o pessimismo, olhar o belo dos corpos, o prazer e a luz da razão. Não mais a fé a guiar os caminhos, mas a luzes que emanam de um pensamento claro, livre e baseado no real.

O Renascimento produziu uma grande abertura para a expressão mais nobre da alma humana: um período de luz, afugentando o pessimismo e as visões diminutivas do ser humano, introduzindo o novo tempo que será marcado pela razão e pela expansão do conhecimento.

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Trânsito

O trânsito é um problema em todas as grandes cidades do mundo na atualidade. A verdade é que a imensa maioria delas viu um crescimento exponencial durante o século XX não apenas relacionado ao crescimento vegetativo das populações, mas também por uma migração de populações oriundas do campo, que se deslocaram para a cidade a procura de trabalho e melhores condições de vida. As cidades se encontravam despreparadas para os dois grandes influxos recebidos: as novas pessoas e os veículos automotivos, tratados como o “grande objeto de desejo” ocidental com seu florescimento na segunda metade do século XX.

A partir das descobertas da produção em massa – impulsionadas por Ford e a mecanização da indústria – os automóveis passaram a ser paulatinamente mais baratos e acessíveis a múltiplos segmentos populacionais. Assim, as ruas se tornaram insuficientes para conter o acúmulo de carros em suas artérias, tornando a circulação dramática na maioria das cidades ocidentais de médio e grande porte.  A engenharia de tráfego, com a criação de fluxos de circulação, pontes, viadutos, avenidas alargadas, passarelas, metrôs urbanos, elevadas e toda a criatividade da engenharia de tráfego ainda não conseguiu a solução definitiva. Em algumas cidades – como Londres – a entrada na cidade por automóvel custa um pedágio significativo, para inibir a entrada de mais carros na cidade. Outras como São Paulo chegam a fazer rodízios de placas, impedindo através de multas a entrada de novos automóveis em circulação nas ruas já congestionadas.

Talvez a solução esteja na mudança da matriz “automóvel”, um modelo altamente poluente, perigoso, com inúmeras mortes relacionadas ao seu uso, mas que usufruiu de uma grande popularidade pela sensação de autonomia e liberdade que oferece aos seus usuários, algo que ele carregou neste seu século de glória. Melhorar sensivelmente o transporte de população – metrôs, ônibus, barcos, em especial – é a única forma de deixar a compra de automóveis desinteressante, desafogando o trânsito, despoluindo o ambiente e diminuindo o número de mortes relacionado ao seu uso.

Todavia, para que isso ocorra é necessário que ocorra uma mudança CULTURAL, que inclua também a mudança na matriz industrial brasileira que depende ainda da indústria automobilista. Por isso, essa mudança precisa ser lenta e gradual. Por certo que, para além disso, oferecer estímulos para que atividades possam ser realizadas fora das grandes cidades é uma tendência que já estamos percebendo, não só com os projetos de descentralização, mas também com o advento e disseminação do home office que foi trazido pela pandemia de Covid19. O tele trabalho poderá ser um fator extremamente importante nesse objetivo de desafogar as ruas das cidades, na medida em que a presença física – para muitas profissões – deixará de ser indispensável.

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O Dilema de Snape

Na minha cabeça aparece frequentemente o roteiro de um romance no qual o tema central é uma ação dissimulada protagonizada por um sujeito cuja vida é guiada por um “sentido de dever”, e que leva este sentimento como algo superior inclusive à sua própria vida e o seu legado. Essa imagem aparece para mim desde que eu era adolescente, como um dilema angustiante, uma encruzilhada aflitiva, mas infelizmente percebi que ela nada tinha de original. Em Harry Potter ela aparece no dilema de Severo Snape.

O drama é esse: imagine que você precisa fazer algo justo e correto, mas terá que aparentar estar fazendo exatamente o oposto, agindo de forma muito errada e contrária à sua vontade e seu padrão moral, pois sabe que apenas assim sua ação poderá ter sucesso. A maldade será a máscara perfeita para as suas atitudes. Agirá tendo como orientação secreta a virtude e um objetivo moralmente irrepreensível, porém deverá parecer a todos como egoísta, orgulhoso, vaidoso, imoral, ganancioso e rude. Tudo fará para reforçar sua imagem de mau, pois só assim terá acesso aos recursos para levar a contento sua tarefa elevada.

Todavia, ao contrário de Severo Snape – cuja ações nobres foram desveladas após sua morte e sua memória resgatada como alguém que sempre lutou contra as “forças do mal” – as suas verdadeiras intenções JAMAIS serão descobertas. Você morrerá como traidor, visto por todos como a personificação do mal, passará para a história como o canalha egoísta, aquele que tanto mal fez aos seus semelhantes. Será visto nos livros de história como o perverso, o estúpido, o desleal e alguém que representa o oposto da virtude e do bem. Enquanto isso, em seu íntimo, saberá o bem que acabou produzindo. Você será o único ser no universo a carregar esta verdade, e não há nada e nem ninguém que poderá salvá-lo dessa maldição. Terá apenas as estrelas como testemunhas de suas intenções puras.

A simples ideia de enfrentar esse dilema me deixa angustiado. Pergunto: quem teria a nobreza de aceitar esta missão? Creio que, se esse sentimento existir e for provado, será possível acreditar que a verdadeira fraternidade existe, ou seja, a capacidade de fazer o bem sem receber qualquer recompensa, inclusive aquelas puramente simbólicas.

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